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Entrevistas: Paula Biscaia abre salão de cabeleireiro em Grândola após Confinamento

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Chama-se Paula Biscaia e para além de cabeleireira, é uma das empresárias mais destemidas de Grândola.

Mesmo num período complicado, a hairstylist alentejana não baixou braços e abriu o Espelho Meu, um espaço dedicado à beleza dos cabelos.

O Diário do Distrito esteve à conversa com Paula Biscaia sobre estes novos desafios.

Quem é a Paula Biscaia?

A Paula Biscaia é uma aventureira, uma sonhadora, apaixonada por aquilo que faz, que pensa sempre primeiro nos  outros e depois é que pensa nela própria, com um sexto sentido muito apurado (não é muito fácil me enganarem) e uma pessoa muito sensível, facilmente me põem a chorar.

Vivi alguns anos em Inglaterra, longe do meu país e da minha família e isso custou me bastante, sofri muito, e só quem já passou por isso consegue perceber. A vida lá fora é muito dura, os hábitos e costumes ingleses nada têm a ver com os nossos, para uma pessoa como eu que adora socializar, adora sol, calor e boa comida, sente se posta de parte, era assim que me sentia, foi muito duro.

 Ainda foram 9 anos por lá, mas já não aguentava mais, precisava de voltar (até a minha pele já era igual á deles, branquinha, branquinha).

Por outro lado, o ter vivido lá fez me ver as coisas de forma diferente, dou muito mais valor ao nosso país, adoro Portugal e a nossa gente, em termos profissionais foi excelente, tirei lá o meu curso de cabeleireira, fiz muitos workshops, pratiquei muito, lá o mundo dos cabeleireiros é muito exigente e aprende se muito mais… Quando se saí do curso de cabeleireira já estamos prontas para trabalhar em qualquer “Top Salon”, saímos preparadas para tudo, depois a partir dai é a prática que conta, o querer fazer mais e melhor.

Como e onde nasceu a paixão pelo mundo dos cabelos?

A paixão pelo mundo dos cabelos nasceu desde muito nova… fui fazer umas horas a lavar cabeças num salão e aquele mundo fascinou-me… tive lá pouco tempo, o destino assim quis, engravidei do meu primeiro filho e como não tinha contrato mandaram me embora. Fui mãe muito nova com 21 anos tive o primeiro filho e dois anos depois o segundo, tenho dois rapazes um com 20 anos e outro com 18 que foram a melhor coisa que a vida me deu. Entretanto arranjei outros trabalhos, mas não saia da minha cabeça o ser cabeleireira. Esperei que eles crescessem um pouco e assim que pude e a vida me deu oportunidade inscrevi me no curso de cabeleireira do IEFP de Fátima, perto de onde morava na altura, mas a lista de espera era grande.

Na altura estava sozinha com os miúdos em Portugal, pois o meu ex-marido já trabalhava em Inglaterra á um ano e tal e estava a fazer tudo para podermos ir para lá todos viver.

Até que  fui lá ter com ele numas ferias de verão e com a ajuda de uns amigos de lá, aluguei casa e tratei de tudo para ir para lá, vim com os miúdos a Portugal, tratei de embalar tudo e mandei um camião de mudanças levar tudo, comprei viagem de avião para nós os três e dois dias antes do voo recebo uma carta do IEFP a chamarem me para entrar no curso, fiquei tão triste….

Mal cheguei a Inglaterra e depois dos miúdos estarem orientados na escola, pensei, é desta, e inscrevi me no colégio em Connah´s Quay para tirar o curso.

Não foi nada fácil, chamaram me um mês depois, o meu inglês era de “praia” literalmente, (os meus pais puseram me no Cambridge School em Setúbal e eu em vez de ir as aulas fugia para Troia para a praia.)não entendia quase nada do que me diziam, mas percebi que tinha que passar num teste para saber se tinha jeito ou não.

Apresentei me no dia marcado, éramos umas 25 e tínhamos 25 clientes que foram distribuídas por cada uma de nós para fazer um brushing, calhou me só a que eu não queria… cabelo curto, cheio de redemoinhos, a mais difícil…toda eu tremia, nem sei bem como consegui fazer o brushing, olhava para a senhora e pensava que aquilo não estava nada de jeito, mas já nada havia a fazer, tínhamos tempo marcado para fazer o trabalho e já o tempo tinha acabado. Fomos avaliadas pela postura, a forma de pegar no secador, a de pegar na escova, etc… passei e levei uns elogios no bolso de volta para casa.

