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“É preciso olhar para o futuro e profissionalizar o Palmelense com uma SAD”

Entrevista com o presidente do Palmelense, Carlos Valente, que contou ao nosso jornal como é que o clube tem vindo a adaptar-se à nova realidade, falando ainda sobre contratações, planos para o futuro e o importantíssimo apoio da comunidade de Palmela.

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A chegada da pandemia veio afetar a recuperação financeira do Palmelense Futebol Clube, que estava a recompor-se depois da mudança de direção. O presidente Carlos Valente contou ao nosso jornal como é que o clube tem vindo a adaptar-se à nova realidade, falando ainda sobre contratações, planos para o futuro e o importantíssimo apoio da comunidade de Palmela.

Quando a pandemia de Covid-19 fez parar tudo, em março, o Palmelense aproveitou o confinamento “para realizar obras de recuperação e manutenção, e mais ou menos em agosto, decidimos começar a estruturar os treinos de forma a não perdermos aquela massa de atletas que tínhamos no ano anterior”, começou por dizer Carlos Valente.

“Ou seja, uma bola para dois atletas, sem contacto físico e por aí adiante. Temos vindo a administrar os treinos em menos quantidade, de três para dois por semana, porque o treino assim torna-se confuso e aborrecido.

Sou daquelas pessoas que embora respeite o vírus, acho que não podemos parar tudo à espera que ele desapareça, nomeadamente o desporto. Não me parece adequado, por exemplo, que o sistema escolar funcione normalmente e o desporto esteja parado. Sou totalmente contra a visão de andarmos todos cheios de medo do futebol”, referiu.

“A Drª Graça Freitas não deve conhecer o futebol amador para não deixar que ele avance”

O líder do Palmelense tem estado em reuniões com a Associação de Futebol de Setúbal a discutir o regresso das competições, e disse que “a Drª Graça Freitas não deve conhecer o futebol amador para não deixar que ele avance. Não tem nada a ver com o futebol profissional dos três grandes, porque são poucas pessoas que vêm aqui praticar desporto e o publico também é reduzido, onde é possível cumprir as regras para tentar deter o vírus.

Tem sido uma vergonha porque praticamente todos os países do mundo já arrancaram com o desporto e em Portugal temos o futebol de formação parado. Os miúdos não entendem porque é que podem fazer educação física na escola, mas não podem vir para o Palmelense jogar. A Drª Graça Freitas devia ir tratar dos netos, já chega. Andamos a ser geridos por pessoas incompetentes, e para mim podíamos despedir essa gente toda”, criticou.

“Fazem touradas e não deixam 22 miúdos jogar futebol, não entendo”

Carlos Valente acrescentou que nos treinos “já não há aquela coisa do 10 contra 10 ou do 5 contra 5, não podemos juntar os jogadores. Em reunião com a AF Setúbal, decidimos começar o campeonato distrital da 1ª divisão de seniores a 15 de novembro, e estamos a aguardar que a DGS se decida e acorde, porque tem andado a dormir. Fazem touradas e não deixam 22 miúdos jogar futebol, não entendo”.

A situação financeira também se degradou com a chegada da pandemia. “Antes da Covid-19 as receitas, felizmente, eram mais elevadas do que as despesas, mas com a paragem o Palmelense perdeu à volta de 40 mil euros. Estávamos a fazer a gestão financeira do clube, mas com esta pandemia, e sem ninguém nos ajudar, porque a verdade é que não houve nenhum subsídio de lado nenhum para ajudar os clubes, a situação financeira degradou-se.

Felizmente temos tido apoios de outra natureza, de empresas para tentar manter isto, mas a situação degradou-se muito desde março para cá”, revelou o presidente. No entanto, não aconteceu nenhum surto em relação a casos de Covid-19. “Não houve nenhuma evidencia que existissem casos aqui no Palmelense, mas começámos a ter queixas dos pais porque não podiam acompanhar as crianças.

“Deixamos entrar um encarregado de educação por atleta, que deve cumprir todas as regras”

O que eu decidi foi: Para mim um pai não é publico, e neste momento deixamos entrar um encarregado de educação por atleta, que deve manter o distanciamento social e cumprir todas as regras, apenas para supervisionar o seu filho. Penso que não faz sentido entregar uma criança numa escola ou num clube e não perceber o que estão a fazer para prevenir o contágio, ou para dar uma aula de desporto conveniente”, disse Carlos Valente.

Além disso, o dirigente refere que foi tomada a decisão de reabrir o bar “das 19h00 às 20h00, porque as pessoas queriam beber um café ou uma água e não havia nada. De certa forma, aos poucos vamos tentando chegar a uma nova normalidade.”

