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«Era preciso dar uma lufada de ar fresco na política do concelho»

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José Calado foi a eleição surpresa nas autárquicas de 2017, ao alcançar um lugar no executivo da Câmara Municipal de Palmela pelo MIM – Movimento Independente pela Mudança. Além da política, reparte o seu tempo livre no movimento associativo e é também presidente da direção dos Bombeiros Voluntários de Pinhal Novo.

Que balanço faz destes dois anos de mandato? 

O vereador do MIM tem feito o trabalho possível porque é apenas um. Temos algumas dificuldades em conseguir aprovar as nossas propostas, e praticamente todas têm sido chumbadas, excepto algumas que fizemos para o Orçamento 2020. 

É um balanço positivo, porque o MIM interveio em várias matérias e exemplo disso tem sido a nossa postura nas reuniões de Câmara Municipal, como o que se passou com o empreendimento de Vale Flores.  

Trata-se de uma obra em que os empreiteiros não têm pontos de electricidade para a obra, têm de usar geradores, o que causa mais transtornos e custos aos investidores.  

Não é desta forma que se deve tratar quem quer investir no concelho. 

Não sendo um homem da política, mas sim do associativismo, como nasceu a ideia de formar em meses uma lista com um movimento independente, e como encara o resultado obtido? 

Ao contrário do que alguma gente pensa, o Zé Calado tem mais de trinta anos de associativismo, e ao longo desses anos penso que fiz um trabalho do agrado da população.  

Passei por algumas associações que estavam em situações complicadas, e quando saí deixei tudo a funcionar em pleno, até colocando dinheiro do meu bolso.  

Pessoalmente também tenho sempre tentado ajudar quem me procura. Não sou o ‘Paulinho das feiras’, mas tenho feito o que posso. 

O resultado final de quem anda neste movimento, naturalmente seria de que se um dia se candidatasse no campo político, teria hipótese de se eleger, pelo reconhecimento da população do trabalho realizado.  

Houve alguns desafios que me fizeram e sempre gostei de desafios. E cinco ou seis meses antes das eleições surgiu a ideia, iniciámos a recolha de assinaturas nas Festas do Pinhal Novo com um stand, e embora tenha demorado o seu tempo, conseguimos obter o número suficiente para a candidatura.  

Depois tivemos muito pouco tempo de campanha, cerca de mês e meio, e acredito que se tivéssemos tido mais algum tempo, o resultado podia ser diferente, para melhor.  

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Ficou surpreendido com o resultado obtido? 

Sempre tive como objectivo que o MIM servisse para tirar a maioria à CDU, mas no sentido de que esta força política se tornasse mais democrática no nosso concelho.  

A democracia estava a funcionar muito mal em Palmela e era preciso dar uma lufada de ar fresco na política do concelho. Quem está há mais de quarenta anos no poder, vai criando vícios.  

E sem dúvida que tudo melhorou, embora ainda não tenhamos atingido o objectivo total de tornar tudo mais democrático, mas estamos no bom caminho, e a maioria relativa que gere o concelho sabe que em determinadas propostas e matérias tem de negociar com a oposição. E dessa discussão saem muitas vezes propostas melhoradas, porque contam com a opinião de todos. 

Aliás, o presidente Álvaro Amaro tem tido, nestes últimos tempos, o cuidado de auscultar a oposição, embora ainda não com a frequência que gostaríamos.  

Tiveram pouco tempo de campanha, mas sentiu que esta foi de certa forma ‘perseguida’? 

Ainda hoje o MIM é perseguido, principalmente o seu eleito. As pessoas não estavam habituadas a ser confrontadas, mas isso não ocorre apenas em Palmela, mas em todo o lugar onde há maiorias absolutas por anos, porque durante esse tempo se vão criando determinadas situações que se tornam intocáveis. E sempre que aparece alguém que o faz, e que pode vir a inviabilizar muitas coisas que foram feitas ao longo dos anos e inviabilizar o que foi feito de forma menos correcta, parte-se para a perseguição.  

Isso tem acontecido? 

