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‘Dizem que até 2026 vão realojar as pessoas’

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Podia começar a descrever o Bairro de Lata de Santa Marta de Corroios pelas casas construídas de restos de madeiras e sucatas, outras de tijolos; pelo cheiro que exalam os esgotos que correm pelas ruas, ou pelo lixo que se acumula em vários locais, ou ainda pelos becos estreitos que não permitem a passagem de duas pessoas lado a lado, a lembrar imagens de países do 3.º mundo.

Mas prefiro falar da simpatia das pessoas que encontrei durante a visita que o Diário do Distrito realizou ao Bairro; pela música africana que se ouve em alguns cafés onde se convive e refresca a sede de uma tarde tórrida e pelos silêncios desses becos onde os residentes ainda não regressaram de uma jornada de trabalho ou de um dia na escola, ao que carinhosamente chamam ‘O Bairro’.  

Adler Moreno quer ajudar quem reside no ‘Bairro’

‘Só quem nunca foi emigrante pode considerar que a vida destas pessoas é fácil’

A visita foi acompanhada por Adler Moreno, que já viveu no Bairro, e actualmente reside noutro local, mas não deixou de acompanhar e auxiliar os que ainda ali residem.

“Só quem nunca foi emigrante pode considerar que a vida destas pessoas é fácil” adianta. “Já trabalhei na Escócia e na França, onde tenho a minha mãe e sei como é difícil. Os jovens veem para Portugal com uma ideia de que é tudo mais fácil e depois deparam com esta realidade. Mas também tenho pena que aos mais velhos continuem a ser dadas promessas, ano após ano.”

Garante que “quem é de fora do Bairro pode pensar que há insegurança aqui, mas não, as pessoas dão-se bem, embora por vezes surjam problemas, que por ser neste Bairro, parecem ser sempre piores. E também durante o confinamento, os cafés que aqui estão (contámos sete), estiveram sempre a funcionar, mas neste bairro a Câmara Municipal não interveio como fez no Bairro da Jamaika.” 

Outra critica que aponta ao município passa pelo facto de ter sido dito aos residentes “que vão construir uma sede para a Associação de Moradores. Não se compreende que falem em construir uma sede, se a ideia é acabar com o bairro, e quando temos aqui o Centro Social, onde já reúnem com as pessoas.

Há coisas mais urgentes, como tratar dos esgotos, para que não corram a céu aberto, basta uma canalização, e a limpeza do lixo, ou resolverem também o problema que temos com um acumulador que tem rodeado o espaço onde vive de lixo, apesar das queixas que foram já feitas.”

Esgotos correm a céu aberto

Enquanto percorremos as vielas estreitas, onde deambulam vários gatos, Adler Monteiro chama também a atenção para “a falta de acessos para uma ambulância ou bombeiros, porque as pessoas que construíram as casas e que ainda estão a construir não pensam nisso. Há cerca de três anos houve um incêndio num café e não entrou aqui o socorro, felizmente não pegou fogo às outras casas.”

É impossível também não reparar que, embora com um projecto que aponta para o fim do Bairro, por todo o lado continuam a ser construídas mais casas.

Um dos moradores não tem mesmo tempo para falar connosco “porque estou a receber agora material”, explica enquanto na rua, ao lado de montes de areia para construção, vão sendo empilhados tijolos.

“Agora está a nascer um novo bairro, que os moradores chamam ‘Bairro Verde’, na zona mais abaixo. Foi lá colocada uma casa pré-fabricada e as pessoas começaram a dividir o terreno e a construir novas casas, embora a Câmara Municipal tenha embargado tudo” explica Adler Monteiro.

Tróia no seu café

‘Sinto-me bem aqui, e seguro.’

Num dos cafés que funcionam dentro do Bairro, recebe-nos ‘Tróia’, que explora o espaço há cerca de três anos e onde também reside.

“Vim de fora, comprei o espaço depois do dono ter falecido. É um negócio de dois cavalheiros, não tem documentos. E se eu quiser fazer uma casa de raiz, se quiser vender para alguém, a um preço acessível, um ou dois mil euros, a gente vende. São acordos.”

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O ambiente descreve-o como “excelente” e “sem razões de queixa, embora haja por aí algumas pessoas que não se dão bem. Mas sinto-me bem aqui, seguro e nunca tive problemas com eles nem os meus clientes.”

Antes de abrir o negócio em Santa Marta de Corroios, viveu seis anos no Bairro da Jamaika, no Fogueteiro “onde também tinha um café, e por isso muitos dos meus clientes vêm de lá. Mas acabei por o vender porque havia lá um grupo de rapazes que não se portava bem, e eu sentia-me mal com eles, não pagavam ou iam para lá drogados, e optei por vender e comprar aqui, e sinto-me melhor.”

 ‘Tróia’ foi contactado pelos serviços municipais “que chamaram todos os moradores à Casa Branca, onde nos disseram que estão a fazer nova colecta de dados pessoais, e já fizemos a inscrição, e temos de entregar os papéis necessários até ao fim de julho. Dizem que até 2026 vão realojar as pessoas.”

Dr. Manuel, residente no Bairro há 41 anos

Ruas adiante, cruzamo-nos com o Sr. Manuel, homem de poucas falas, que nos fala de uma nova esperança.

“Vivo em Portugal há 44 anos, e no Bairro há 41 anos. Agora dizem que vamos ter casa em 2026, já tratei dos papéis, vamos ver.”

