Opinião

FALTARAM HERÓIS NA GREVE DE FOME!

Uma crónica de Bruno Fialho

O Movimento “A pão e água” foi criado pelos donos de restaurantes, bares e discotecas deste país para pugnarem por mais e melhores medidas de apoio ao Governo, uma vez que a pandemia e algumas das medidas restritivas sem nexo do executivo estão a arruinar os seus negócios, podendo vir a colocar milhares de portugueses no desemprego.

As minhas posições públicas sempre foram no sentido de denunciar todas as decisões sem nexo deste Governo no combate à pandemia e nos apoios atabalhoados que foram sendo atribuídos aos portugueses que ficaram impedidos de trabalhar, principalmente no que se refere à restauração e aos bares e discotecas.


Assim, quando 9 elementos deste movimento decidiram fazer uma greve de fome em frente à Assembleia da República, onde afirmaram perentoriamente que apenas iriam parar quando fossem recebidos pelo Primeiro-ministro ou pelo Ministro da Economia, fiquei esperançoso que estivéssemos na presença de 9 heróis capazes de combater a arrogância e a incompetência deste Governo, bem como de liderar a luta dos donos dos restaurantes, bares e discotecas e respectivos trabalhadores que estão “a pão e água” há nove meses.

Em Portugal é usual criticar-se ou olhar com desdém a quem consegue algo com o fruto do seu trabalho, mas é normal aceitar-se que os políticos que vivem da política possam ter privilégios que mais nenhum trabalhador tem.

Por isso, não posso deixar de lamentar os desprezíveis ataques pessoais que, nestes últimos dias, fizeram a alguns desses elementos, simplesmente porque eles conseguiram, por meios legítimos, com mais ou menos esforço, os bens materiais que a maioria de nós ambiciona.

A serem feitas considerações sobre a vida pessoal, as únicas que deviam de ter sido feitas era se esses 9 elementos sempre trataram os seus empregados de forma justa e se pagavam a tempo e horas, tudo o resto é apenas escárnio e maldizer.

Relativamente às 16 exigências do movimento “A Pão e Água”, tenho a dizer que sou solidário com a maioria delas, nomeadamente quando pugnam por melhores apoios à restauração e comércio, pela redução de horário; pela reposição do horário, quer de restaurantes e bares, quer do comércio local; pela redução do IVA; pela abertura imediata e injeção directa nas empresas; pelos sócios gerentes terem acesso ao lay-off, independentemente de terem uma ou mais empresas ou acumularem com trabalho por conta de outrem, pois fazem descontos em todas; pelo pagamento do IVA automaticamente aprovado em 6 prestações; pelo reforço imediato das linhas de crédito, retirando limitação de acessos às novas linhas a quem já recorreu às linhas anteriores e novos apoios a fundo perdido utilizando os 3 mil milhões recebidos esta semana da União Europeia; pela isenção de impostos nas rendas dos imóveis arrendados, durante o período de proibição de exercício da atividade; pelo prolongamento dos contratos de arrendamento, caso sejam a termo por mais de 3 anos e pelo prolongamento dos apoios da Segurança Social aos trabalhadores independentes.

Todavia, não posso deixar de dizer que acabei por ficar desiludido com os 9 “activistas” por estes, na minha opinião, terem defraudado as expectativas de que quem luta pela justiça e liberdade depositou neles e que, no final, mostraram ser mais políticos do que muitos dos políticos da nossa praça,

Dentro dos 9 elementos destaco o Chefe de cozinha Ljubomir Stanisic que, na minha humilde opinião, não devia de ter sido a cara deste movimento, pois em Março foi para as televisões, rádios e jornais dizer que o governo não tinha “tomates” por não fechar os restaurantes e que se o governo não o fazia, ele o faria, sendo que, agora, veio defender exactamente o contrário.

Nessa altura, ou o Chefe Ljubomir considerava que o combate à pandemia superava as necessidades individuais dos donos dos restaurantes, bares e discotecas ou então estava refém de alguma situação de ajudas ou apoios com o Governo.

Se nada mudou relativamente à pandemia, pois não há cura ou vacina, considero inusitado ver alguém que defendia publicamente a luta contra o covid-19 como sendo mais importante do que os negócios particulares, vir agora defender que afinal a economia é mais importante.

Talvez o Chefe Ljubomir tenha, finalmente, percebido que as medidas restritivas são excessivas e contraditórias, pois, por exemplo, podemos viajar de avião ou andar nos transportes públicos sobrelotados, sem haver distância mínima entre passageiros, mas os restaurantes não podem utilizar a sua capacidade máxima ou trabalhar em horários normais.

Desta forma, o que me desiludiu foi terem realizado uma greve de fome, onde exigiam reunir com o Primeiro-ministro ou com o Ministro da Economia, para desistirem após terem tido uma reunião de duas horas com o Presidente da Câmara de Lisboa, que não tem qualquer representatividade no Governo.

Se é para terem deixado uma carta com as medidas que pugnam, para quê a greve de fome?

E se era para reunirem com o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, será que os 9 “activistas” representavam o movimento a nível nacional ou apenas os donos de restaurantes, bares e discotecas de Lisboa?

Considero que os 9 elementos, antes de terem iniciado a greve de fome, deviam ter pensado bem se acreditavam naquilo que estavam a fazer, porque para fazer um protesto destes é necessário ter um grande espírito de sacrifício e, principalmente, de herói.

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Talvez, se tivessem lido sobre alguns heróis que lutaram com recurso à greve de fome por aquilo em que acreditavam ou defendiam, provavelmente, não teriam desistido após terem falado com alguém que só lhes pode ter prometido umas bicicletas para o Movimento.

Relembro, para memória futura, alguns dos heróis do passado que se sacrificaram pelos seus ideais ou pelos seus:

A heroína Ana Maximiano, a mulher a quem o Tribunal de Cascais retirou, injustamente, 3 filhas menores, por causa de depoimentos falsos das assistentes socais que acompanhavam o processo e que esteve 18 dias em greve de fome.

O herói Luaty Beirão que passou 36 dias sem comer em protesto contra a sua prisão preventiva, depois de ter sido acusado de tentar um golpe de Estado em Angola.

O herói Pedro Luis Boitel, poeta e dissidente cubano, que se opôs ao governo  e morreu na prisão, depois de 53 dias em greve de fome.

O herói Orlando Zapata Tamayo, que morreu após 85 dias em greve de fome, por protestar contra as condições desumanas das prisões de Cuba.

A heroína Marion Wallace-Dunlop, que fez greve de fome e conseguiu conquistar para as mulheres o direito de voto.

O herói Mahatma Gandhi, que fez duas greves de fome, a primeira pela independência da Índia e a segunda pela pacificação das relações entre hindus e muçulmanos.

Também fica pouco claro os 9 elementos do Movimento não quererem reunir com os Secretários de Estado, mas aceitarem reunir com o Presidente da Câmara de Lisboa.

Por último, espero que o Movimento “A pão e água” não venha a ser prejudicado por não terem havido os heróis que todos aqueles que estão a passar por grandes dificuldades precisavam e que a reunião com o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medida, não tenha sido uma “vitória de Pirro”, pois confiar num “boy” socialista nunca é de fiar.


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