Opinião

Descartáveis!

Uma crónica de Isabel de Almeida.

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Se algo esta pandemia vem revelando, sem sombra para dúvidas, é que ao invés de contribuir para unir os seres humanos e para potenciar a empatia, ou seja, a capacidade de “calçar os sapatos dos outros” a pandemia é não só viral mas moral, pois cada vez são mais os exemplos de total falta de sensibilidade para ou compreensão para com os demais seres humanos e acabamos por nos tornar “descartáveis”, “insignificantes” ou mesmo “incómodos”.

O isolamento social, a proibição de expressar afectos e até de conviver em sociedade e presencialmente está, creio eu, a potenciar uma vivência social fria, meramente formal e distante e que começa a fazer uma selecção muito pouco natural e mesmo subversiva de quem merece oportunidades para se manter na nossa vida, no emprego ou mesmo no grupo de tertúlia de amigos nas esplanadas (que, entretanto, reabriram sabe-se lá por quanto tempo).

Desprovido de convívio social e  limitado no modo de expressar o que sente e como o sente em cada contexto onde se move, o ser humano está a revelar-se insensível e  indiferente ao sofrimento do próximo tornando-se egocêntrico, egoísta e totalmente centrado em si mesmo, com características de narcisismo que o levam a pensar-se superior aos demais indivíduos e vendo estes como seres perfeitamente descartáveis e/ou manipuláveis se fossem simples peões num tabuleiro de xadrez, sendo usual até uma certo postura maquiavélica em diversas situações, onde as pessoas passam a ser “coisificadas”.

A desumanização de trato social, pessoal e laboral está a fazer de muitos de nós pessoas implacáveis, intolerantes, insensíveis ao mundo dos outros e rapidamente quem ontem era imprescindível passa a ser dispensável ou descartável, porque prontamente “passa de bestial a besta” pedindo desculpa aos leitores por alguma deselegância desta expressão popular.

Claro que este fenómeno de nova categorização dos outros indivíduos que connosco se interrelacionam resulta de uma menor proximidade física que acaba por se transformar em distanciamento psicológico e mesmo num bloqueio emocional, se já é visível esta indiferença pelo sofrimento e pelas potencialidades e características positivas dos demais, o que ontem era certo, hoje é também dispensável, despiciendo e descartável.

E se estes fenómenos sociais e psicológicos já são visíveis em pessoas que viveram a maior parte da sua vida no mundo pré-pandemia, muito receio o que será transmitido às novas gerações às quais coube em sorte nascer durante o mundo pandémico que hoje nos condiciona a existência.

Em suma, a pandemia é já bem mais do que um simples vírus agente biológico patogénico, além dele pairam no ar, insidiosos, ocultos e prontos a atacar os mais incautos a todo o momento os vírus psicológicos da perda de afectos que originam comportamentos na linha das perturbações mentais anti-sociais. Cuidado, podemos acordar e não reconhecer nada nem ninguém à nossa volta, mas acreditando na lei do retorno, talvez esta ajude o rio a voltar ao seu leito inicial repondo alguma justiça e equidade!

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