Engrácio Araújo já não reside no Bairro mas continua a ajudar nas actividades

‘O bairro faz parte de mim’

Noutro espaço de restauração e convívio, que reune sobretudo naturais de Cabo Verde encontramos Engrácio Araújo, santomense que foi residir para o Bairro em 1999. “Depois comprei uma casa, fui feliz nesse caso, porque entrei numa empresa onde passei a efectivo e com isso pude dar um passo em frente.

Mas tenho mantido as ligações ao Bairro, a minha sogra mora cá desde 1979, e as minhas filhas andaram aqui na escola e no ATL, faço aqui quase o meu dia-a-dia porque o Bairro faz parte de mim, e nas horas vagas acompanho várias actividades, como jogos de futebol, de bisca, fazíamos convívios com música aos fins-de-semana, e comida típica feita pela D. Rosa, que trazia aqui muitas pessoas de outras zonas do concelho, mas foi tudo suspenso por causa do covid.”

Descreve o Bairro como “congregando pessoas de muitas nacionalidades, cabo-verdianos, santomenses, guineenses e angolanos, e isso é um aspecto que o valoriza, porque temos uma interação que nos leva a conhecer as outras culturas dos nossos amigos e vizinhos, é uma mais-valia para todos. E realizamos muitas actividades aqui, é um projecto de todos.”

Também considera o Bairro “como um local calmo, embora também temos algumas discussões, como há em todos os lados”.

Regresso à vivência da sogra de ???, uma das primeiras moradoras do Bairro. “A casa dela é a n.º 20. Agora está em São Tomé, mas vai regressar. E sim, está inscrita no PER – Programa de Realojamento, está à espera de uma casa, tem essa esperança.”

Esse é o desejo que tem para quem ali reside. “Existe essa esperança de que tudo se torne uma realidade, para que as pessoas possam mudar as suas condições de vida.

Todo o mundo deseja o melhor para o dia de amanhã.

Mas sabemos que muitos trabalham com entidades patronais que não lhes dão um ordenado que permita pagar uma casa, os bancos não dão créditos.”

Arnaldo Pinto regressou ao Bairro

‘Não havia água, não havia luz, roubávamos água e luz.’

Na mesma mesa de café estava Arnaldo Pinto, também natural de S. Tomé e Príncipe, conhecedor da estória do Bairro, onde reside “desde 1987”.

Veio para Portugal “com uma bolsa de estudo, viver com uma prima que já faleceu. Quando vim para cá só existiam cinco casas, encostadas à fábrica dos livros. Depois, com o andar do tempo, isto começou a expandir.

Não havia água, não havia luz, roubávamos água e luz, nem sei de onde. Hoje já temos água e luz e melhores condições para um ser humano habitar e por isso fico muito feliz.

Gosto deste bairro, foi aqui que cresci, os meus filhos nasceram cá, e hoje já são homens e estão todos formados. Não tenho nada de mal a dizer do Bairro.

Já vivi noutra zona, numa casa com a minha mulher, mas infelizmente separei-me dela e voltei outra vez ao Bairro.”

Arnaldo Pinto garante que “este é um bairro calmo, quem aqui vive sempre se porta como pessoas civilizadas. Quem vem de fora é que faz asneiras.”

Também este residente já tratou da documentação que agora lhe é pedida para fazer parte das listagens de realojamento, mas “se o Bairro for demolido, fico muito triste, porque temos uma boa comunidade graças a Deus…

Eu vi este bairro crescer, e não tenho explicação para isso. Ficava contente com melhores condições, mas fico com saudades do Bairro… temos aqui o cemitério onde estão os nossos familiares e amigos… se sairmos daqui, de certeza que iremos cá passar depois e recordar que este bairro foi nosso.”

Ruas onde duas pessoas não conseguem caminhar lado a lado

Câmara Municipal inicia actualização de casas e moradores

A Câmara Municipal do Seixal e a Santa Casa de Misericórdia do Seixal iniciaram a actualização dos moradores do Bairro, «para conhecer o número de casas e famílias residentes e preparar o seu realojamento», conforme indicam os comunicados que estão espalhados pelo Bairro, com indicação das datas em que os moradores dos vários sectores podem ser atendidos.

Sobre esta parceria a Santa Casa explicou ao Diário do Distrito que «há mais de 20 anos que intervém junto da comunidade do Bairro de Santa Marta e nesse sentido, sendo nós a Instituição de 1ª linha, a parceria com a CMS deu-se ao nível da mediação entre a comunidade e a autarquia, para além do apoio logístico e administrativo na fase de levantamento da população e de recepção de documentação.

Estes 2 últimos apoios aconteceram pela proximidade física que temos com o bairro, por forma a facilitar a comunidade nas deslocações das várias diligencias que têm de realizar para completar todo o processo.»

Também à Câmara Municipal do Seixal o Diário do Distrito endereçou, no dia 28 de Junho as seguintes questões:

– Que trabalho está a ser feito agora ao ser solicitado aos moradores documentação, e o que está a ser prometido aos moradores para 2026?; Qual vai ser o modelo de realojamento, tendo em conta que o que foi escolhido para o Bairro da Jamaika não funcionou devido ao aumento do preço das casas?; A autarquia tem conhecimento de que continuam a ser construídas casas em tijolo e betão quer no antigo bairro, quer agora no “novo” Bairro Verde?; Até 2026 ou ao início do processo de realojamento tem a Câmara Municipal planeada alguma intervenção de fundo, que possa acabar com os esgotos a céu aberto?

Também alguns moradores referiram que gostariam de continuar a viver ali, pode a Câmara Municipal construir ali um bairro social à semelhança das casas que estão a ser construídas no Bairro Verde?.

Até ao momento, não obtivemos respostas por parte da autarquia.

O ‘Bairro Verde’ está agora a nascer mais a sul do bairro original.


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