Sem dúvida, e sobretudo à minha pessoa. Tenho-me deparado com coisas que não têm qualquer cabimento, mas tenho uma maneira de estar na vida que é quanto mais me tentam chatear e perseguir, maior é a minha vontade de lutar. E isso também me cria alguma adrenalina, o que só posso agradecer.  

O MIM é a almofada do presidente?

Não! Nem dele nem de ninguém. Até porque o MIM é, talvez, o único partido que tem realmente feito alguma oposição na Câmara Municipal e, admito, até com alguma agressividade. Mas isso tem também muito a ver com a postura que o presidente tem sobre determinadas matérias e que acaba por provocar essa agressividade.  

Como está agora o MIM? 

O MIM está bem e recomenda-se. Temos mesmo um aumento de militantes.  

Como todos os partidos, quando terminam as eleições, sente uma certa dispersão por parte dos elementos que não foram eleitos. 

O que acho é que podia estar a ser feito um melhor trabalho ao nível dos eleitos das freguesias. Mas também tem a ver com o facto de que grande parte dos eleitos do MIM não tinham grande passado em termos políticos e ainda estão numa fase de aprendizagem. Acredito que os próximos dois anos serão um pouco melhores e se voltarem a ser eleitos, as coisas vão funcionar de outra forma, porque o MIM vai voltar a candidatar-se.  

E o que podemos esperar do MIM para 2021? 

Uma luta e uma campanha muito aguerrida com ideias novas e no sentido de conseguirmos aumentar a nossa presença na vereação da Câmara Municipal. Vão aparecer muitas caras novas e algumas que vão ser uma surpresa para muita gente.  

Sabemos que as coisas não são fáceis na política, mas vamos começar a preparar tudo já a partir de Janeiro do próximo ano.  

Para as freguesias também já temos sinalizadas algumas pessoas, para depois avançarem para as candidaturas. A nossa freguesia principal será a do Pinhal Novo, mas não iremos descurar as restantes, até porque os nossos candidatos são todas pessoas que lutam pelas melhorias nas suas freguesias e que conhecem bem o território.  

Sendo elemento de um movimento independente, como encara a chegada de mais partidos e movimentos dessas linhas independentes?  

Em democracia e liberdade é um direito que assiste às pessoas. 

Tenho também conhecimento de que se prepara outro movimento no concelho, mas ainda falta algum tempo e poderá amadurecer ou não. No entanto, não me preocupa absolutamente nada, porque não irá dividir o nosso eleitorado, mas sim o outro.  

Nestes dois anos que passaram, sente-se agora mais preparado sobre alguns assuntos da Câmara Municipal? 

Sim, como não podia deixar de ser. Posso não ter toda a informação pormenorizada, mas sei o que o nosso concelho precisa, as dificuldades que existem e os caminhos que existe.  

A Câmara Municipal tem, tal como todas as outras, de ser gerida um pouco como uma forma empresarial, e nessa área tenho experiência porque já tive cinco empresas e todas elas tiveram êxito, sendo que duas delas as comprei falidas e consegui levá-las a ter êxito.  

Fui empresário pela primeira vez aos 19 anos, com uma empresa criada por mim, e com dinheiro que eu ganhei.  

Em 2017 não sabia algumas coisas, com o pouco tempo que tivemos de campanha, e também porque não tivemos acesso a uma quantidade de processos camarários, ao qual nos foi recusado o acesso, o que também dificultou o debate com os políticos já com alguns anos aqui da casa e no início senti-me um bocado perdido. Hoje a preparação é outra totalmente diferente.  

Um pouco aparte, mas é imprescindível falarmos um pouco no seu papel nos Bombeiros de Pinhal Novo. Como foi a sua entrada nesta instituição? 

Em 2011 ‘entregaram-me’ os Bombeiros de Palmela, e digo isto porque na altura fizeram muita pressão para eu integrar a direcção da Associação Humanitária, isto numa altura em que o país estava na penúria e ninguém tinha dinheiro. Todos sabiam da situação na altura dos bombeiros do Pinhal Novo e com a situação económica do país, ninguém queria assumir responsabilidades.  

