Opinião

É Segredo, é proibido ou é obrigatório?

Segredos, proibições e obrigações são palavras na ordem do dia em Portugal e com elas estamos a conviver diariamente sem nos revoltarmos a sério, muitas vezes ficamos aliviados apenas porque desabafamos nas redes sociais, mas não basta.

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Estamos a ficar com propensão para segredos (de Estado ao que parece), os tempos são incertos, são duros e difíceis para a maioria das pessoas (com excepção de certos seres privilegiados que conseguem manter-se à margem deste sufoco e que vivem escondidos nos seus mundos perfeitos, isentos de vírus, proibições, limitações e  ansiedades, algures no pais das maravilhas, que nem a Alice achou perfeito) e temos o legítimo direito de desconfiar de um Estado que nos esconde informações de interesse público e que a todos afectam como contribuintes que somos.

Não me sinto confiante quando a DGS diz que um documento oficial e para produzir efeitos num evento público ou aberto ao público (seja ele qual for) é de cariz secreto, principalmente se tal documento contém recomendações relativas à saúde pública e quando estão em causa comportamentos individuais e comunitários que a todos devem dizer respeito.

Também não posso, em bom rigor, sentir confiança num Estado que esconde dos seus cidadãos os resultados de auditorias, inquéritos ou quaisquer análises à situação de um grupo Bancário Privado que ilegitimamente arrastou todo um pais para austeridade, e que todos ainda continuamos a pagar com os nossos impostos, talvez porque quem devia estar atento e regular esteve alheio aos sinais de alarme. Depois, uma dia ainda gostava que me explicassem, como se eu fosse muito burra ( e acreditem que nunca como nestes tempos de pandemia me senti tão pouco inteligente, tão limitada no meu livre arbítrio e liberdades pessoais e tão impotente para lidar com uma nova realidade com a qual, de todo não consigo conformar-me) se em mais algum pais que não este é o Estado e todo o erário público ( e em última análise todos nós Portugueses) a suportar os encargos com perdas financeiras  de uma Instituição Bancária privada, e porque motivo se insiste várias vezes no mesmo erro, como se o Estado fosse assim uma espécie de Madre Teresa de Calcutá ou Santa Casa da Misericórdia do Sector Bancário, sector este que é e continua a ser mesmo o “dono disto tudo”, e a quem são permitidos todo o tipo de abusos contra os mais fracos até mesmo nos nossos tribunais.

Em termos de proibições, quase que só não é proibido proibir, chegámos aos ridículo de não ser possível tomar um café ou uma bebida depois de jantar, porque os horários e imposições que fizeram ao funcionamento dos estabelecimentos comerciais são ao revés de toda a lógica em muitos casos. Alguém tem de me explicar também, como se eu fosse muito burra, porque é proibido servir um café (atenção não é uma bebida alcoólica) ou uma água ou um sumo a partir das vinte e duas horas em diante a não ser que se tome uma refeição completa em determinado estabelecimento (existe uma excepção que nem vou partilhar com o mundo para não ser proibida). Acreditem, ser viciada em café é duro neste pais, em especial se queremos ter o prazer de o beber depois de jantar em casa, pois há quem, como eu, opte por refeição mais leve ao fim do dia. Pode ser toda uma aventura a merecer o nome furtado a Indiana Jones, algo assim a soar como: “Em busca do café perdido”. As proibições são de tal ordem que já nem me atrevo a sair de casa sem levar comigo uma garrafa de água, senão corro o risco de morrer de sede na rua, tais as normas absurdas que impuseram à restauração e que os comerciantes acabam por cumprir com um misto ambíguo de receio, frustração e também alguns um certo prazer que lhes advém do poder de seleccionar clientela e dizer não.

Há pequenos ditadores neste país, nos vários sectores dos serviços privados e públicos que se sentem poderosos a dizer não. Não, não servimos; não, não atendemos; não, não pode entrar; não, não há atendimento presencial; não, não sabemos quando teremos meios de dar resposta ao seu pedido, sabe como é…esta pandemia e tal…

E para rematar temos o meu repetido trauma da máscara…não se esqueçam, é obrigatório usar máscara nos espaços fechados (por enquanto, mas algo me diz que se avizinham tempos ainda mais duros).

Por tudo isto, porque me sinto exausta e limitada quer no trabalho quer no lazer, porque nem todas as proibições me parecem lógicas e importantes para os fins desejados, porque a pandemia tem revelado o pior dos seres humanos, estou farta, cansada, zangada com o mundo, e zangada até comigo mesma, mas não contem a ninguém que vos confidenciei tais ousadias, é segredo e é proibido revelar!

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