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“Há uma grande vontade de fazer o Seixal alcançar os patamares em que já esteve”

Da queda à reestruturação. O vice-presidente do Seixal Clube 1925, Hugo Rodrigues, conta como é que o clube voltou a ganhar notoriedade.

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Em 2014 o Seixal Clube 1925 estava à beira do colapso. No futebol, o clube apenas tinha um campo de terra, com fracas condições. Por isso, os atletas realizavam os treinos e jogos no campo nº6 do Benfica Campus, e para piorar, os resultados desportivos não eram famosos.

Mas desde a chegada da atual direção, na época 2015/16, a situação mudou. Hoje em dia o Seixal é um clube procurado por muitos jogadores, tanto no futebol, como no basquetebol. O Diário do Distrito esteve à conversa com o vice-presidente Hugo Rodrigues, que nos contou como é que o histórico clube voltou a ganhar notoriedade.

“Conseguimos juntar uma equipa com uma grande ambição e grande espírito coletivo, onde o elo comum é o amor ao Seixal. Aqui existe uma grande base de elementos formados neste clube, como ex-atletas e ex-diretores que regressaram, com muita dinâmica e vontade de fazer o Seixal alcançar os patamares em que já esteve”, disse Hugo Rodrigues.

O dirigente acrescentou que “o melhoramento das condições à prática do futebol fez com que esta modalidade voltasse a apresentar bons níveis. Falo do futebol em particular, porque o basquetebol manteve sempre o nível de qualidade ao longo dos anos. Já o futebol caiu bastante, mas com muito trabalho conseguimos elevar o nosso clube”.

O vice-presidente considera que Fusco foi essencial para levantar o clube. O antigo jogador do Seixal na década de 80 e 90 criou a “Academia de Futebol do Fusco”, que começou por se instalar no Paio Pires Futebol Clube, mas acabou por regressar aos seixalenses. “O Fusco é um homem criado nesta casa, com grande amor e respeito pelo clube que o formou como atleta, e que o levou a profissional”.

“Quando o seixal regressou em força, houve também muitos jogadores a querer jogar aqui”

O ex-jogador foi convidado a juntar-se ao projeto do Seixal, mas tal não se concretizou no primeiro ano da direção. “Como o Fusco não veio, convidámos o Tiago Correia para coordenador do futebol 7. Daí vieram alguns elementos que estavam a trabalhar com o Tiago em Paio Pires, o que acabou por ser um regresso a casa, pois estes treinadores saíram do Seixal quando deixou de haver condições”.

Hugo Rodrigues relembrou que “antes o Seixal tinha muitos jogadores, mas era o único clube do concelho a utilizar um campo de terra, e a ter de jogar a um campo emprestado pelo Benfica. Isto fez com que os jogadores saíssem para os clubes das redondezas, e o maior privilegiado na altura foi o Paio Pires. Mas quando se deu o regresso em força do Seixal, houve também muitos jogadores a querer jogar aqui”.

No ano seguinte, Fusco aceitou a proposta para integrar no projeto do Seixal. “Dissemos: ‘Fusco, está na altura de voltares ao clube, é a tua casa’. Ele abraçou o nosso projeto, o que veio dar um grande ‘boom’ ao Seixal, como é lógico. É um dos grandes elementos que temos cá, não é por acaso que é o coordenador geral, e está a par de tudo, a nível de coordenação interna no futebol”.

“É de louvar quem estava cá nos tempos difíceis, nunca deixaram o seixal cair”

A realidade que o clube vive hoje é totalmente diferente de há cinco anos. “Quando cá chegamos, tínhamos perto de 100 atletas. Mas eu ia assistir aos treinos e via apenas três ou quatro jogadores a treinar por equipa, ou seja, tínhamos jogadores só de fim de semana”, contou o dirigente.