Na altura até a presidente da Câmara Municipal me veio dizer que tinham de prescindir do ‘Mês Municipal do Bombeiro’ porque não podia dispor de 2500 euros, mas assumimos nós essas despesas.  

Mas hoje temos um corpo de bombeiros que a nível distrital deve ser dos que está em melhores condições financeiras, e em relação às infraestruturas e equipamentos será dos melhores no distrito e até no país.  

«Já teria mudado tanta coisa!» 

A sua bandeira de luta são os Bombeiros. O que acha que o MIM pode ainda apresentar sobre este assunto?  

A minha luta é a proteção civil, que é garantida pelos bombeiros. Mas por lei não posso misturar a vereação com a presidência da Associação Humanitária.  

Mas nesta entrevista posso falar do assunto.  

Creio que no próximo orçamento e no de 2021, se o presidente cumprir o que falou comigo numa reunião privada, as três corporações do concelho vão receber mais apoios financeiros e os bombeiros voluntários vão receber mais benesses para atrair elementos, porque o voluntariado hoje está muito fraco.  

Em alguns temas que se discutem em reunião camarária, a oposição parece algo ‘adormecida’. Também se sente assim sobre alguns assuntos? 

Existem matérias em que temos de ter uma postura construtiva, o que não significa ‘adormecidos’. Há que fazer oposição de forma construtiva.  

O MIM tem matérias em que tem uma postura dura, e há outras em que entendemos que se deve tentar uma via de diálogo para melhorar. 

Se tivesse sido eleito presidente da Câmara Municipal, o que mudaria? 

Já tinha mudado tanta coisa! Aliás candidatei-me porque entendi que as coisas precisavam de ser melhoradas em várias áreas, como o social, o urbanismo, turismo, desenvolvimento do concelho, etc.  

A única área que considero bem cuidada, e dou os meus parabéns ao vereador, é a Educação.  

Como estão as contas da Câmara Municipal? 

Estão bem, embora não as conheça em pormenor. Sei que se tem falado de alguma má gestão em determinadas situações, mas no essencial está tudo bem.  

Em 2020 a Câmara Municipal irá ter um orçamento mais avultado, para se financiar e complementar algumas obras que tem em carteira.  

A candidatura de Palmela a ‘Cidade Criativa da Música’ foi recusada pela UNESCO, e depois de terem sido elevados valores. Como encara esta situação? 

De música não entendo muito, isso é mais com o presidente que também é cantor, e provavelmente terá partido dele essa candidatura.  

Se calhar gastou-se dinheiro demais, mas se fosse aprovado podia trazer benefícios muito grandes para a Câmara, mas não me parece que fosse trazer mais valias para o concelho.  

Mas espero que pare por aqui, porque já se gastou muito dinheiro e há outras áreas no concelho que precisam de ser financiadas, e devíamos dar prioridade ao que realmente é importante.  

«A Câmara Municipal é responsável pelos bairros ilegais» 

 Um dos flagelos no concelho e muita tinta tem feito correr, é a falta de recolha de monos e de vegetação que os proprietários deixam junto dos contentores. Qual a sua opinião sobre isto?  

A base desse problema começa quando o Estado cria coimas para quem faz queimadas durante a fase Charlie, e a Câmara Municipal devia ter-se preparado para isso e não o fez. Temos um historial em que no passado as pessoas queimavam no quintal esses resíduos verdes, e como passou a ser proibido, vão abandoná-los o mais longe da sua porta.  

Mas isto não é de agora, embora tenha sido agravada nesta legislatura. Sempre vivi no campo, e gosto de percorrer algumas zonas do concelho, até porque tenho cavalos e posso fazer esses passeios, embora agora tenha menos tempo, mas sempre encontrei esse tipo de descargas no meio do campo.  

Por outro lado, quem pratica esses actos, como é óbvio, não tem o comportamento correcto. Da parte da autarquia, devia aumentar a fiscalização, ter criado uma estrutura que pudesse aplicar mais coimas e de forma mais activa, e também equipar-se de forma a ter capacidade para responder às situações que não são respondidas pela empresa que foi contratada para fazer essas recolhas.  