“Conseguimos manter o corpo principal da equipa sénior e recuperámos atletas”

Apesar da difícil fase, o clube conseguiu fazer algumas contratações para as equipas séniores. O presidente do clube recorda que “quando o campeonato foi interrompido, o Palmelense estava em 6º lugar. Nas duas épocas anteriores tínhamos ficado em 8º e 12º, e portanto estávamos a fazer uma boa época.

Ficámos muito satisfeitos porque o corpo principal da equipa sénior quis manter-se e não desmotivou. Depois, também fruto desse trabalho que temos vindo a desenvolver, fomos buscar atletas que tinham saído do clube há muitos anos, e outros que são cá da zona. No fundo, jogadores com experiência no futebol sénior, que era algo que faltava à nossa equipa.

“Não tenho nada contra estrangeiros, mas o nosso objetivo é reter e promover o talento português”

Conseguimos também captar dois juniores para a equipa sénior, e cumprimos ainda o nosso objetivo de não termos estrangeiros. Achamos que em Portugal há demasiado talento e não queremos povoar as nossas equipas com excesso de estrangeiros”, referiu. “Não tenho nada contra eles, e não digo que amanhã não possa der um ou dois aqui, mas o nosso objetivo é reter e promover o talento português. A equipa sénior deste ano é 100% portuguesa”, sublinhou.

Sobre as restantes modalidades do Palmelense, Carlos Valente contou que neste momento o clube tem “30 desportistas a praticar atletismo, nas suas várias vertentes. Estamos a competir a nível regional, e vamos até organizar uma prova distrital de corta-mato aqui em Palmela pelo segundo ano consecutivo, já inserida no calendário da Associação de Atletismo.

Muito recentemente o Palmelense abraçou a modalidade da ginástica rítmica, fruto de uma parceria com uma escola, que devido à pandemia, corria o risco de acabar, e então conversámos e decidimos integrar essa modalidade no nosso clube”, disse.

Em relação ao número de atletas, o clube está bem e recomenda-se. “No futebol temos à volta de 340 jogadores, contando todos os escalões. No atletismo temos os tal 30, e cerca de 70 na ginástica rítmica, o que é uma grande promoção do desporto aqui em Palmela

Aliás, até temos convidado os pais para praticar atletismo com os filhos. Não pagam, estão ao pé dos filhos, gostam muito e acabam por praticar desporto. Em vez de estarem sentados na bancada, estão a treinar”.

“Temos uma equipa muito simpática no futebol feminino, com 32 jogadoras”

O futebol feminino também é uma das apostas do Palmelense para esta época. “Na vertente feminina o campeonato já arrancou, porque como é nacional, é permitido. Se fosse distrital já não era. É uma grande confusão, e na reunião com a Associação de Futebol de Setúbal também mencionei isso. Como é que é possível andarmos todos cheios de medo do vírus no futebol distrital, e no nacional não há medos? Só deixam porque jogamos na 3ª divisão nacional”, criticou o presidente.

A nossa equipa era muito fraca no ano passado, mas neste ano já eliminámos o Barreirense para a Taça de Portugal, por 4-3. Foi o primeiro jogo oficial que se fez aqui desde março, e para este ano temos uma equipa muito simpática. Na época passada tínhamos 14 jogadoras, e agora temos 32. Acreditamos que podemos fazer um bom campeonato”, afirmou.

“As entidades oficiais do Município deveriam olhar para o Palmelense de uma forma destacada”

Carlos Valente considera que o Palmelense deveria ser “tratado de forma diferente pela Câmara Municipal. Por exemplo, nós temos 900 alunos da Escola Secundária de Palmela a fazer educação física nos nossos campos, e se o Palmelense não fizesse este acordo com a escola, provavelmente esses 900 alunos não teriam condições para praticar educação física.

Queremos ajudar as comunidades, e nesse sentido entendemos que as entidades oficiais do município deveriam olhar para o Palmelense de uma forma destacada, porque temos uma projeção e uma contribuição para o concelho muito mais destacada do que outras associações”.

Carlos Valente recordou a fase em que entrou no clube. “Em maio de 2019 herdámos uma situação financeira bastante difícil. Havia uma divida não contabilizada, porque quando nós negamos uma divida é grave, porque à partida parece que não existe, mas ela está lá, e os credores querem que seja paga.

