Opinião

COVID-19 – Um relato na primeira pessoa para alertar consciências!

Uma crónica de Isabel de Almeida

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Há já algum tempo afastada do convívio com os leitores infelizmente por uma das piores razões que poderiam justificar tal pausa na escrita: fui apanhada à traição pelo monstro que nos atormenta desde 20 de Fevereiro de 2020. Pese embora todos os meus cuidados pessoais, com confinamento, máscaras, evitamento de transportes colectivos ainda assim o maldito “bicho” apareceu-me em casa através de contacto que contagiou o meu pai e facilmente chegou até mim.

Logo, a primeira ilacção a retirar, ninguém está livre de ser infectado, mas os cuidados são importantes porque reduzem bastante as probabilidades de tal infecção ocorrer, a bem da verdade quase completei um ano desde o início da pandemia sem ter sido vítima de infecção. A trabalhar, nas compras, num elevador, num espaço público é possível ser contagiado, não adianta escamotear a verdade.

A fadiga pandémica, novo conceito da psicologia que engloba todos os malefícios em termos de saúde mental que são potenciados ou consequência directa das mudanças drásticas no nosso estilo de vida, mostra-se já arreigada no nosso espírito, tal como o medo mais ou menos consciente, mas também o sentimento de incerteza pelo amanhã, a ansiedade agravada pelo conjunto de todas as pressões a que somos sujeitos diariamente (saudades de família e amigos e o medo de que possam ser infectados, teletrabalho, ausência de socialização presencial, cultura inacessível ou de acesso muito limitado, a supressão de acesso à tão tradicional bica que faz parte da nossa cultura e que era o motor para começar um dia de trabalho, a impossibilidade – até há pouco – de aceder a livros de forma directa, a impossibilidade de comprar peças de roupa ou calçado que podem mesmo ser essenciais e não um mero luxo ou capricho pois os produtos têm um ciclo de vida limitado) volto a referir que o consumo dos media em especial dos telejornais pode revelar-se tóxico e perturbador, em especial nos casos de crises de ansiedade, focos depressivos e fadiga pandémica em geral.

Passemos então ao relato directo da minha vivência desta doença que nunca poderá mesmo ser comparada a uma “gripezinha”, quer pelos sintomas graves que pode causar, quer ainda por algo que é ainda um mistério – as sequelas que já vão sendo identificadas e o receio quanto à sua irreversibilidade. Detectados os sintomas, foi feito o devido contacto com a linha Saúde24, e devo dizer que nem esperei muito tempo para ser atendida (mas sei de casos onde demorou muito muito tempo devido à sobrecarga das linhas telefónicas). É feita uma triagem e enviam por telemóvel os códigos de marcação do teste PCR (mas não são indicadas clínicas, ou seja, a pessoa deve já ter conhecimento do local mais próximo onde poderá dirigir-se ou terá de se informar a posteriori do contacto. E aqui começam as minhas inquietações, muitas pessoas idosas podem não ter sequer telemóvel, nem estão familiarizadas com o acesso a linhas telefónicas onde é necessário escolher opções carregando em números nas teclas do telefone, logo creio que uma melhoria seria ter um número nacional (semelhante ao 112) que encaminhasse directamente para triagem para teste PCR. Inquieta-me também pensar no destino de pessoas que estejam sozinhas, sem rede de apoio de família ou amigos próximos, por isso arrisco a dizer que é imprescindível alertar alguém de confiança assim que estejamos sinalizados, não recomendo também alertar todos os amigos e familiares, pois tal só gera alarme e tendência a atropelos na gestão da ajuda, e por isso peço aqui desculpa aos meus amigos e família a quem não avisei antes, precisamente por esta razão.

De uma coisa estou certa, muitas pessoas devem perder a vida sós e abandonadas em suas casas. Aliás, recentemente uma reportagem da SIC emitiu um relato que vai neste mesmo sentido.

