Opinião

Era uma vez… ou talvez não.

Há muitos, muitos anos era o mais comum neste país. Um evento festivo, que juntava famílias e amigos. O que havia de melhor para além da matança do porco? Grande festa!

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Era um bicho miserável, que vivia num curral escuro e pestilento e que se alimentava não raras vezes das sobras de quem o criava. E nem o facto de viver na cave com a função acrescida de zelar pelo aquecimento central da habitação o salvava de tão demoníaco destino.

Quando não estava a comer, este bicho dormia – era a fase da engorda. Come lá mais este talo de couve e pára de grunhir, cabrão! Uma alimentação pouco dispendiosa para os seus 44 dentes, com alguma ração à mistura. E muita, muita água, certamente para ajudar a engoli-la.

Era fácil criá-lo. Um espaço de dimensão reduzida que garantia a impossibilidade de se mexer para não perder calorias. Quando calhava, limpavam o chão do curral, muitas vezes coberto de mato e fetos para ser mais fácil retirar o esterco com a gadanha. E lá iam alimentando o bicho que engordava sem questionar a sua sina sob os olhares arregalados da família que sonhava com ele pendurado num espeto.

Já nasceram para isso, diziam confiantes enquanto encolhiam os ombros e arqueavam as sobrancelhas, mas sempre em forma de lamento, como se, na verdade, soubessem que o que faziam ao animal era um ato do diabo.

E era assim – com uma esperança média de vida de 12 anos, o porco tinha a sua vida limitada a 9 meses ou a pouco mais. Sim, este era o tempo que demorava a atingir o tamanho e o peso necessário para fazer as delícias de quem o pretendia devorar. Quanto? 120kg? Vamos lá, pessoal, repiquem os sinos que a festa é hoje!

Eram precisos 4 ou 5 homens para pegarem no animal. Deitavam-no numa mesa ou num banco comprido e largo. Não era fácil, acredita. Era precisa força para o segurar. Depois punham uma argola ou um laço no focinho e faziam o trabalho. Espetava-se uma faca comprida e bem afiada por baixo do pescoço com o objetivo de atingir o coração. E o sangue jorrava até à última gota para que a carne ficasse limpa.

Sim, é verdade, o animal demorava cerca de 10 minutos a morrer e o seu sangue irrompia incansável para uma bacia que ficava a transbordar de um vermelho vivo e quente.

E mesmo já morto ainda dava um coice final capaz de rasgar a carne de uma pessoa. Depois, era chamuscado com um maçarico a gás e pendurado num espeto para ser desmanchado. Era uma alegria. Os mais sensíveis fugiam por não aguentarem ver tamanha barbaridade. E os gritos de dor e de aflição do animal? Ecoam ainda hoje na memória de alguns. Uma festa imperdível! Que dias memoráveis, daqueles que ninguém precisa que voltem mais!

Sim, era normal todos saberem que havia festa – afinal, os gritos do condenado ouviam-se a uma distância de quilómetros, empurrados pelo vento até à casa da minha avó. Estão na minha memória, meu querido concepturo ou conceptura. Aguardo com expetativa pelo teu nascimento, porque só ele me dará a paz para poder escrever com o tempo verbal no pretérito.

Sim, porque ainda hoje, apesar de proibidos, estes atos do diabo ainda se praticam. Por isso, agora dirijo-me a si, sim a si, que está aí a ler esta crónica – há um grupo no facebook intitulado Movimento Contra a Matança do Porco que é seguido por 542 pessoas e que assume como missão denunciar às autoridades matanças ilegais. Se vir divulgado algum contrassenso, que é como quem diz, uma festa com matança, avise os seguidores deste grupo ou seja o próprio a fazer a denúncia. Por regra, quem organiza estes dias de aleluia esquece-se sempre que o porco é um animal sensível e inteligente, descurando a obrigatoriedade da insensibilização prévia ao abate por parte do médico veterinário municipal.   

Faça também parte desta história, mas do lado certo.

Voltarei, porque, afinal, “somos todos iguais”.

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