Opinião

Exigimos partos dignos, sem violência e abusos ou medo de morrer

Esta semana escandalizei-me ao ouvir na rádio que a mortalidade materna tem a taxa mais alta dos últimos 38 anos em Portugal. Assim sendo, no ano de 2020, atingiu os 20,1 óbitos por 100 mil nascimentos e a DGS está a investigar, diz-nos a comunicação social. Pior é a realidade se constatarmos que este é o segundo ano consecutivo que a má notícia se mantém e os números aumentam. O ano passado, as notícias diziam-nos que “há 30 anos que taxa de mortalidade materna não era tão elevada” (Observador) – 10 por 100 mil, o número mais alto desde 1991, ano em que ainda eu não era nascida. A tendência parece irrisória, numa era em que a medicina evolui rápido e em que, achamos nós, as condições hospitalares são muito melhores.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), desde1982 que não morriam tantas mães, quer fosse durante a gravidez, parto ou puerpério. Falamos do início da década de 80. Parece impossível, sublinho. Mas Portugal reflete números anedóticos. Alguém para os explicar, ou como sempre o silêncio verifica-se ensurdecedor e as vidas de nada valem?


Em fevereiro deste ano, as gordas dos jornais expuseram no âmbito da violência obstétrica que “práticas não recomendadas pela OMS [têm] taxas em Portugal acima da média europeia”. O estudo europeu, realizado no âmbito do projeto Improving Maternal Newborn Care, que incluiu mulheres portuguesas trouxe-nos alguns dados:

– 31% das mulheres portuguesas tiveram um parto vaginal instrumentado, com recurso de fórceps ou ventosas para auxiliar a expulsão do feto, mais 20,3% do que a nível global;

a 63% das participantes não foi pedido “qualquer consentimento”para a realização do mesmo. A média europeia é de 54%, o que já é alto;

– a manobra de Kristeller (pressão externa sobre o útero) não é aconselhada pela OMS, mas foi realizada em 49% das portuguesas com partos vaginais instrumentados, mais 8% do que a média europeia;

– 41,6% das mães portuguesas não tiveram envolvimento nas escolhas durante o parto. A média global registou um nível de 34,7%, acima do desejável, mas consideravelmente abaixo de Portugal;

– 22,7% disseram ter sentido algum tipo de abuso verbal, emocional ou físico durante o parto, enquanto a média geral é de12,5%, e quando questionadas sobre se foram tratadas com dignidade, 32% das mães com parto vaginal disseram que não, contrastando com os 23,9% de média europeia.

A Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto tem abordado alguns problemas que a saúde feminina revela em Portugal e que também dão que pensar.

– Médicos/as, enfermeiros/as e auxiliares que gritam com as grávidas e/ou ignoram o seu sofrimento – pois o parto será decerto um momento de pouca agitação, em que tudo o que a mulher precisa é de ouvir gritos em vez de um acompanhamento dedicado e compreensão;

– O famoso ponto do maridofeito sem ordem, com um único propósito machista e prejudicial à saúde feminina – o ponto do marido é realizado para reduzir o canal vaginal pós-parto, dando um ponto extra, um ponto a mais na mulher (após a sutura de uma episiotomia – corte do períneo se necessário), como se a mesma nunca tivesse tido um parto ou até, fosse virgem. Como o nome indica, o objetivo é nada mais nada menos do que dar prazer sexual ao “marido”.

Até no momento do parto – até ver impossível de realizar por um homem -, a saúde e o corpo da mulher são postos de lado, em prol da satisfação do sexo masculino. Muitas mulheres relatam imensas dores e a impossibilidade de voltar a uma vida sexual ativa e saudável como anteriormente, e só descobrem que foram submetidas a esta prática, muito tempo depois. É pelo seu bem? Não me parece. Medieval? É mais por aí, já que até a própria episiotomia que é um procedimento médico também se pratica mais do que aconselhado.

– A privação do companheiro/a estar na sala de parto, principalmente com a desculpa da Covid-19 – segundo consta algumas maternidades escudaram-se na pandemia para evitar a presença de mais pessoas nos hospitais, quando, estava decretado o direito à assistência às grávidas/partos, com teste negativo.

– O plano de parto escrito de fio a pavio – para que seja de caras que não nos podem fazer algo que não queremos, porque já escolhemos o que queremos e como, e porque a nossa palavra não chega. E mesmo assim os testemunhos que se ouvem é de que nem isso é muitas vezes respeitado e seguido. Ninguém põe em causa que não se siga um plano de parto em casos que seja preciso agir em conformidade para salvar vidas, mas sim quando estão apenas preferências de médico/a vs paciente em causa, optando pelo capricho e desvalorização da mulher que vai dar à luz e vive um dos momentos mais importantes da sua vida. Nesses casos, é lastimável, no mínimo.

De acordo com os Direitos da Mulher na Gravidez e no Parto “Todas as mulheres têm direito a serem bem tratadas e estarem fora de perigo”; “Todas as mulheres têm direito à informação, consentimento informado ou recusa informada e respeito pelas suas escolhas e preferências.”; “Todas as mulheres têm o direito a serem tratadas com dignidade e respeito.” São direitos básicos, e creio que percebemos rapidamente que estes três são, assim, violados em larga escala na lidação da saúde feminina em Portugal, aquando dos atos acima praticados.

Em breve chegará a altura em que quero ser mãe, e não desejo que esteja na minha lista de pensamentos todas estas preocupações (bárbaras), que saem nas notícias como as descritas, e em última análise, a minha morte. É certo e sabido que a saúde em Portugal precisa de investimento e atenção, e não pode ser nesta matéria que as mulheres ficam esquecidas ou reduzidas, como noutras áreas o são. Afinal, para a natalidade aumentar, não aumenta sem nós.

De acordo com o PORDATA, a natalidade diminuiu aproximadamente 30% nos últimos 10 anos. Se em 2001 nasceram 112 774 bebés, o ano passado nasceram 79 582. Já sabemos que o que aumentou foram os que nasceram e ficaram órfãos de mãe.

O Dia Internacional da Saúde da Mulher assinala-se anualmente a 28 de maio e tem como objetivo primordial consciencializar para as questões relacionadas com a Saúde e os Direitos Sexuais e Reprodutivos da mulher (contribuindo para a evolução do seu bem-estar), que ainda revelam demasiadas carências neste que se diz ser um país desenvolvido. Espero, também eu enquanto mulher, respostas eficazes da DGS e deste Governo, face às últimas notícias. E não me venham dizer que é porque somos mães mais tarde, que isso não é novidade.


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