Os jogadores eram convocados por Facebook e Messenger, mas eram as condições da altura, o Seixal não tinha capacidade para mais. No entanto, é de louvar o trabalho de quem estava no clube nessa altura, tanto de atletas, treinadores e diretores, porque nunca deixaram o Seixal cair. Manteram a chama acesa, e isso foi muito importante”.

Mas hoje o clube tem 500 atletas. “Tínhamos de mudar radicalmente e conseguimos. Seguimos à risca uma linha que tínhamos traçada”.

“Reutilização do estádio do bravo acabou por ser uma alavanca para o clube”

O regresso ao Estádio do Bravo “veio ajudar muito. Mas não podemos esquecer em que condições é que entrámos aqui, com o Bravo ainda em processo de obras. Lembro-me que quando fizemos as primeiras semanas de treino, tínhamos de treinar à luz de uma torre de iluminação, a gasóleo, que foi alugada.

Mas isso não nos empurrou para baixo, pelo contrário. Deu-nos mais força e mais alma de querer continuar”, referiu Hugo Rodrigues, acrescentando que “mesmo hoje, o Bravo ainda não está terminado, nem foi inaugurado.

Estádio do Bravo requalificado, onde joga o Seixal Clube 1925

Está ainda em requalificação, ou seja, há muita coisa a fazer aqui. Mas claro que estas condições são muito superiores às que tínhamos lá em baixo, no Albano. Acabou por ser uma alavanca”. O vice-presidente dos seixalenses apelou à Câmara Municipal que “acabe a requalificação do Estádio, para que fiquemos ainda melhores”.

“A época passada teve um sabor doce e amargo”

A pandemia levou à interrupção da temporada passada. “Teve um sabor doce e amargo. Doce porque subimos de divisão em seniores, e amargo porque estávamos na luta para subir nos outros escalões. Em juniores e em infantis estávamos na fase final, com os juvenis e iniciados também a disputarem uma subida de divisão”.

O vice-presidente elogiou o “excelente trabalho que o basquetebol tem feito. Basta dizer que o Seixal é o grande promotor desta modalidade no concelho, porque não há mais nenhuma equipa nas redondezas.

Na formação de jovens, conseguimos enviar sempre atletas para clubes de nível profissional, e promover anualmente muitos jogadores a nível de seleções. Houve um regresso da equipa sénior, que foi muito bom, um trabalho meritório. Infelizmente não conseguimos alvejar a subida de divisão, mas isto é um processo que vai avançando pouco a pouco”, referiu.

No Seixal os jogadores jogam por amor ao clube, sem receberem “qualquer tipo de subsídio financeiro, tanto no futebol, como no basquetebol. São atletas que sentem o clube, que já passaram por cá.

O basquetebol a nível de seniores só está a iniciar agora, mas estou convicto que com o excelente trabalho que se faz naquele pavilhão, que mais cedo ou mais tarde, essa equipa também irá subir de divisão”.

“Queremos dar mais continuidade à formação dos jogadores com uma equipa sub-22”

A equipa de futebol senior conta com novas caras nesta época, mas Hugo Rodrigues não esconde que a “aposta forte é a formação, por isso é que enviámos um projeto à Associação de Futebol de Setúbal para a criação de uma equipa de sub-22.

Sentimos que os atletas, quando saem dos juniores para seniores, tem uma dificuldade imensa em integrar o plantel, seja no Seixal ou em qualquer outro clube da zona. Em quatro anos que estivemos cá, formamos perto de 90 atletas, e só quatro é que atualmente estão a jogar. Queremos dar mais continuidade à formação dos jogadores, e esse projeto de sub-22 também vai alimentar a nossa equipa senior”, disse.

Porém, a presente época vai ser mais exigente e o Seixal teve de se reforçar. “Para enfrentar a primeira divisão distrital, em que existem clubes com orçamentos ao nível do Campeonato de Portugal, tivemos de reforçar a equipa em pontos cirúrgicos.