Assim começou a minha verdadeira carreira, no meu primeiro ano fui “Student of the Year”,  e modéstia á parte foi bem entregue, custou me muito, passei noites inteiras sem dormir, ia deitar os miúdos e fazia diretas para traduzir de inglês para português o que tinha escrito nas aulas, e depois para fazer os trabalhos de casa pedidos fazia em português e traduzia no Google para inglês, dava imensos erros, e perdia horas infinitas naquilo, jogava jogos online para aprender as palavras em inglês e alguns termos técnicos….depois acabei os primeiros dois anos, era oficialmente cabeleireira e o gosto pela profissão era cada vez maior, lá no fim dos dois anos somos obrigados a fazer um ano de estagio num cabeleireiro para podermos nos inscrever no nível 3.E assim foi, fui trabalhar para o TONY & GUI de Chester, mas não era aquilo que queria, tínhamos que nos especializar numa só coisa, ou coloração ou corte ou penteados e eu queria aprender mais, então fui trabalhar para outro salão onde me deram a oportunidade de fazer um pouco de tudo e construir a minha clientela. Ao fim de um ano, inscrevi me no 3º ano de curso, “correção de cor e penteados artísticos”, ganhei um concurso de penteados no pais de Gales com um corte de homem com desenhos de chamas na lateral ( muito á frente para a altura)  agora olho para as fotos e acho horrível… entretanto tirei também o curso de formação de formadores ao mesmo tempo que trabalhava em salão.

Tinha um patrão excecional, aprendi muito, mas também trabalhei muito. Pouco tempo antes de vir para Portugal deixei esse salão e fui trabalhar para outro, aluguei uma cadeira e construi a minha clientela … estava tudo encaminhado, eu é que não era feliz sem sol…

É considerada das cabeleireiras mais criativas do Alentejo Litoral. Sabe justificar o porquê deste cognome?

Sou??? Não sei explicar, mas fico orgulhosa disso, talvez seja pelo amor que tenho pela profissão e por aquilo que faço. Não basta fazer, tem que se gostar, tem que se saber ouvir a cliente, saber o que ela pretende,  metermo-nos no lugar da cliente. Uma cabeleireira tem que ser criativa, afinal o que é um cabeleireiro sem criatividade? Um cabeleireiro tem que criar, inovar, aprender novas técnicas para poder dar o melhor ao seu cliente.

É das cabeleireiras que procura mais formação. A formação é importante em que sentido?

A formação para mim é das coisas mais importantes nesta profissão, não passo sem ela, e acho que nenhum profissional o devia fazer, mas infelizmente há muito profissional que não liga á formação. Por um lado consigo entender, a formação é cara, temos que perder dias de trabalho, deixamos de ganhar e ainda gastamos dinheiro, mas por outro lado, sem ela não aprendemos coisas novas, técnicas novas, os últimos cortes, as técnicas de aplicação de cor, as tendências, aprendemos também  com os nossos colegas, troca mos ideias, etc… é um mundo que eu não prescindo e que agora com esta nossa nova maneira de viver não é a mesma coisa. Temos tido formações online mas na nossa profissão, não há nada como meter as mãos nos cabelos e aplicar as técnicas na hora. Tenho esperança que consigamos voltar brevemente .

Tem algum/a colega que seja uma inspiração?

Sim tenho o meu querido amigo David Xavier um dos melhores hairstylist portugueses, conheci o  numa formação de corte ,ele era o formador. Um excelente profissional, com um respeito enorme pelo cliente e por tudo o que faz, adoro-o como profissional e como pessoa, até costumo brincar e digo que o David sou eu em homem…pensamos da mesma forma e temos os mesmos ideais, amamos o que fazemos e respeitamos o próximo, como profissionais e como pessoas. Trabalha muito e todo o sucesso que ele tem é merecido.

Gosta de dar também formação. Qual é o seu forte?

 Costumo dizer uma frase que não é minha “ quando não sabemos aprendemos e quando sabemos partilhamos”… Gosto de partilhar e por isso também gosto de dar formação. Gosto mais de corte e penteados… Já fiz muitas formações de corte e acho que me entendo bem com a tesoura, mas também gosto muito de penteados artísticos, e aí acho que o devo à minha historia inglesa, fiz muitos penteados, o cabeleireiro onde trabalhava era perto de um campo de corridas de cavalos, e para quem não sabe, na Inglaterra veneram corridas de cavalos, e as senhoras vão muito bem vestidas, muito bem penteadas e maquilhadas. Fazíamos muitos penteados e aplicávamos os famosos chapéus ingleses em cima do penteado de maneira a que quando o tirassem o cabelo estivesse intacto. Adorava aqueles dias.

