Opinião

Desconfinar ou não – eis a questão!

Uma crónica de Isabel de Almeida.

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Entramos no dia 2 de Março no período correspondente ao décimo segundo Estado de Emergência, que vem sendo renovado quinzenalmente nos termos da Lei em vigor.

Atravessamos um momento de confinamento, com diversas restrições à circulação de pessoas e com duras restrições ao funcionamento de diversos estabelecimentos comerciais, muitos deles encerrados.

Os alunos de todo o país encontram-se, maioritariamente, a ter aulas à distância, mas são conhecidas as desigualdades, na medida em que não foram distribuídos computadores por todos os alunos que dos mesmos necessitam, não sendo também universal em todo o país o acesso à internet…triste mas normal, num país onde neste momento muitas famílias nem sequer têm condições de providenciar alimentação aos seus membros…

Se é certo que os números relativos à COVID-19 têm vindo a mostrar uma tendência de descida, aqui mesmo no país dos milagres que há 15 dias estava em primeiro lugar (dos últimos, ou seja, com uma situação calamitosa, com uma pressão quase insuportável sobre o Serviço Nacional de Saúde, embora seja de referir que as falhas do SNS não surgiram agora devido à pandemia, apenas se agravaram com a pandemia) mas urge manter cautelas.

Continuo a ter sérias reticências quanto a algumas das medidas impostas em termos de confinamento, e bem sabemos que já existem sinais evidentes de negócios que não voltarão a abrir (nomeadamente, no sector da restauração, estética, pequenas lojas de diversos ramos que são o sustento de famílias inteiras e dos seus funcionários que são atirados para situações de insolvência, livrarias independentes e alfarrabistas).

 Não me choca que, com todas as medidas de segurança aconselhadas, muitos destes negócios pudessem funcionar mediante marcação individual e higienização após utilização (nomeadamente, parece-me mais seguro frequentar um salão de estética com atendimento por marcação e higienização individualizada do que fazer compras numa grande superfície) e perante este cenário, não entendo como se pode exigir a tantos profissionais de tantas áreas com esta possibilidade que estejam totalmente parados com rendimento zero e com avultadas despesas que continuam a acumular-se mês após mês, até à asfixia final!

De igual modo, transcende-me  o entendimento segundo o qual não podem ser vendidas peças de vestuário nem calçado no grande e pequeno retalho de forma presencial, pois tal não ofereceria maior risco, novamente, do que comprar alimentos numa grande, média ou pequena superfície, além de estarmos a privar toda a sociedade de bens que são essenciais porque de desgaste rápido pelo uso ou, por exemplo, no caso das crianças, porque rapidamente as roupas deixam de servir, o mesmo se dizendo do calçado ( e não, nem toda a gente tem acesso a compras online, não adianta escamotear a verdade). Creio que bastaria ponderar medidas de higiene sanitária limitando as trocas, por exemplo e apenas forçando o consumidor a uma compra mais ponderada e responsável, sendo limitado o número de clientes dentro das lojas, de acordo com as áreas da mesma, e mediante as medidas já comuns em todo o comércio aberto: desinfecção de mãos à entrada e saída da loja e uso obrigatório de máscara.

Falando ainda de restrições impostas pelo confinamento, continuo a não entender a proibição das já famosas e tão faladas “vendas ao postigo”, vender alimentos em takeaway , ou seja, refeições que se destinam a ser consumidas em casa, e não poder vender bebidas (não apenas alcoólicas mas de qualquer espécie) é sinceramente algo ao arrepio da lógica e que em nada tem repercussão na potencial difusão do vírus, bastava proibir, efectivamente o consumo nas imediações das lojas.

E o café, já esgotei as palavras para descrever o absurdo da proibição da venda de café ao postigo e parecendo que não isto causa um imenso prejuízo financeiro aos produtores e vendedores e há que assumir, prejudica a saúde mental dos consumidores habituais! Depois existe ainda um pormenor perverso, existem locais onde – legalmente ao que parece – se continua a poder vender café em loiça descartável ou mesmo em porcelana, ainda nesta semana que findou garantiam e com foto que era possível beber café em chávena de louça num Tribunal em Lisboa e a fonte era credível.