Chegaram sobretudo com jogadores com alguma ligação ao clube, e outros, que morando aqui na zona, sabem o que é o Seixal. São cerca de nove atletas novos no plantel, que vieram de fora”, revelou Hugo Rodrigues.

“Parceria com a adidas foi um casamento feliz”

Entretanto surgiu uma parceria com a Adidas, que estará presente nas camisolas do Seixal Clube 1925. “A Adidas está implementada no concelho, e face ao crescimento do clube surgiu assim a hipótese para o Seixal. Houve benefícios da parte da marca para que isso acontecesse, e também um investimento da parte do clube. No fundo, um casamento feliz”, contou o vice-presidente.

“A parceria tem sido tão positiva, que chegamos ao ponto de a Adidas fazer uma camisola exclusiva para o Seixal. Se um adepto quiser comprar uma camisola do clube numa loja Adidas, não a vai encontrar, porque é um modelo exclusivo feito para nós. Isto consegue-se quando as parcerias são muito boas. É bom para o clube, dá nome e é um produto bonito, com muita qualidade“.

Estas camisolas serão transversais a todos os escalões, “desde os meninos de 6 ou 7 anos até ao plantel senior, todos vestem de igual”, afirmou Hugo Rodrigues.

“a COVID-19 veio arrasar completamente com os clubes”

O Seixal tem agido de forma minuciosa em relação às medidas preventivas contra a COVID-19. “Temos um manual de procedimentos que foi lançado pelo IPDJ e nós cumprimos à risca. Temos também um livro de registos onde fica apontado quem é que entra no Estádio, e depois mede-se a temperatura e desinfeta-se as mãos. Há um corredor de segurança por onde as pessoas têm de transitar, e o uso de máscara é obrigatório”.

Hugo Rodrigues revelou que “os balneários não estão a ser utilizados, mas estamos a desinfetar tudo o que são objetos de treino”. Numa reflexão sobre o impacto da pandemia, o dirigente considera que “a COVID-19 veio arrasar com completamente com os clubes. Desde março que não recebem entradas de dinheiro, mas têm as despesas mensais garantidas: Manutenção, consumíveis, luz, água e por aí fora. Os clubes têm sobrevivido com muita dificuldade, e é lógico que o regresso tem de ser muito bem pensado.

os clubes podem fazer parte da solução e deviam ser mais ouvidos

Possivelmente vai regressar apenas o futebol senior, mas temos de pensar que quem alimenta o futebol senior é o bar, são as receitas de bilheteira, e o futebol juvenil. Não havendo estas três coisas, em que condições regressará o futebol? Neste processo, os clubes deviam ser mais ouvidos pela Associação de Futebol de Setúbal e pela DGS, ou seja, existir alguém que procure os clubes e sinta o que eles estão a passar. Não digo que não haja contacto com a Associação, porque há. Mas devia existir uma auscultação aos clubes, porque os clubes podem fazer parte da solução”, sublinhou.

“Dizem que o regresso aos treinos pode pôr em causa a saúde, mas eu vou à praia e vejo todos os atletas a jogar à bola sem cuidados nenhuns. Vou aos ringues e aos parques, e vejo a mesma coisa. Os clubes, nesse aspeto, podem ser a solução, porque temos cuidados que os atletas não têm na rua.

Os miúdos precisam de desporto e necessitam de ter atividade, não podem estar sempre fechados em casa. Precisam também de conviver, porque o desporto não é só o exercício, mas também o convívio. Se não o podem fazer nos clubes com segurança, vão arriscar e fazê-lo fora do clube com insegurança.

No fundo, é um risco maior não haver treinos desportivos de forma controlada, do que o contrário. Nós sabemos quem entra e quem sai, fica tudo apontado. Medimos a temperatura e temos todos os cuidados. Isso tudo é parte da solução, por isso é que defendo que os clubes têm de ser mais ouvidos”.

