Opinião

E quando o poder deslumbra os líderes?

Uma crónica de Isabel de Almeida.

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Em Outubro deste ano, admitindo a hipótese optimista de que o mundo ainda esteja de pé nesse momento distante no tempo, decorrerão em Portugal as próximas eleições autárquicas e, passo a passo, já se vislumbram as movimentações partidárias para a formação e formalização das listas candidatas ao nível nacional.

É habitual existirem algumas mudanças, por estratégia ou por contexto local, e os vários candidatos que se perfilam na luta para ascender à liderança nos órgãos autárquicos jogam todos os seus trunfos para a desejada e sonhada victória.

Naturalmente que, em todas as questões políticas, sejam elas atinentes às eleições autárquicas, legislativas ou para o Parlamento Europeu ou estejamos no âmbito de quaisquer outras instituições que não apenas do Estado, mas que tenham contexto político ou equiparado, encontramos uma enorme diversidade entre os candidatos em diversos aspectos como: experiência, conhecimento aprofundado da responsabilidade inerente às funções a que se candidatam, consciência e autoconhecimento de pontos fortes e pontos fracos, estilos de liderança (que podem ir do autoritário ao laisser faire), personalidade mais ou menos vincada e mais ou menos focada no próprio indivíduo, tudo podendo ser resumido numa maior ou menor capacidade para abraçar as funções de liderança a que se candidatam ( focando apenas nas posições de topo, para facilitar esta reflexão e tendo também em devida linha de conta que é o topo que condicionará, para o bem e para o mal, todo o trabalho que possa ou não vir a ser na prática desenvolvido pelas bases). Um dos maiores riscos nestas andanças da política é calhar em sorte um líder que se deixe deslumbrar pelo poder, pelo seu próprio ego e que se torne de tal forma narcísico (ou seja, centrado em si próprio e arvorando-se uma superioridade e excelência que na verdade não tem) que entra numa espiral de deslumbramento consigo mesmo, olhando apenas para si próprio e esvaziando de qualquer conteúdo a utilidade e eficácia potencial da sua acção política, levando muitas vezes a uma estagnação do órgão ou instituição que conduz, ou mais grave ainda, podendo causar uma séria regressão e mesmo a destruição de muito do que de bom e de positivo os seus antecessores haviam “a pulso” conseguido obter e/ou manter.

Recomenda-se que os partidos políticos e os responsáveis pela elaboração de listas ou campanhas eleitorais também noutras instituições onde se anteveja um processo de sufrágio tenham em mente que não é líder quem pense que nasceu para tal posição, na verdade só pode liderar com eficácia não “quem quer” mas “quem sabe”. Se podemos encontrar políticos muito bem falantes, que dominam na perfeição à frase feita que fica sempre bem mas que é  desprovida de eficácia e que raramente conduzirá a uma actuação em conformidade com a mesma e é certo que pode haver a tentação de cair nesta ilusão por parte de um eleitorado em negação ou com menor consciência da realidade ou mesmo com falta de formação  e de visão política que possa fazer vingar o populismo e os “vendedores de banha da cobra”; também não é menos verdade que alguém que seja mais prático, mais assertivo e que não recorra a “floreados de linguagem” pode bem ser quem está melhor preparado para assegurar uma liderança forte, realista e efectiva nas funções a que se candidata.

E o povo, na sua infinita sabedoria já resumia na perfeição esta ideia que podemos aplicar na política de que nem tudo o que parece o é de facto, pois se é certo que diz um ditado com justiça e graça: “não sirvas a quem serviu, nem peças a quem pediu”, outro ditado popular já rezava assim: “por vezes detrás de uma reles moita pode sair um bom coelho”.

A politica, desde dos seus primórdios, tem um forte pendor ilusório, mas desengane-se que pensar que apenas o povo (eleitorado) pode ser iludido, pois que muitos líderes bem podem deixar-se enredar nas malhas da ilusão acerca de si próprios e das suas capacidades (capacidades estas que só eles mesmos identificam) ou podem até começar bem e com boa fé e boa vontade mas rapidamente se deixam deslumbrar por si mesmos, pelo poder que os deslumbra e turva ou mata a razão, um sinal deste perigo é quando passam estas alminhas demasiado tempo a olhar para  a sua própria imagem reflectida na água, à semelhança de Narciso.

Aguardemos tão serenamente quanto possível para saber o que nos reserva o futuro político desta nação!

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