Dos sistemas dinâmicos

Esta semana um artigo de opinião de Rui Aleixo, com questões ligadas ao concelho do Montijo.

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Esta semana um artigo de opinião de Rui Aleixo, com questões ligadas ao concelho do Montijo.

Uma cidade é feita por pessoas e, idealmente, para as pessoas. São as pessoas que lhe dão e é o superior interesse dos seus habitantes que deve conduzir à tomada de decisões.

Uma cidade é igualmente um sistema dinâmico complexo onde coexistem diferentes escalas espácio-temporais. Onde diferentes variáveis podem ser em alguns casos fortemente correlacionadas, por exemplo, poluição atmosférica maior junto às vias de maior tráfego. A cidade, para além de um sistema complexo, é também não-linear. Isto é, duplicar o número de casas, não quer dizer necessariamente que a população duplicará.

Este sistema dinâmico é muitas vezes confrontado com solicitações diferentes, por exemplo, a organização de um grande evento que obrigue a acomodação localizada no tempo de um fluxo massivo de turistas. Sendo um sistema dinâmico é igualmente confrontado com problemas cuja solução não é necessariamente única. E não havendo uma solução única, é muitas vezes necessário escolher a melhor solução, sendo necessária uma visão de conjunto e tendo noção dos previsíveis efeitos colaterais e formas de os atenuar.

Quando um edil não vê a cidade como um sistema dinâmico complexo, lhe falta a visão de conjunto da cidade como um todo e não como uma soma de partes e a isto se alie a passividade e uma falta de rumo e capacidade de decisão, é natural que o seu historial reflicta isso mesmo. Um exemplo concreto disto é o edil Nuno Canta que defendeu “às segundas, quartas e sextas” que o novo aeroporto de Lisboa (NAL) fosse na Ota, às “terças quintas e sábados” que o NAL fosse em Beja, e aos “domingos”, a opção da Base Aérea 6.

Há um outro exemplo, mais prático e com consequências reais para a cidade e para os seus habitantes. Nos anos 90 do século passado, para optimizar a rede de transportes e facilitar a transferência de passageiros entre meios de transporte diferentes, construíram-se interfaces de transportes, como por exemplo, a Gare do Oriente e o Terminal do Cais do Sodré. Estes permitiram ganhos de eficiência e redundância significativos que melhoraram a fluidez dos transportes colectivos.

No Montijo, fruto de autarcas sem visão de conjunto e incapazes de compreender a cidade como um sistema dinâmico e complexo, fez-se o contrário do que as boas práticas sugeriam. E hoje, os habitantes do Montijo quando confrontados, por exemplo, com as avarias da Transtejo, vêem-se na impossibilidade de, no longínquo Seixalinho, apanhar um autocarro para Lisboa. Outra consequência desta falta de visão, foi o não aproveitamento eficiente do boom turístico que Lisboa tem vindo a conhecer nestes últimos anos, muito por causa dessa decisão tomada por autarcas sem visão.

Como referido, sendo uma cidade um sistema complexo, não há necessariamente soluções únicas para os problemas que vão surgindo. O problema da Transtejo em querer reduzir custos foi solucionado à custa da cidade de Montijo, para a qual foi prometida toda uma série de contrapartidas compensatórias entre as quais se encontrava a circular externa. Contrapartidas que, saliente-se, nunca foram realizadas.

A cidade de Montijo será brevemente confrontada com a construção da extensão do aeroporto Humberto Delgado. Esta é uma solicitação deveras complexa sobre a cidade que devia ser bem estudada e acautelada. Tentando ir nesse sentido, o edil de Montijo, Nuno Canta, apresentou um caderno de encargos à ANA. Caderno de encargos cujo conteúdo é desconhecido da maioria e que tem sido pouco debatido nomeadamente, na sua adequação ao médio e longo-prazo do desenvolvimento da cidade.

Para contribuir para o debate, saliento aqui que no caderno de encargos a apresentar à ANA, vem novamente a promessa da circular externa. A mesma que fora prometida aquando da mudança do cais em 2002, e que não foi cumprida. Talvez por passividade do edil Nuno Canta e associados, não se viu nenhum esforço no sentido de reivindicar do governo central o cumprimento da promessa, já lá vão 17 anos. Se a ANA não cumprir o caderno de encargos, decerto encontrará na passividade do edil montijense e do partido que o suporta, a sua maior aliada.

Um aeroporto/terminal aeroportuário é um tema complexo cujas implicações para a cidade estão longe de ser conhecidas e debatidas. Obviamente as consequências não serão todas negativas, nem positivas. Compete-nos conhecê-las para minimizar as negativas e maximizar as positivas, para que, como se sabe do estudo de sistemas dinâmicos, o estado da cidade não se torne caótico.

 

 

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