Qual é a história do Espelho Meu? Onde fica?

O Espelho meu era suposto vir muito mais tarde na minha vida… O meu marido já trabalha em Grândola há uns anos e eu tinha um salão em Santiago do Cacém. Ainda moramos lá, mas o ano passado decidimos que viríamos morar para Grândola e estamos a tratar dos papeis para podermos construir casa, então em Fevereiro eu disse lhe que ia por o Salão em Santiago á venda, mas sabia que iria demorar a vender e que o provável era vir morar para Grândola primeiro e depois quando vendesse o salão logo montava um em Grândola.

Em Fevereiro, um mês antes do confinamento, antes de por á venda ao público falei com as minhas colegas de trabalho para saber se elas queriam ficar com o negocio antes de por á venda online e uma delas disse que era o sonho dela ter um salão e que não queria perder a oportunidade pois, o salão já tinha a clientela feita e ela já trabalhava comigo. E assim foi, inesperadamente, o salão estava vendido. Mas em março apareceu o Covid-19 e fechamos portas, já não voltei a trabalhar la, passei o salão para a colega. Depois do desconfinamento foi procurar sitio em Grândola para abrir um novo espaço. Felizmente encontrei um espaço excelente mesmo no centro de Grândola, na rua Humberto delgado nº34B mesmo ao lado do Novo Banco.

Como foi abrir um negócio, um dos mais afetados pela crise sanitária, em pós confianamento?

Foi e continua a ser difícil….Abri o Espelho meu com um conceito diferente do que já havia, fiz um estudo de mercado e percebi que fazia falta algo diferente. E o estudo de mercado estava certo, está a correr muito bem, o meu trabalho é a minha publicidade.

No entanto e na fase em que estamos não é fácil, já é difícil abrir um cabeleireiro e construir uma clientela nova numa época normal, mas abrir, fazer nova clientela e com um vírus atrás é muito mais difícil. Felizmente tenho muitos clientes que vieram atrás de mim   até Grândola e também já tinha clientes que iam de Grândola e arredores   a Santiago, só mudei de sitio para uns ficou mais perto e para outros mais longe, mas não é assim tão longe… o cliente quando gosta faz kms, eu vou cortar o meu cabelo com o David Xavier a Lisboa e não o troco por nada. Cumprimos todas as normas de higiene recomendadas pelo DGS, temos dístico de Espaço seguro, e esperemos que aos poucos as pessoas continuem a querer tratar da sua beleza.  Já agora aproveito para pedir ás pessoas  que compreendem e ajudem o comercio local, pois estamos a viver tempos muito difíceis. Não engordem as grandes multinacionais, façam as compras e gastem no comercio local, o pequeno comercio precisa  mais que nunca. Estamos a chegar ao Natal, comprem as vossas prendas no comercio local, ofereçam um voucher de cabeleireiro ou estética, comprem coisas artesanais, comprem fruta na frutaria local, carne no talho do vizinho, comprem roupa na loja da vossa rua, na loja do amigo ou da amiga, é muito mais provável apanharem covid numa ida ao fórum do que no nosso comercio local onde todos nós cumprimos as normas recomendadas pela DGS.

Como têm corrido as coisas?

Está a correr bem ,se não fosse o Covid seria muito melhor, ainda estou a conhecer a zona, o publico, a terra, mas eu adoro Grândola e sinto me em casa.

Quais os serviços que as pessoas mais recorrem?

 No salão em Santiago era muito procurada pelos penteados para festas, penteados de noivas, e alisamentos mas também para corte e cor, aqui em Grândola e agora a realidade também é outra( não há festas e casamentos são poucos) sou muito procurada para madeixas e alisamentos , mas estou deserta que voltemos á normalidade, pois adoro pentear noivas e adoro festas e todo o glamour envolvente.

Em que área do mundo dos cabelos se sente mais especialista?

Sinto me confortável com os penteados e com o corte, mas gosto de tudo um pouco, também gosto de cor.

O que quer no futuro?

No futuro?? Quero que o Covid se vá embora depressa, que voltemos á nossa normalidade rapidamente. Gostava que os profissionais de cabeleireiro fossem mais unidos e que se ajudassem mais uns aos outros. Para mim em particular, muito trabalhinho e saúde.

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