«Estamos aqui para ajudar, mas também precisamos que nos ajudem»

O Diário do Distrito foi conhecer a Associação ‘Dá-me a Tua Mão’, sedeada no concelho do Seixal, e fundada em 2004, que tem ajudado centenas de pessoas ao longo dos anos e agora enfrenta a crise criada com a pandemia do COVID-19.

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Em épocas de crises, a solidariedade demonstra-se de várias formas. Mas mesmo em tempos de abundância há sempre quem precise de uma mão auxiliadora.

O Diário do Distrito foi conhecer a Associação ‘Dá-me a Tua Mão’, sedeada no concelho do Seixal, e fundada em 2004, que tem ajudado centenas de pessoas ao longo dos anos e agora enfrenta a crise criada com a pandemia do COVID-19.

“A Associação ‘Dá-me a tua mão’ nasceu há quinze anos para auxiliar pessoas carenciadas e sem-abrigo, embora felizmente estes sejam poucos no concelho do Seixal” explica Raquel Pedro, um dos rostos mais conhecidos da associação.

“Temos alguns casos de pessoas que vivem em condições difíceis, num contentor e outro num carro, mas para este está tudo encaminhado para lhe ser entregue uma casa através da Câmara Municipal do Seixal.”

Os voluntários estão divididos em duas equipas: “os seniores de manhã, que recebem as pessoas para os cabazes solidários e preparam os jantares; e um grupo de pessoas mais jovens que faz a volta à noite, de distribuição das sopas e sandes”.

 Ajudar em tempos de crise

O ano de 2004, e a crise que o marcou, serviu de arranque ao projecto, na altura sob a designação de ‘Equipas de Rua’, “formadas por várias catequistas da Paróquia da Arrentela, que percebiam que muitas crianças que frequentavam a catequese, ali chegavam com fome. Começaram então a fazer sopa em casa e à noite iam distribui-la, com os seus carros, em vários pontos estratégicos, mas isso não chegava, porque cada vez apareciam mais pessoas.”

A dispensa no dia da visita do Diário do DistritoIniciou-se então um processo de angariação de voluntários e uma nova organização do sistema de distribuição, “para a qual contribuiu o Padre David e a Irmã Arminda. Com dádivas, foi possível adquirir a actual sede, e uma carrinha Toyota Hiace em segunda mão. Arranjaram também umas panelas grandes para a confeção das sopas, que eram depois colocadas na carrinha e distribuídas.”

Veio depois a necessidade do pão “e conseguimos que nos fossem dadas as sobras de supermercados, padarias, pastelarias, etc. bem como dádivas de fruta e de leite e dos restaurantes as sobras de comida, com que ainda hoje alimentamos diariamente 80 pessoas pelas zonas de Arrentela, Seixal, Amora e Paio Pires. A volta da noite começa cerca das 21h00 e termina perto das 00h00 porque além da comida, também se dá sempre algumas palavras às pessoas.”

Todo o processo foi evoluindo e foi formada a Associação, embora não esteja registada como IPSS “e por isso não temos acesso a apoios monetários” refere Raquel Pedro.

Sem estes, a Associação “tem de arranjar forma de pagar os seguros das duas carrinhas e o combustível. O que nos vale são as feiras de velharias na Amora e no Seixal, todos os sábados, porque nos dão muitas peças de casas que vão vagando. Temos também uma loja social, onde vendemos roupa que nos é doada, mas a preços simbólicos, porque a maior parte é dada a quem nos procura.”

Na sede funciona também o Centro Paroquial de Bem-estar da Arrentela “que nos pagam a conta da electricidade e da água” e onde muitos utentes vão também levantar bens ao abrigo de programas da Segurança Social e da UE “alguns deles que já tinham sido apoiados pela Associação, mas foram depois encaminhados para estes programas”.

A comida preparada para distribuição e o forno
A dispensa no dia da visita do Diário do Distrito

Empresas e autarquias solidárias

O apoio de empresas é fundamental para este processo. “A Panisal doa diariamente 50 carcaças do dia; o e.Leclerc dá-nos as sobras do pão e bolos, bem como outras pastelarias. A sopa tem sido doada pelo Colégio O Pica-Pau e o restaurante A Valenciana, duas vezes por semana, Colégio O Bom João, uma vez por semana, e do Colégio Guadalupe recebemos quase todos os dias sobras de comida.

Apenas à terça-feira não temos dádiva de sopa, mas como vamos congelando a que sobra dos outros dias, conseguimos que não falte. E é com isso que vamos gerindo todo o processo.”

A acompanhar as sopas, vai também fruta da época, bolos “e duas sandes, com manteiga, queijo ou fiambre. Todos os sábados um senhor nos traz um queijo em barra e por vezes um fiambre inteiro, e isso embora não chegue para toda a semana, é uma enorme ajuda. Quando temos chouriço, também fazemos sandes com este, e depois com doce ou marmelada.”

Além destas refeições, a ‘Dá-me a tua mão’ entrega ainda quinzenalmente cabazes solidários a cerca de 300 pessoas distribuídas por 110 famílias “grande parte delas famílias numerosas, com 6 a 7 elementos, e pessoas sozinhas, com cerca de 60/70 anos, sobretudo mulheres, que nunca trabalharam e dependiam dos maridos. Recebem os subsídios de viuvez que não chega para as despesas todas e para a medicação, e temos também agregados de três a quatro pessoas, em que apenas o marido trabalhava e ficou desempregado.

Estes cabazes são compostos por aquilo que vamos buscar de véspera ao Banco Alimentar, fruta, legumes, e alguns enlatados e leite, a que juntámos as dádivas dos supermercados.

E uma vez por mês distribuímos o que chamamos ‘a box’, que são produtos para a despensa como massas, óleo, etc.