Não sendo especialista com assento nas reuniões do infarmed, tenho a experiência da minha própria vida, do meu olhar crítico sobre o que me rodeia, deformação profissional que advém do Direito, do Jornalismo e da Literatura de que sou ávida consumidora sempre que possível, e parece-me que seria mais lógico um confinamento gradual, começando quiçá por afinar estas injustiças acima descritas.

Quanto à educação, vou fazer uma afirmação que talvez possa chocar grande parte dos meus leitores, mas que já tive oportunidade de ponderar e debater com alguns pais de alunos menores de idade. A meu ver, e sendo evidentes as desigualdades, não me parece exagerado que o corrente ano letivo fosse uma espécie de treino, mas não sujeito a avaliação tradicional, há que reconhecer que as desigualdades são ainda mais acentuadas, que os jovens também não estão imunes nem ao vírus nem aos reflexos sociais e em termos de saúde mental da pandemia e , naturalmente, não temos o direito de exigir às nossas crianças um desempenho correspondente ao que teriam se tudo estivesse bem.

Em boa verdade, até ao nono ano (o último do terceiro ciclo do ensino básico) as classificações atribuídas na avaliação escolar apenas diferenciam o grau de aprendizagem dos alunos, mas sendo considerados aprovados, em nada os prejudica ter, por exemplo, nível três a tudo no segundo  e terceiro ciclos pois estas notas não se reflectem na média para continuidade do seu percurso escolar. Já mais crítico a pedir medidas mais específicas e adaptadas é o ensino secundário.

Se haverá alunos que conseguem adquirir conhecimentos, de um modo geral, a grande maioria está a ter dificuldades em percepcionar estes dois últimos anos lectivos como motivantes e enquanto fontes de progresso regular nas aprendizagens, talvez provas de aferição possam mostrar-nos com mais clareza onde estão as falhas de aprendizagem que não são propriamente culpa da comunidade escolar, mas mais um dano colateral do contexto que somos forçados a enfrentar.

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Possíveis soluções seriam repetir o ano numa decisão conjunta de professores, alunos e encarregados de educação e após testes de aferição, ou poder haver lugar a transitar de ano com a garantia de futuras medidas de recuperação de conteúdos em anos lectivos subsequentes. Aliás este reforço de medidas de recuperação parece-me essencial em qualquer dos casos exemplificados. Obviamente, vale o que vale, e estou até curiosa por saber possíveis alternativas a estas minhas reflexões.

Teremos de desconfinar, é certo, sob pena de podermos escapar ao vírus mas cientes de que muitos já não escapam à fome, à insolvência, à perda total de vidas inteiras de esforços e investimentos pessoais nos seus negócios e nos seus postos de trabalho dependente.

Mas neste desconfinamento previsível quanto a ocorrência mas ainda incerto quanto ao momento em que irá acontecer surge também um receio acrescido, vamos desconfinar sem ponderar cenários? Vamos desconfinar fazendo “testes aos números”, por tentativa e erro? (um pouco à semelhança do passado) a que custo?

Seria interessante que nos explicassem, enquanto cidadãos deste país, porque motivo os nossos “especialistas oficiais” por assim dizer, que comparecem nas reuniões do Infarmed não arriscam cenários, nem apontam possíveis pistas para antecipar riscos a minorar, como é possível não estar já em curso um plano de desconfinamento?

A grande questão central por estes dias é: desconfinar como e quando? Bem sei que a resposta não é fácil, mas os especialistas em cada área têm também o dever científico e ético de prever cenários e orientar sustentadamente os decisores políticos nas possíveis respostas, o silêncio, a falta de consenso, a omissão de cenários faz temer por novas reacções ao invés das desejadas acções!

Desconfinar ou não, eis a questão!

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