Da dedicação aos animais nascem ‘casotas-abrigo’

João Batista está em Portugal há 19 anos e recentemente dedica-se a construir abrigos para animais errantes nos seus tempos livres, passatempo com o qual quer ajudar também associações e cuidadores de animais.

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Pai e avô, João Batista está em Portugal há dezanove anos. Com 57 anos de idade, este trabalhador na construção civil tomou a iniciativa de ocupar o seu pouco tempo livre ajudando animais abandonados, construindo abrigos que já colocou na Amora, no Fogueteiro, e agora prepara outro que irá para o Feijó.

Fomos conhecer um pouco melhor João Batista, imigrante brasileiro, natural de Minas Gerais, que além dos abrigos já construídos, pretende encontrar parcerias com associações que precisem de abrigos para os seus animais.

“Sempre me meteu muito dó ver animais ao frio e à chuva e quando podia, tentava arranjar-lhes um abrigo, mas a maior parte das vezes acabava por ser tirado pelas pessoas. O bom seria que não houvesse animais abandonados, dizem que os donos que abandonam serão punidos, mas como podem fazer isso, se depois não há registo dos animais?” lamenta.

Amor pelos animais

O desafio para começar a construir os abrigos partiu da filha mais nova, “que é fanática por animais. Quando passávamos na rua onde moramos, víamos sempre três cães que estão abandonados. E então ela disse-me «o pai leva tanto jeito a fazer coisas, porque não constrói um abrigo para estes cães?». Eu tinha muito desejo de o fazer, mas não sabia como nem onde a colocar depois. Fazer uma casota até é fácil, mas onde a posso depois colocar para não ter chatices com as autoridades e com os vizinhos?”

Apesar das interrogações, aceitou o desafio e “arranjei algum material reciclado, outro deram-me e o que faltava comprei, e construí uma casota, aos poucos, em minha casa”.

Em cada ‘casinha’ que constrói, mesmo com material reciclado, “gasto em redor de trinta euros, não contando com a mão-de-obra. Mas faço-o com gosto e tenho o apoio da minha família nestes projectos, se preciso de material ou uma ferramenta, vão onde for preciso para a comprar e ma oferecer”, sendo que João Batista confessa ter um interesse muito especial: “sou fanático por ferramentas. Tenho em casa uma série delas.”

Um brilho especial surge nos olhos ao afirmar que “estou casado há 33 anos com a mesma esposa, de quem tenho três filhas, e agora já dois netos, um menino e uma menina.

Um dos meus maiores orgulhos de viver em Portugal é olhar as estantes e ver ali os diplomas das minhas filhas. Não nasceram cá, mas estudaram em Portugal, uma é contabilista, a outra é gestora e trabalha em Londres e a mais nova é educadora de infância. Eu trabalho numa empresa de construção civil há quinze anos e moro no concelho do Seixal há 18 anos, antes morei um ano na Costa da Caparica.”

Em casa tem actualmente um gato, o Nino, “que é muito chique, só come comida de marca e paté, mas quando eu chego a casa, ele está lá na porta me esperando junto com o meu neto.

Já tivemos dois gatos, mas um ficou doente e faleceu. Gostava muito de ter mais animais em casa, e se morasse numa quinta teria muitos mais, e recolhia os abandonados e maltratados.”

João Batista é oriundo de uma família numerosa “e muito pobre de Minas Gerais, com nove irmãos, oito deles ainda vivos, embora o meu pai tenha morrido em 2004 e a minha mãe em 2012” afirma com voz embargada que “a família é o bem mais precioso que temos, mas não podemos carregar todos connosco”.

Vizinhos aceitam casotas,
empresas nem por isso

A primeira casota que colocou na zona onde reside, teve uma excelente aceitação dos vizinhos. “Antes, os cães andavam por aí, e dormiam onde podiam para se proteger do frio e da chuva. Agora estão ali protegidos, e é um dos cães mais velhos e doentes que mais faz uso da casota, mas vejo também as pessoas a cuidarem deles e a protegerem o abrigo, e isso deixa-me muito feliz.”

E uma surpresa maior estava-lhe reservada. “O dia que fiquei mais feliz por ter construído esta casota foi quando me contaram que o meu neto de cinco anos, o meu ‘xodó’, uma das primeiras pessoas a ver um dos cães entrar na casota, ao chegar à creche disse logo para a educadora: «ontem vi o cão entrar na casota que o meu avô fez».

Isso me deixou cheio de orgulho. É muito bom a pessoa ser elogiada por alguém, mas quando se trata de uma criança inocente, a gratidão é maior.”

No entanto, nem tudo tem sido fácil nesta sua demanda para garantir o bem-estar de animais.

“Tive uma situação muito desagradável junto à estação da Fertágus do Fogueteiro. Um dia passei por ali e vi uns cães errantes na rotunda ao pé de uma bomba de gasolina. Fui falar com a funcionária, que me disse que um dos animais era agressivo, e disse-me também que eles não se podiam refugiar na zona da estação porque «eram expulsos à pancada», e claro que por causa disso os animais reagiam mal às pessoas.”

Tocado pelo que viu, decidiu construir outra casota e coloca-la na zona perto da rotunda, “mas não correu bem. Um dos seguranças veio ter comigo, e de forma agressiva, disse-me que não podia colocar ali a casota, porque toda a área pertence à Fertágus, e ainda me ameaçou de chamar a PSP se não retirasse dali a casota.

Não tive outro remédio senão colocar do outro lado da rotunda, presa a um poste e combinei com um senhor que trata deles para colocar a comida mais próxima desta, por forma a que eles se habituassem a ir lá abrigar-se.”

Apesar da sua boa vontade, também não tem tido muita resposta por parte da autarquia do Seixal. “A minha filha foi falar com responsáveis da Câmara Municipal, até ficou de voltar lá de novo, mas não viu muita abertura para apoiarem esta minha ideia de espalhar abrigos onde estejam animais abandonados. Não me importava até de pagar uma taxa, se me fosse indicado e cedido um espaço para colocar as casotas.”

Ajudar mais animais

João Batista quer agora ajudar algumas associações que precisem de abrigos. “Qualquer associação que necessitar, desde que esta fique responsável do local onde for colocar a casota, e possa ajudar com alguns materiais.

Tenho intenção de colocar mais casotas onde eu veja cães abandonados seja em que concelho for, ou saber de quem possa servir de intermediário entre mim e as câmaras municipais, para combinarem onde podem ficar as casotas. Não tenho muito tempo, nem conhecimentos, para poder fazer esse trabalho.”

Interrogado sobre o que o move neste projecto, a resposta surge rápida: “quando a pessoa faz um trabalho por amor, não tem preço. Mas se não inovarmos a cada dia, a nossa vida se tornaria um tédio, quem fica parado é poste, até vir um carro e bater nele.”

E deixa o desafio: “quem quiser ajudar-me nesta ação é só contactar-me e falarmos sobre onde e como se poderão colocar as casotas, até para o meu Facebook”.

Os abrigos para colónias de gatos também estão na lista de projectos, “desde que haja interesse de quem me contacte para os fazer. Só preciso de saber o sítio onde se pode colocar a casota e saber que será vigiada.”

Após a entrevista, impunha-se a foto de João Batista junto da sua obra, mas este preferiu terminar a conversa com uma frase da Bíblia: «o que a mão direita faz, a esquerda não tem de saber», para justificar o seu pedido de algum ‘anonimato’.

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