Opinião

Da “Silly Season” à “Dark Season”

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Também nesta estação do ano era comum levar para a praia as mais recentes edições das revistas mensais ou semanais repletas de dicas para a praia, receitas, alimentos saudáveis, os melhores cremes e protectores solares, as dicas de moda e as fotos de figuras públicas da televisão e do espectáculo percorrendo as praias e marcando presença em eventos e galas televisivas de verão, verdadeiras fogueiras de vaidades.

A classe política era também vista tranquilamente em família a desfrutar de férias antes da sempre afadigada rentrée, e os jornais pautavam-se por uma rotina noticiosa que correspondia à quase ausência de notícias, com excepção do mundo sensacionalista da cobertura de acidentes ou os assustadores incêndios (notícias estas que, infelizmente se mantêm bastante actuais e aterradoras, pelo meio de tudo o que já de tão assustador paira sobre nós).

No Verão a rotina habitual passava por recarregar baterias, juntar os amigos à mesa, saborear uma bebida fresca na esplanada, caminhar pela praia e banhar-se nas águas do mar ou, para quem prefere ambientes mais recatados, dar umas braçadas numa fresca piscina, ou conhecer novas paisagens cá dentro ou além-fronteiras, fazer caminhadas, praticar desporto, por em dia as séries televisivas em atraso assim como proceder à actualização das leituras (isto para os poucos Portugueses que ainda vão tendo hábitos de leitura).

A futilidade acabava por ser um refúgio da alma para nos alentar para os novos desafios (esperados ou imaginados por mero lugar comum) que nos aguardavam no regresso ao trabalho ou às aulas.

Este ano, com grande pena nossa, não temos sequer uma Silly Season, ainda que queiramos ir por ai, não nos é permitido ser fúteis e despreocupados (ainda que muitas vezes tentemos enganar-nos a nós próprios e ao mundo, através de belas e alegres fotos nas redes sociais, onde logo reparamos nos sinais de que tudo mudou, por exemplo, ainda que estejamos numa esplanada estará sempre à vista uma máscara que nós próprios ostentamos quando não estamos a ingerir comida ou bebida, e que pese embora nos proteja também, simbolicamente, nos recorda a liberdade perdida e evoca em nós a falsa sensação de futilidade que nos era tão cara e necessária para cada recomeço!

Embora encontremos nas revistas e jornais nacionais e do pais vizinho notícias da mais recente polémica com o Rei Emérito D. Juan Carlos de Espanha a decidir abandonar o pais Natal, ficando no entanto ao dispor das autoridades para investigações em curso que soam um pouco aos tempos descontraídos dos verões de outrora, apimentados com uma sempre deliciosa coscuvilhice cor de rosa sempre bem apresentada nas revistas “del corazon”, com grande destaque para a já clássica “Hola”, ou ainda o Casamento Secreto (mas não muito, se pensarmos nos exclusivos de imprensa cor de rosa) de D. Beatriz, neta da Rainha Isabel II de Inglaterra em boa verdade nem estas histórias conseguem ter o mesmo sabor a descontracção que tanto as caracterizava.

Nem os últimos modelos da Rainha Letícia nos fazem evadir da realidade, pois que a máscara sempre presente passou a fazer, em definitivo, parte dos nossos objectos de uso quotidiano e banal, sempre a recordar que tudo mudou para pior.

E assim deixámos de ter uma Silly Season para acolhermos à força uma cruel Dark Season, a estação negra do nosso descontentamento, com notícias assustadoras na saúde pública, na economia, com os receios naturais pelo futuro próximo que se avizinha tudo menos risonho.

Começa já a antever-se o aumento do desemprego, os níveis de pobreza sobem de forma alarmante, e os novos pobres provém também da classe media que, de um dia para o outro, literalmente, se viu despojada de meios de sustento e de meios para prover às necessidades mais básicas como alimentação, vestuário e habitação, engrossando, por exemplo, os pedidos de ajuda ao Banco Alimentar Contra a Fome.

São visíveis a olho nu as filas intermináveis para o acesso a bens alimentares nas Paróquias, e não é difícil antever uma explosão de processos de insolvência de particulares e empresas, bem como uma avalanche de acções de despejo em arrendamentos habitacionais e comerciais logo que legalmente seja viável a sua execução operacional.

E como se irá matar a fome a todos os que perdem tudo? E o que podemos esperar em termos de política social para a habitação? Como poderão ter alojamento (direito consagrado na constituição) todos os que não podem pagar as suas casas compradas com recurso a crédito bancário ou ao mercado do arrendamento?

E as nossas liberdades individuais estarão mesmo em risco de repressão a pretexto da crise epidemiológica? A título de exemplo, não posso deixar de, pessoalmente, entender que é inconstitucional a medida adoptada pelo Governo Regional da Madeira no sentido de ser obrigatório o uso de máscara em todos os locais públicos, inclusive na rua. Não me parece conforme à Constituição que exista uma norma à parte e mais restritiva do que as medidas impostas por Lei em Território Nacional, mas como outros, este é mais um (mau) exemplo dos atropelos às liberdades fundamentais. Por outro lado, discordo em absoluto da realização da Festa do Avante bem como da realização de quaisquer outros eventos de massa que impliquem ajuntamento de muitas pessoas no mesmo local.

O caos, o medo, o desequilíbrio, uma ostensiva falta de equidade e sérios riscos de lesão de Direitos, Liberdades e Garantias são reais e devem preocupar-nos e motivar o pensamento em soluções, para que nos libertemos da escuridão.

Go away Dark Season!

 

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