“É muito gratificante ver a satisfação das crianças ao visitarem este espaço”

Pedro Lima abraçou há perto de um ano o projecto dos ‘Moinhos de Palmela’, recuperando o Moinho do Poente e o Moinho de Nascente na Serra do Louro, além da padaria onde produz aos fins-de-semana um delicioso pão. Depois de ter falado com o empresário no início da sua aventura, o Diário do Distrito foi saber como a mesma está a correr.

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FOTO: DI
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Passado algum tempo desde a primeira entrevista do Diário do Distrito, como está o projecto dos Moinhos da Serra do Louro?

Na altura dessa entrevista o projecto temático estava a arrancar, mas passado que foi o inverno, em que raramente alguém vem cá acima à serra, chegados os dias de sol em Março e Abril, notou-se logo mais caminhadas à serra. Tomei abri o Moinho do Poente, comecei a limpá-lo e a pintar tudo e agora abro a porta aos fins-de-semana para visitar aquele museu. Também alguns amigos da Quinta do Anjo me desafiaram para começar a fazer pão, já que tenho esse conhecimento, e a ‘brincadeirazinha’ correu bem, comecei a fazer mais aos fins-de-semana.

Como é que um jovem de 40 anos abraça um projecto destes?

Isto acaba de ser um investimento turístico. A primeira vez que vim aqui ver os moinhos, vi o estado em que estavam e fui perguntar se fazias visitas para grupos e foi-me dito que estavam fechados há dois anos e que não havia ideias de tornarem a abrir. Decidi avançar então com um projecto meu, em papel, com os custos e lucros possíveis, tempos de aberturas, etc, e entreguei ao proprietário, que achou que não era muito viável, mas eu achei que podia avançar e pedi-lhe para me entregar os espaços, para os colocar de acordo com o que tinha idealizado. Temos tido avanços e recuos, até para obter a chave de um dos moinhos, mas lá fui limpando os terrenos para as pessoas que vêm de carro poder aqui estacionar, mas falta ainda a construção de uma casa-de-banho. Em Novembro fiquei também com a padaria, e após um grande processo de limpeza das farinhas e massas, e continuei a fazer as limpezas aos moinhos, de onde tirei muita teia de aranha e até ratos mortos. Agora ando também a fazer a limpeza das oliveiras, que se forem podadas acabam por também dar azeitona, e dali retiro a lenha para o forno de pão, o que acaba de ser um círculo perfeito.

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E qual tem sido a interação e procura dos visitantes?

Normalmente estou à porta da padaria, e as pessoas que passam perguntam-se se podem visitar. Algumas vezes espreitam apenas e eu incentivo-as a entrar e subirem. Já me deram várias vezes os parabéns por o trabalho estar muito bem feito, e por ter recuperado esta memória, porque a Serra do Louro tem muitos moinhos, mas nenhum está aberto para as pessoas poderem ver, excepto um que está em ruínas. Agora que já sabem que o moinho pode ser visitado, chegam a vir famílias para o mostrar às crianças. Tenho muitas pessoas do distrito de Lisboa a procurarem este espaço, que me ligam porque vêm fotos nas redes sociais, e vêm visitar Palmela e os Moinhos, e também vêm muitos estrangeiros. Os portugueses procuram as caminhadas e os workshops, e costumam vir de Azeitão ou Setúbal. As festas incluem passeio de burro, workshop do pão e lanche com o pão simples e com chouriço, queijo de Azeitão e manteiga de ovelha, além de vinhos e moscatéis, que ficam entre os 5 e os 10, a não ser que tenha de acrescentar alguns produtos da região em que tenha de os ir comprar. Já cheguei a fazer aqui comida no forno de lenha, para um grupo que me pediu, e pode ser algo a pensar no futuro.

Costuma fazer visitas guiadas?

Se me perguntam e estou cá fora, explico algumas coisas, mas normalmente estou dentro da padaria. Já sobre o Moinho de Nascente, que está a trabalhar e faz moagem, mostramos aos visitantes praticamente tudo, desde a espiga do trigo, o cereal a cair nas mós, a saída da farinha, o processo de peneiração e os visitantes acabam por ver todo o processo. E tanto os adultos como as crianças ficam muito felizes por ver a mó a trabalhar, algo que é raro conseguirem ver, porque há moinhos recuperados, mas estão parados.

O pão feito na sua padaria é elaborado com farinha oriunda do moinho?

Embora o Moinho da Nascente faça a moagem, não fazemos ali em quantidade suficiente para fornecer a padaria. Poderemos vir a fazer isso um dia, mas neste momento não está nada pensado nesse sentido. Teria de comprar os cereais e ter moagem e permanência, o que seria um trabalho extra.

