Opinião

GRUPOS – os prós e os contras

Numa sociedade tendencialmente gregária como a humana pertencer a diversos grupos, ao longo de todo o processo de socialização faz parte de um processo normativo de desenvolvimento e de dinâmica social, aliás este tema dos grupos sociais e dos chamados papeis sociais ( que no fundo mais não são do que máscaras/funções que nos cabe desempenhar em cada contexto onde nos movimentamos no curso de vida) é objecto de estudo de ciências sociais e humanas como a sociologia, a antropologia ou a psicologia.

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Cada indivíduo possui, naturalmente, a sua identidade própria que vai construindo, apresentando características únicas que o permitem distinguir dos demais actores sociais, para o bem e para o mal, note-se; mas inadvertidamente, todos acabamos por, ainda que inconscientemente, integrar diversos grupos ao longo da nossa existência, que nos atribuem os contextos aos quais teremos que nos adaptar (de forma melhor ou pior conseguida) e onde um determinado padrão de comportamento ou postura é bem aceite socialmente, havendo a tendência para punir socialmente e marginalizar quem não siga esses padrões à risca, ou à vista desarmada.

Em tempos de pandemia com a ansiedade, o medo e a insegurança e incerteza quanto ao futuro, venho sendo acometida de algo que posso designar de “vício de pensar”, e facilmente acabo por refectir sobre certos fenómenos de uma forma que diria algo filosófica pois que me surgem análises que exercitam o meu espírito crítico, e tantas vezes me servem estes pensamentos de válvula de escape quanto aos efeitos nefastos da pandemia, por exemplo em termos de alteração de hábitos de vida, crescente isolamento social e maiores limitações no meu livre arbítrio.

Ciente de que nem sempre sou uma “escritora cor de rosa”, aliás muito raramente exercito tal tipo de dotes (acho que pese embora domine a psicologia positiva em termos teóricos, a racionalidade fria que advém da vertente de jurista acaba por quebrar um pouco esta capacidade de olhar apenas de forma positiva para as coisas, mesmo para as más, embora reconheça que tais faculdades seriam proveitosas em termos de aprendizagem e até com potencial de gestão de ansiedade), acabo assim por, muitas vezes, me atrever a partilhar com o mundo (o meu pequeno mundo) estas reflexões que acredito nem sempre sejam acolhidas como politicamente correctas, até porque não têm, de todo, essa pretensão.

Observando à minha volta, presencialmente e fazendo paralelismos com o passado que todos tínhamos por “normal”  e com o “novo normal” e olhando também para o que vamos observando pelas redes sociais, cada vez mais frequentadas também pelo isolamento e porque nos conferem uma falsa sensação de controlarmos as nossas realidades, pois só publicamos o que entendemos, julgo pertinente, pois, abordar a temática dos grupos.

Desde cedo, em família, somos inseridos em grupos, mas é na escola que muitas vezes sentimos o primeiro choque frontal com a necessidade de sermos aceites em determinados grupos de colegas, ou então, chocamos de frente com a exclusão com a tantas vezes catastrófica sensação de sermos rejeitados, de não nos regermos pelos padrões da maioria e de pagarmos um elevado preço social com tal circunstancialismo. Dando o meu exemplo pessoal, criança habituada a conviver desde sempre com adultos, sem irmãos ou familiares próximos da minha faixa etária, quando entrei no então ensino primário o que me assustou não foram as primeiras letras (aliás rapidamente me familiarizei) o que me assustou foi encontrar crianças que estavam, mais do que eu, familiarizadas com o universo mais corrente daquilo que era ser criança, que gostavam de brincar desordeiramente, que testavam limites, que gostavam naturalmente de desobedecer e contornar regras, que não eram metódicas, que partiam brinquedos, que não estimavam os livros nem o material escolar, e que estranhavam eu ter uma certa tendência para me manter à margem da maioria do “grupo”. Os anos foram avançando, e em pleno ensino básico e secundário, este estigma acabou por me acompanhar, porque era reservada, selectiva nas companhias e amizades e olhada pela maioria como “marrona” aquela que só estudava e não se divertia (reconheço que, de facto e ainda hoje sucede, eu tirava gratificação pessoal de estudar de aumentar os conhecimentos, mais do que me perder em futilidades).

Ora, sucede que, eu continuo a ser selectiva, reservada, e talvez um pouco “snob” para quem não me conheça  verdadeiramente, mas mantenho uma característica que me acompanha desde sempre: não me sinto confortável a agir de determinada forma, a expressar determinada opinião, a aderir a determinadas iniciativas apenas porque tal seja considerado “socialmente correcto”, “politicamente correcto” o que continua a gerar-me dissabores pela vida fora e nos mais variados contextos em que me movo desde que me conheço por gente.

De forma contraditória, talvez, pertenço ao grupo daqueles que gostam de seguir grupos só porque sim, gosto de pensar, decidir, opinar e agir por mim mesma, por convicção e não apenas porque é moda, porque fica bem, porque “não se pode levantar ondas”.

E se é certo que a “grupite” é saudável porque é confortável a quem a ela adere, também há o reverso da medalha, é que quando surgem grupos dentro de grupos, o desfecho final é a divisão das hostes, e quando se dá conta isto pode mesmo ditar o fim de projectos interessantes, porque há líderes de grupos que gostam de “dividir para reinar” mas quando dão por eles, perdem o reino e correm o risco de “ficar a falar sozinhos” tal é o crescendo ditatorial que muitas vezes se gera nos grupos. Todos os seres humanos, mesmo os mais conformados, têm o seu limite mais ou menos rígido para tolerar intrusões, subdivisões, diferenças de tratamento perante situações iguais. Se até nas redes sociais já vi grupos a desfazer-se por alguma intolerância, por falta de diálogo e por algumas atitudes prepotentes, que dizer na dita “vida real”, fora da rede.

Depois, há grupos mais interessantes ou mais influentes que outros, existem teias de segredos que chegam mesmo a agregar nepotismos, trocas de favores e a sensação de pertença a elites (umas vezes ilusória outras, mais raras, real) que em última análise chegam a beliscar a ética ou mesmo a lei.

Poderiamos escrever um verdadeiro tratado sobre este tema, mas não é isso que se pretende, apenas gosto de pensar e de fazer pensar. E por ironia, não gosto de “seguir o grupo” mas também reconheço que me é impossível viver em sociedade à margem total de diversos grupos, afinal, ser gregário tem um preço, e não o ser também tem!

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