Também recebemos donativos de particulares, como alguns voluntários que nos seus locais de trabalho organizam recolhas e há iniciativas como eventos em ginásios, em que a entrada era paga com géneros alimentícios.

Ao longo da semana vamos gerindo o que nos dão para que chegue um bocadinho a todos. Mas não é fácil, e neste momento, por exemplo, temos apenas 19 latas de salsichas para 50 pessoas…”

Um grande auxílio chegou à Associação com um apoio da Câmara Municipal do Seixal, na compra da carrinha que actualmente distribui as refeições da noite, “porque a antiga andava sempre avariada, o que era uma grande despesa e comprometia as distribuições”.

No Natal de 2018, o Colégio Atlântico “onde uma das nossas voluntárias é professora, fez um evento cuja entrada era paga e a verba seria para nos ajudar a comprar uma nova carrinha.

O nosso projecto era juntar algum dinheiro, com o que tínhamos conseguido nas vendas das feiras, eventos, rifas, etc, e vender uma das carrinhas, mas no evento o presidente Joaquim Santos anunciou que a autarquia ia dar a verba que faltava para a compra da carrinha e assim aconteceu.”

Também a Junta da União de Freguesias de Seixal, Arrentela e Aldeia de Paio Pires tem ajudado a Associação “e agora perante a pandemia do coronavírus, enviaram um email a disponibilizar ajuda e voluntários, mas embora tenhamos respondido afirmativamente, ainda não obtivemos resposta, embora tenhamos consciência que nesta altura as solicitações devem ser imensas.”

Outra ajuda que a Associação recebeu veio de um projecto que foi distinguido pelo prémio BPI ‘la Caixa’, e da Missão Sorriso do Continente, com a entrega de uma arca refrigeradora industrial e um forno de pão, respectivamente.

Pandemia de COVID-19 agravou problemas

A pandemia de coronavírus 19 que o mundo e o país atravessa veio complicar muito a situação da Associação.

“Estamos reduzidos a 5 voluntários, na equipa da manhã, não podemos brincar com a pandemia e os seniores que estão a ajudar-nos, optaram por ficar em casa por precaução porque somos um grupo de risco.”

Por outro lado, os pedidos de ajuda aumentaram bastante “temos tido muito mais pedidos, sobretudo para comida. De manhã vem cá gente que conheço da zona a pedir, são pessoas com trabalho precário, outros vendiam produtos da pesca, e vários elementos da comunidade cigana também está com graves problemas porque os mercados estão encerrados.

Têm-nos chegado casos pontuais muito complicados, batem-nos à porta a perguntar se ‘não há qualquer coisa para comer?’ e outros são pessoas que já tinham sido ajudadas no passado e voltam a precisar de apoio.”

Os pedidos vão para os cabazes e também para as sopas “mas a nossa despensa está cada vez mais vazia, precisamente porque as sobras dos supermercados têm diminuído. Recebíamos muitos produtos perto do final do prazo, mas perante a pandemia, tudo tem sido vendido.

E depois os colégios encerraram, muitos dos restaurantes também, e agora não temos as dádivas de sopa e sobras. Agora não temos nada a que nos possamos «agarrar».

Vamos gerindo com o que temos e vamos conseguindo fazer sopas com aquelas bases de três litros, a que juntamos cenoura e arroz e alguma massa ou legumes.

Quando não conseguirmos ter sopa, e isso já tem acontecido, damos leite às pessoas, mas só porque tivemos umas doações de leite, que nos soube tão bem, porque assim permite que se faça uma refeição com as sandes.

Também nos têm dado as embalagens com sopas, que vão sendo divididas e aquecemos sempre antes de as entregar, porque nem toda a gente as consegue aquecer.”

Raquel Pedro refere algumas histórias recentes que presenciou. “Um rapaz pediu-nos comida, disse-lhe que tínhamos sopa e aceitou, e pediu uma colher. Perguntei-lhe se ia comer logo, porque eram 9h00 e ele disse que sim, porque não comia nada desde o dia anterior.

Há uns dias apareceu uma utente ainda com os cartões antigos que distribuíamos, a pedir para ser incluída nos cabazes solidários, e quando lhe disse que já nem usávamos aqueles cartões, respondeu que ‘agora estou a precisar novamente’.”

Uma das preocupações mais prementes da Associação é conseguir responder aos pedidos.

“Custa-nos muito, mesmo muito, dizer a estas pessoas que têm de ficar em lista de espera. Mas a nossa capacidade está a esgotar-se. Para esta semana, para 53 famílias, temos 13 latas de salsichas, quando devíamos ter uma para cada uma no mínimo.”

E deixa um apelo para a comunidade: “precisamos essencialmente de géneros alimentícios, como as salsichas e o atum, que com uma massa ou arroz, podem fazer uma refeição.

Foram essas as refeições que chegámos a fazer aqui, para a noite, mas depois se fazemos essas refeições com o que temos, deixamos de ter produtos para colocar nos cabazes para as famílias.

Se tivéssemos muito, faríamos as refeições, porque não temos medo de trabalhar, estamos aqui todos os dias voluntariamente, mas por uma questão de logística não é possível.

Até porque as pessoas que recebem os cabazes não recebem a comida da carrinha, cuja distribuição se destina a pessoas em condições de vida muito difíceis.”

A pandemia veio levantar novas preocupações. “As pessoas ainda não estão a ver bem como isto irá acabar, mas e depois, como será? Retomam aos seus empregos, mas estes ainda vão existir?

Da nossa parte estamos aqui para ajudar, mas também precisamos que nos ajudem, de outro modo não conseguimos gerir. Agora, cá estamos, um dia de cada vez, e só pedimos a Deus que nos dê saúde para poder continuar a ajudar os outros.”

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