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De que forma funcionam os moinhos, apenas a vento ou também com motor?

O Moinho de Nascente tem um sistema de motor, porque a engrenagem das velas já lá não está. É necessária uma velocidade correcta para moer o cereal, que não pode estar muito húmido nem muito seco; no primeiro caso acaba por fazer uma pasta nas mós e no segundo não se consegue moer em condições.

Há ainda outro processo na moagem que é o ‘afastamento das mós’. Conforme o grão vai saindo, temos de afinar as pedras para poderem moer em condições, e a partir daí irá para as peneiras, para obter a farinha do tamanho 65.

Há possibilidade do Moinho do Poente também vir a trabalhar?

Não. Segundo o Humberto que o andou a reconstruir nos anos de 1996/98, ainda tentaram fazê-lo trabalhar, mas nunca funcionou em condições. Da minha parte, pretendo que seja apenas um museu vivo, mas não está nos meus planos transformá-lo em turismo rural, para receber pessoas a pernoitarem, ou seria apenas mais um dos que já existem.

A Quinta do Piloto fez muita divulgação sobre o seu pão, como estão as vendas?

Acaba por ser o que não havia. As pessoas gostam sempre de pão quente, e acabado de sair do forno. Aos fins-de-semana e feriados é quando temos mais clientes, claro, porque vêm aqui passear e depois sentem o cheirinho de pão fresco, entram e vêem-no tapado debaixo das mantas, como fazia a minha avó, para o manter durante três ou quatro horas morno.

E quem vê gosta, tira fotos, partilha nas redes sociais, diz aos amigos e assim vamos aumentando os clientes.

Da parte da Quinta do Piloto começaram a ver este movimento e entenderam que seria uma mais-valia para cativar mais pessoas, e criaram um cesto com manteiga de ovelha da região, o vinho deles e o nosso pão, com entregas a horas combinadas. Isso atrai muitas pessoas que depois acabam também por levar mais vinho ou outros produtos da Quinta do Piloto e nas redes sociais acabamos por fazer uma divulgação em conjunto.

Participou também no Festival do Queijo, Pão e Vinho, como correu isso?

Disseram-me que tinham lá um forno feito pela Junta de Freguesia quase há vinte anos, e eu fui ver, limpámos aquilo das teias de aranha, e quando o pus a trabalhar vi a abobadazinha toda branca e vi que era viável fazer ali algum pão, não muito, mas o suficiente para umas ‘brincadeiras’ e assim complementar a designação do Festival.

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Com 40 anos como é reviver os tempos da sua avó?

Com muita alegria. E também me divirto muito com este projecto, embora tenha havido, como já disse, alguns avanços e recuos com o proprietário, porque ando a fazer isto, mas não tenho nenhum papel escrito. Mas é muito gratificante ver a satisfação das crianças quando aqui vêm e com isso recordar também a minha infância.

Também tem aqui burros para passeios. Tem procura para isso?

Os dois burros, um macho e uma fêmea, que está grávida, vieram em Setembro para ajudar na limpeza e para um ar mais característico a este complexo, com os passeios, que neste momento só são feitos com o macho porque não se pode esforçar a fêmea.

Mas não há ainda muita procura para os passeios, as pessoas preferem tirar fotos com eles, fazer festinhas, no fundo querem mais interagir com os animais.

Tem visitas de escolas?

Por enquanto não porque a Biosan ainda não avançou com o protocolo, e isso obriga-me também a ter a padaria fechada, porque o protocolo tem de ser feito com a Câmara Municipal através de uma empresa, não posso ser eu a título individual a avançar com isso.Neste momento tudo isso está parado enquanto não vier o sr. Julião e enquanto o sr. Biscata não avançar com nada, espero que tudo se resolva a partir de Maio, para avançar com as visitas das escolas ao museu.

E projectos para o futuro?

Logo que tenha tudo organizado, podemos avançar com festas de aniversário para crianças, vou aproveitar o pátio para almoços e lanches que já tenho reservados.Quero também fazer formações e workshops na padaria, para fazer divulgação e crescer as vendas, numa parceria com o Julião.

Como empresário e empreendedor, sente falta de apoios?

Sim, bastante. Acabo por estar a divulgar Palmela, numa zona privilegiada. Chego a ter telefonemas de pessoas de Lisboa e Cascais, que vêm isto nas redes sociais e procuram saber como chegar e mais informações, em suma estou a trazer turismo para Palmela, mas em vez de ter apoio e divulgação das entidades, acabo por ter de trabalhar sozinho nisso tudo.

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