Não podemos é continuar a afirmar que a culpa é da empresa que tem um protocolo com a Câmara Municipal, porque é a edilidade que tem de responder perante essas situações.  

Como acha que decorrem as obras municipais, ainda que envergonhadas, como a do jardim José Maria dos Santos, no Pinhal Novo, e a de Vila Amélia. São as que o concelho necessita? 

Nunca faria a obra como está a ser feita no Jardim José Maria dos Santos. Para já, vejo-a demorada, para conhecermos como ficará, mas nunca mexeria no jardim, que é emblemático, nem reduziria os espaços verdes. O que vai ali ser colocado, podia ser colocado noutros locais do Pinhal Novo. A intervir seria apenas no lago, porque já estava abandonado.  

E qual é a sua visão sobre o pavilhão desportivo da Escola Secundária de Palmela? 

Já devia haver algo sobre isso, mas não há nada, nem uma garantia de financiamento e acho que não irá acontecer neste mandato. Temo-nos sempre batido por essa obra, mas pouco mais podemos fazer.  

Tem também conhecimento de vários concursos públicos que têm ficado desertos. Isso é preocupante? 

Sim, sem dúvida. Mas estes ficam desertos porquê? Porque o valor das obras sofreu uma inflação muito grande nos últimos dois anos, além da situação económica das empresas e da dificuldade que existe em recrutar pessoal para esse tipo de trabalho.  

E a Câmara apresenta valores para as suas obras como se praticavam há dois anos atrás, algo que não interessa às empresas, porque lhes dará prejuízo.  

Esteve na inauguração da segunda fase da Ciclovia no Pinhal Novo. O que acha da obra? 

Já o disse antes, nunca faria uma ciclovia ao pé de uma estrada nacional, que ao final do dia ‘entope’ um bocado por causa dos sinais de transito, e as pessoas que dela vão usufruir, vão apanhar com os escapes.  

O que se gastou ali podia servir para alcatroar algumas zonas rurais do Pinhal Novo e levar para essas a ciclovia.  

Como vê a situação de certos bairros dentro do Pinhal Novo que ainda não têm saneamento nem infraestruturas? 

Ora aí é que temos de ter as nossas prioridades. Há dinheiros que em vez de serem canalizados para certas áreas sem tanta importância, estas deviam ser prioridades.  

Todos sabemos que ao longo dos anos foram nascendo bairros clandestinos, e não podemos apenas culpar quem ali construiu, porque se eles surgiram é porque alguém o permitiu.  

E que eu saiba, a única cor política no poder em Palmela desde as primeiras eleições, é a actual. Por isso é responsável pelos bairros e tem de ser chamada à responsabilidade e não andar apenas a dizer que foram as pessoas que os construíram.  

Quem lá vive são seres humanos, com direitos e a autarquia terá de resolver esse problema.  

 É a favor do aeroporto no Montijo? 

Sim. O actual de Lisboa está saturado, e criar um de raiz em Alcochete demoraria demasiado e não temos tempo para esperar, porque é necessária uma alternativa rápida, para não perder o actual fluxo de turismo. Se esperarmos muito mais vamos perder muitas oportunidades. 

Se o projecto tem trazido algum benefício para o concelho de Palmela, não, até porque a força política que nos governa se posicionou contra, e por isso não se está a preparar para receber essa infraestrutura que será uma mais valia. Ainda estão convencidos de que o aeroporto não irá para o Montijo e não têm feito rigorosamente nada. 

 E o concelho está preparado para receber mais turismo? 

Não estamos nada preparados! Não tem sido feito nada nesse sentido.  

Para terminarmos, quais são os seus desejos para o futuro? 

Um desejo de mudança. E essa mudança irá acontecer, porque é inevitável. Não sei se o MIM ganhará as eleições em 2021, mas estou convencido que será um ano de mudança na gestão da Câmara Municipal de Palmela, porque estão criadas as condições para isso acontecer. 


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