Opinião

E o assassino sou eu?

Uma crónica de Vera Esperança.

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Bem sabemos que há animais mais comedidos do que outros – aqueles a quem podemos afagar o pelo, as escamas, pele nua ou as penas e os outros que não gostam que nos aproximemos (ou até podem gostar, mas numa perspetiva pouco convidativa).

Temos também bichos que, pela proximidade e dependência do ser humano são considerados domesticados e outros um pouco mais selvagens. “Cada macaco no seu galho” ganha aqui uma redobrada expressão.

Serve este apontamento para introduzir o tema desta crónica, dedicada ao Tilikum (Tilly para os amigos), a orca “assassina” transportada contra a sua vontade para um gigantesco tanque situado no Parque de diversões marinho em Hafnarfjördur, onde permaneceu coartado da sua liberdade durante um ano. Após este período, o Tilly fez nova viagem até ao Sealand of Pacific, um gigantesco aquário islandês que dele se apoderou para satisfação dos seus visitantes.

Infelizmente o Tilly foi descarregado no mesmo aquário onde viviam duas orcas fêmeas que o agrediam violentamente, não sendo raro o dia em que se podiam observar partes do seu corpo cobertas de sangue. Para sua proteção, foi transportado para um aquário de dimensão mais reduzida… para sua proteção…  Vá lá, Tilly, não sejas mau e agradece.

E o Tilly achou por bem começar a reagir. Mas, infelizmente, não da melhor maneira para com quem com ele privava de forma mais próxima. Que grandes malucos! Foi no dia 20 de fevereiro de 1991. O Tilly estava no mesmo aquário em sessão de treino com as orcas fêmeas que o violentavam. Sessão de treino… orcas! Enfim. A jovem bióloga de 21 anos, Keltie Byrne, adormeceu e caiu no aquário. Ainda conseguiu vir à superfície três vezes, mas acabou por morrer afogada, atacada pelas orcas. Passaram muitas horas até conseguirem retirar o corpo da piscina. Uma nota boa – este parque aquático fechou portas. Nunca as devia ter aberto.

Tilly foi sujeito a nova viagem em 1992. Foi até ao Sea World em Orlando, na Florida, esse baluarte de exploração animal. Passaram mais cinco anos numa vida de cativeiro. No dia 6 de julho de 1999, Daniel P Dukes foi encontrado morto dentro da piscina na fantástica companhia do Tilly. Tratava-se de um visitante do Sea World de 27 anos que ludibriou os seguranças para passar a noite neste local inóspito. Causa da morte divulgada pelo Sea World – afogamento. O seu corpo tinha ferimentos, contusões, abrasões, escoriações.

A 24 de fevereiro de 2010 mais uma morte – Dawn Brancheau, a treinadora que todos respeitavam. Tinha 40 anos. Enquanto esfregava o Tilinho após mais um show de humilhação, este acabou por achar piada ao seu rabo de cavalo e puxou por ele. Mais uma morte por afogamento, com um corpo recheado de traumas.

Só em 2011, a 30 de março, o Tilly reaparece para novo espetáculo. E que espetáculo… Mas agora, era escovado e massajado com mangueiras de alta pressão, não fosse o bicho achar piada a outro rabo de cavalo ou até a um totó mais aperaltado. Vivia numa prisão de segurança máxima, com grades de proteção. Traz-me à memória o Hannibal Canibal.

O Tilly foi capturado na Islândia em 1983 com apenas dois anos de idade, deixando em grande sofrimento e desespero toda a sua família O Tilly foi considerado como um dos principais bancos de esperma do Sea World. O Tilly deveria ter constituído a família que livremente escolhesse. O Tilly devia ter tido o direito a deslocar-se milhares de milhas na companhia dos seus. O Tilly não ataca seres humanos nos oceanos onde vive. Mas o Tilly viveu frustrado e confinado em aquários e tanques. O Tilly matou endoidecido com o seu destino. Um Tilly no seu habitat natural tem uma esperança média de vida de 50 anos. O Tilly morreu a 6 de janeiro de 2017 com uma infeção bacteriana. Tinha 34 anos.

Voltarei, porque, afinal, “somos todos iguais”. 


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