Quem estiver sozinho e sem rede de suporte corre sérios riscos de morrer em casa, sozinho e sem qualquer apoio, a crueldade da COVID-19 vai ao ponto de ninguém se poder expor directamente ao vírus na fase aguda sob pena de poder também ser infectado, então pensem no desespero de mães, pais ou amigos que querem ajudar e apoiar e sentem-se impotentes e perdidos no início. A minha mãe e os meus fabulosos amigos e colegas foram a razão da minha sobrevivência e também o factor sorte de não ter tido problemas respiratórios, um dos meus maiores receios. Nunca me faltaram medicamentos (os possíveis ibuprofeno e paracetamol), comida, suplementos alimentares e até jornais e revistas à porta (quando comecei a ultrapassar a fase aguda muito incapacitante). Também na medicação e num plano de acompanhamento com conselhos de nutrição (imprescindível tomar vitaminas e beber a manter a hidratação) o SNS falha pois não é emitida prescrição sequer para adquirir medicamentos.

E desengane-se quem pensar que, neste momento, para o nosso país, os doentes COVID-19 e todos os restantes que estão prejudicados sem apoio médico, consultas , operações e até detecção precoce de outras patologias são seres humanos com a sua individualidade, com afectos, família, nada disso, somos apenas números para a estatística (inseridos em dados nos quais não confio totalmente, pelos motivos práticos que adiante explicarei) numa evidente despersonalização e desumanização da nossa população. Os contactos dos médicos de família são tardios e tive a nítida sensação de que alguns dos telefonemas que recebi durante a doença por parte de um médico e um militar foram no sentido de saber se “estava viva” embora nenhum dos profissionais tenha usado esta expressão, frise-se, não foram desagradáveis note-se, mas sabemos e sentimos quando somos tratados como meros dados de estatística!

Mais um nítido exemplo da minha percepção de mim própria enquanto número estatístico, a norma 004/2020 emanada da DGS estatui algo parecido com isto: que após dez dias no domicílio e sem internamento nem complicações respiratórias o doente tem alta clínica estando considerado recuperado (e integrando a respectiva estatística), ora o que questiono nesta decisão meramente administrativa mas de forma errónea e até arriscada ou desumana é o facto de não haver lugar à realização de novo teste para confirmar se a pessoa já não é portadora do SARS-COV2, e questiono ainda não ser feito um inquérito e avaliação clínica aos sintomas e sequelas que começam a surgir (e isto seria facilmente operacionalizado por exemplo com um inquérito contendo uma lista de sintomas já conhecidos e com espaços para acrescentar nova sintomatologia por relato do doente, pois ninguém melhor que  ele sabe o que sente). Pessoalmente quando ao fim de dez dias me telefonaram a dizer que ia ter alta, recordo a minha atrapalhação e espanto ao telefone com uma Senhora Enfermeira que me dizia que “estava curada” pois “tinham já passado dez dias” e então rematou com a frase que nunca irei esquecer e que chega quase a ser ofensiva para quem passa por uma experiencia destas: “pode ir à sua vidinha normal!”, tudo seria perfeito se a pessoa se curasse por determinação da DGS, mas não há golpes de magia, depois da tempestade do pico da doença (e notem que não tive complicações) estranhamos o nosso organismo, o cansaço (astenia), a letargia, a falta de forças são evidentes, tal como é evidente o receio de sair para a rua, caminhar com dores nos músculos e recear cair com alguma tontura.

Tive a nítida sensação de que renasci, mas ao décimo dia estava longe de me sentir “curada”, aliás ainda hoje não me considero “curada”, pese embora já tenha ultrapassado a infecção. Parece no início que o corpo que temos não é bem o nosso é um elemento estranho, em que não temos confiança absoluta, pois se já nos atraiçoou uma vez (deixando-se infectar) que mais poderemos dali esperar. O organismo rejeita, por exemplo, alimentos ou bebidas que sempre adorámos (estive 15 dias sem beber café e cheguei a recear nunca mais conseguir beber café, algo que faz parte de mim), ao nível intelectual também é nítida uma perturbação na capacidade de concentração e de expressão verbal e escrita, acontece-me querer dizer uma palavra e sair outra, acontece-me inventar palavras (ou seja, dizer coisas sem nexo enquanto falo). O maior exemplo é que na semana passada, já fora da crise aguda, não me senti confortável para voltar ao vosso convívio através da escrita, mas hoje decidi arriscar até como uma espécie de “fisioterapia para o cérebro”, pois jurei a mim mesma que vou combater as dificuldades e enfrentá-las com resiliência, não posso dar-me ao luxo de me entregar a mais letargia, em frente é o caminho e um dia de cada vez ao ritmo que nos seja possível.