“Houve um grande esforço do seixal para manter empregos”

Hugo Rodrigues assinalou o esforço que foi feito pelo clube para manter postos de trabalho. “Tivemos de parar de investir em algumas áreas para poder manter os empregos das pessoas que fazem a manutenção do estádio, que são as únicas que retiram daqui um rendimento familiar. Houve um esforço grande do Seixal e também abertura destes funcionários”.

Mas o objetivo foi cumprido. “Mantiveram os postos de trabalho, o que é importante. São pessoas com famílias e que retiram daqui todo o seu rendimento mensal. Era muito fácil mandá-los para casa e manter só uma pessoa a tratar do Estádio, mas não foi isso que o Seixal quis fazer. Aliás, se quiséssemos abrir as portas hoje, o Estádio estava pronto para receber publico”, sublinhou.

É um tema que ainda hoje dá polémica, e o Diário do Distrito tem procurado saber as opiniões dos responsáveis sobre as declarações de Zuneid Sidat, na altura administrador da SAD do Amora Futebol Clube. O ex-dirigente disse que o Amora teria de roubar os adeptos ao Seixal, Arrentela e Paio Pires, porque estes clubes estavam mortos. Mas o presidente do Amora, Carlos Henriques, desculpou-se e afirmou que não se revê nessas declarações.

“não fizemos qualquer tipo de queixa contra o amora”

Na entrevista que Carlos Henriques deu ao nosso jornal, o líder dos amorenses disse que “os clubes rejeitaram o pedido de desculpas e o Seixal recorreu à Associação para o Amora ser castigado”.

Hugo Rodrigues sublinhou que tem “muito respeito pelo Carlos Henriques. O Seixal não fez qualquer tipo de queixa, mas esteve reunido com o vereador do Desporto, juntamente com o Paio Pires e o Arrentela

O dirigente seixalense reforçou: “não apresentámos nenhuma queixa em qualquer lugar contra o Amora, porque o Seixal não tem nada contra o Amora. Foram declarações infelizes da parte de uma pessoa responsável dentro do clube, apoiadas por alguém que estava a fazer a entrevista, que também é dirigente do Amora.  

Nós acreditamos que o Carlos Henriques não se revê naquelas palavras, e conhecendo-o pessoalmente, acredito nele. Mas há que tirar ilações daquilo que foi dito, porque não foi só por dizer, é algo pensado.

E os clubes visados têm de pensar no que foi dito e ver o que está ali, ler as entrelinhas, e pensar no que queremos em termos de desporto para o concelho. Queremos manter um movimento associativo forte ou não?”, questionou.

“O Seixal está bem vivo”

“Sabemos que há muita gente do Amora que não gostou daquelas palavras. Ao contrário do que o Zuneid disse, não estamos mortos, e mesmo quando estávamos em dificuldades, tínhamos muita gente a colaborar no futebol e no basquetebol. O Seixal está bem vivo”.

O que foi dito nunca vai acontecer, porque um adepto do Seixal jamais será adepto do Amora. O seixal faz falta ao Amora, e vice-versa. Nós não temos nada contra o crescimento do Amora, desde que este não pise o Seixal”.

Hugo Rodrigues sonha com um futuro risonho para os seixalenses. “Se daqui a cinco anos, depois destes problemas todos com a pandemia, estivermos com a mesma dinâmica com que estamos hoje, compro já esse futuro. Porque esta dinâmica é muito boa, tanto no futebol como no basquetebol. É isto que queremos, porque há um grande interesse pelo clube.

Numa última observação, o dirigente deu um exemplo do impacto que os seixalenses já têm nos adeptos: “Não me lembrava de há quanto tempo é que não via um miúdo com uma bandeira do Seixal na mão, ou um cachecol. Hoje em dia, vemos muitos”, referiu.

O Diário do Distrito já tem agendada uma entrevista com o presidente do Atlético Clube de Arrentela, que estará disponível em breve.

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