“Temos vindo a corrigir obras a nosso custo, com os nossos braços”

Agora cerca de 80% dessa dívida já está corrigida, embora a pandemia não nos tenha ajudado, porque se não fosse isso nós estaríamos saudáveis financeiramente. A nível das infraestruturas conseguimos corrigir alguns problemas que tínhamos, nomeadamente a zona do atletismo, de onde tirámos 40 toneladas de entulho com quase 20 anos. Temos vindo a corrigir obras a nosso custo, com os nossos braços”, disse.

Nesta vertente, a ajuda da comunidade é revelou-se muito importante. “Em vez de estarmos a adjudicar obras com custo, o que fizemos foi por mãos à obra, e vimos para cá todos os sábados. Há aqui um senhor que vem todas as manhãs trabalhar porque gosta. Nunca cobrou nada, e de vez em quando fazemos um almoço para agradecer às pessoas que nos ajudam.

Instalámos recentemente um sistema de aquecimento de águas, ampliámos os balneários dos seniores, corrigimos a parte do atletismo e estamos a terminar o posto médico e as casas de banho publicas, tudo a nosso custo. Rebocámos, fizemos o cimento, tudo isso”, contou.

“Vamos receber a bandeira da ética porque criámos um projeto para promover o fair-play e a amizade dentro do futebol”

O esforço compensa, e a prova é que “no ano passado mantivemos a certificação como escola de formação com três estrelas. Tínhamos pontuação para quatro estrelas, mas não temos nenhuma equipa masculina a disputar as divisões nacionais, que é o requisito.

Além disso vamos receber, agora no dia 21 de outubro, a bandeira da ética, porque criámos um projeto para tentar promover o fair-play e a amizade dentro do futebol, tal como o ambiente festivo do desporto”.

O mandato tem a duração de dois anos, mas a direção tem os objetivos na linha. “Tudo o que estava relacionado com infraestrutura e desporto, está implementado. Neste momento falta apenas demonstrar que tudo o que fizemos tem resultado, mas para isso precisamos de competição.

“A minha recandidatura vai depender desta situação, da época e da pandemia”

E a minha recandidatura vai depender desta situação, da época e da pandemia. Se a pandemia continuar, nem sei se existirão candidatos. Quem quer pegar num clube que não tem atividade? Isto poderá acontecer a nível nacional e seria catastrófico para muita gente”, afirmou,

Apesar do futuro ser incerto, Carlos Valente já tem um plano para que o Palmelense se possa tornar num clube estável. “Este é um clube muito ‘bairrista’. Temos sócios muito fervorosos, que o pai o ou avô destas pessoas fizeram parte do clube no passado, e portanto hoje têm um amor muito grande por este símbolo. A realidade do futebol atualmente, seja nacional ou internacional, passa por profissionalizar, porque as regras impostas pelos organismos que controlam o futebol são cada vez mais restritas.

Por exemplo, para estar na 3ª divisão do futebol feminino nacional, nos recebemos documentação diária com 70 ou 80 páginas. Começa a haver momentos que já não dá para ser por ‘carolice’ [termo usado pelas pessoas que trabalham para o clube diariamente], e clubes como Palmelense têm direções por ‘carolice’, que não são profissionais. Temos o nosso emprego e ao fim do dia vimos aqui dar uma mãozinha, trabalhamos aqui como voluntários”.

Temos de ter uma SAD que permita estabilidade no futuro, e não algo de curto prazo

O presidente considera que “isso não vai ser possível para muitos clubes. O Palmelense ou reconhece que é preciso profissionalizar, passando pela criação de uma SAD, ou corre o risco de se tornar num clube com muito pouco destaque, que pode vir a não conseguir sobreviver no futuro. Isto porque todas as regras e requisitos que estão a ser impostos no futebol, não permitem que clubes por ‘carolice’ se mantenham”.

No futuro, Carlos Valente “gostava de ver o clube com uma estrutura mais profissional, com funcionários, e que permitisse captar receitas superiores às despesas. Mas quando se fala em SAD, e aqui em Palmela acontece muito, as pessoas dizem: ‘Epá isso das SAD’s é muito mau, vêm para cá roubar o clube’.

Tenho um projeto em mente, que chamei de SAD Local. Uma SAD Local é para evitar o que se tem visto: aparece um chinês, um brasileiro ou um russo e compra a SAD, e depois gere a seu belo prazer.

Os sócios começam a perder poder e preponderância, e o que eu gostava era de fazer uma SAD composta por habitantes da região de Palmela. Isto para garantir uma gestão mais plural, que não dependesse apenas de uma pessoa. Temos de ter uma SAD que permita estabilidade no futuro, e não algo de curto prazo. Se continuarmos neste caminho, o Palmelense é capaz de ser um dos clubes com mais potencial do Distrito de Setúbal”, finalizou.

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