Se isto me sucedeu em actividades profissionais que são mais intelectuais do que físicas, então o que pensar da crueldade destas “altas clínicas por ordem da DGS” em profissões braçais, como motoristas, vendedores etc? Deixo o alerta e o apelo à reflexão.

E termino esta crónica com o relato dos principais sintomas que senti durante a fase aguda, para memória futura, para consciencializar e alertar para o perigo e para o sofrimento de uma doença que não tem ainda hoje tratamento propriamente dito e que é dolorosa e que mata. Confesso que cheguei a pensar que não iria sobreviver, que tive medo de ter de ser internada (lido mal com hospitais enquanto paciente), que tive pânico de ter pneumonia por exemplo.

 Do que senti, a parte mais complicada foram fortíssimas dores nas articulações, incapacitantes acompanhadas da sensação de que algo percorre o nosso corpo internamente, estado este acompanhado de febre, falta de apetite, paladar amargo (no meu caso mantive olfacto e paladar mas tudo me sabia a amargo), sensação de náusea, tonturas, dores musculares, perturbações gastro-intestinais, mau-estar generalizado com agravamento das dores durante a noite. Recordo também uma pontada no coração e taquicardia, com a sensação física de ter algo cravado no coração. Denotei também pontos vermelhos na língua (creio que sintoma associado à estirpe britânica).

Sei de relatos de familiares em convívio com pessoas infectadas e que conseguem não ser atingidos pelo vírus, a meu ver, deveriam ser recolhidos estes dados para estudo, porque alguma característica imunitária especial estas pessoas terão, ou algo farão de melhor por exemplo em termos de hábitos de vida, nomeadamente alimentares.

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Perdoar-me-ão os mais sensíveis, mas neste acompanhamento aos pacientes que estão no domicílio a questão não é falta de recursos humanos, é mesmo uma nítida dificuldade na gestão dos recursos e não existirem protocolos que permitam recolher dados mais concretos para estudos futuros. Para mim é inconcebível não existir uma recomendação (quiçá uma normazinha da DGS, não?) sobre a ingestão de vitaminas e suplementos alimentares para fortalecer o organismo e ajudar a recuperar os doentes, tal como é inconcebível ser universal o entendimento de “alta clínica” quando tanto é ainda desconhecido, novo e imprevisível neste terreno.

Considero que sobrevivi a uma descida ao inferno e estou ciente de que, pese embora o sofrimento, há casos muito mais graves, certamente haverá vítimas incógnitas a lamentar que podem nem constar das estatísticas porque perderam a vida em casa sós e ao abandono e estas questões entristecem-me e inquietam-me como cidadã Portuguesa, ou antes como ser humano que um dia foi tratada como um número numa base de dados estatística, num país que já foi classificado como não tendo um sistema democrático puro!

Verdadeiramente assustador é saber que pessoas assintomáticas já cientes de que estão doentes transgridam as regras do isolamento obrigatório e se passeiem livremente na rua e em estabelecimentos comerciais, frequentem a casa de amigos e familiares e de forma criminosa podendo contribuir para novos contágios e até a morte de outras pessoas, nem consigo encontrar adjectivos bastantes para classificar o carácter deste tipo de indivíduos.

Também me inquieta e entristece quem faz festas ilegais, os idosos que insistem em estar na rua em grupo e alguns sem máscara e proibições sem sentido como não poder beber café expresso, não poder comprar uma garrafa de água se for trabalhar fora de casa ou do escritório!

Assusta sentir que está ainda longe o fim de todo este pesadelo, e assusta-me pensar em sequelas que possam ainda afectar-me futuramente!


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