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Clemente: “Escolhi música porque foi a grande paixão”

O cantor setubalense está a comemorar os seus 50 anos de carreira

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Numa entrevista descontraída, o artista setubalense Clemente conta-nos o seu percurso na música e desvenda-nos um pouco sobre a sua vida pessoal. A comemorar 50 anos de uma longa carreira, o cantor revela-nos que a sua canção favorita é “Se o Amor Fosses Tu”, que retrata uma situação real que Clemente viveu

Em primeiro lugar, quem é o Clemente, além do reconhecido artista?

Sou uma pessoa perfeitamente normal, tenho uma vida honrada e limpa. Sou uma pessoa normal, tenho os gostos, as dificuldades e alegrias que qualquer comum mortal tem. Eu costumo dizer que não há escândalos na minha vida para fazer de mim um ser especial. Sou igual a todas as pessoas.

Porquê a música? Nunca pensou noutra profissão?

Eu aos 19 anos fui convidado para ser comissário de bordo na TAP. Um amigo do meu pai era comandante na companhia e disse que estava aberto o concurso para comissários de bordo, perguntou se queria ir inscrever-me, inclusive até me trouxe uma proposta do gabinete pessoal para me inscrever. Mas a minha mãe disse que não, que era uma coisa muito arriscada, andar nos aviões, para não me meter nessas aventuras por isso não fui.  Escolhi música porque foi a grande paixão desde os 15 anos e, porque percebi que podia viajar pelo mundo, isso era o meu sonho de criança e era aquilo que eu queria fazer desde miúdo. Por isso, posso afirmar que a música foi o passaporte para viajar pelo mundo.

Como é que surgiu a entrada para a música?

Eu pertencia ao grupo de teatro da Escola Industrial e Comercial de Setúbal, fizemos uma recita de fim do ano no Luísa Todi. Saímos da recita e fomos para o baile dos Santos Populares, no Largo da Ribeira Velha. Os meus colegas, a certa altura da noite, disseram para eu ir subir ao palco, achavam que não tinha coragem de o fazer e cantar uma cantiga, porque eu cantava nos ensaios, na brincadeira. Fui e saiu-me tão bem que a banda que estava a atuar convidou-me para ser vocalista do conjunto. A minha estreia surge nesse ano, em Setembro na Festa das Vindimas, na Sociedade Musical Humanitária. Nesse ano, os PUMAS foram tocar e eu fui já como vocalista substituto. Correu tão bem que a aventura começou aqui e chegou até hoje, 50 anos depois.

Como é que reagiram os seus pais quando souberam que queria seguir o mundo da música?

Muito mal. Aliás, a senhora Mãe soube que eu tinha cantado no Largo da Ribeira Velha porque, na manhã seguinte ela foi à mercearia, que naquela época era um hábito em Setúbal e uma senhora do bairro disse que me tinha ouvido cantar e não sabia que cantava tão bem. A minha mãe respondeu “O meu Clemente esteve a cantar, mas tem a certeza?” e a vizinha afirmou que sim. Ela chegou a casa e perguntou se tinha mais alguma coisa para lhe contar, além da recita que tinha feito ontem. Eu disse que não, mas ela questionou novamente “Então não foste cantar?” e eu disse “Ah mas isso é uma brincadeira, não contei porque é uma brincadeira, não é nada a serio”. Quando as coisas começaram a ficar mais sérias ela e o meu pai tiveram uma conversa comigo e disseram “Olha, ser artista em Portugal é uma coisa muito complicada, não só porque os artistas têm má reputação, mas também a nível monetário. Portanto, é melhor pensares em fazer o teu curso académico e depois logo pensas no que queres fazer”.

Terminou esse curso?

Eu cheguei à faculdade, ainda fiz a inscrição na Faculdade de Letras, para fazer Germânicas, mas depois a música é mais forte. Em 1975 surge um convite para fazer uma tourné no Canadá e, a partir daí tomei o gosto disto, pensei “é isto que quero, não quero fazer outra coisa”, até porque era através deste meio que ia conhecer o mundo, pelas viagens e, era o que queria naquela altura, portanto decidi que era isso que eu queria fazer e não ia fazer outra coisa.

“De repente dou conta que a sala inteira me estava a aplaudir e pensei“Espera aí, alguma coisa se está a passar aqui, devo estar a fazer alguma coisa bem feita”

Como foi a primeira vez que cantou em público?

Não me lembro do que se passou nas Festas das Vindimas, sinceramente. Eu estava em estado catatónico.

Não me diga que fechou os olhos e começou a cantar, não?

Não, devia estar de olhos abertos, mas só percebi o que se passava quando ouvi os aplausos, porque não era hábito aplaudirem os vocalistas do conjunto. Os vocalistas cantavam para o baile, as pessoas dançavam e era isso. De repente dou conta que a sala inteira me estava a aplaudir e pensei “Espera aí, alguma coisa se está a passar aqui, devo estar a fazer alguma coisa bem feita” Até porque o público de Palmela é muito exigente porque tem duas sociedades filarmónicas de grande reputação. Saíram dali grandes músicos, a nível de panorama nacional. Quando, naquela catedral da música, me aplaudem eu senti realmente que correu bem. Não tive a oportunidade de desfrutar porque estava muito nervoso. Aliás, ainda hoje fico nervoso, especialmente com as duas primeiras canções.

“Os prémios de interpretação das entidades musicais são pelo estatuto de cantor e isso deixa-me muito agradado porque já é um reconhecimento da minha carreira”

Como é que o Marco Paulo surge na sua vida?

O Marco surge na minha vida quando tinha 10 anos, porque a avó ofereceu-me um gira-discos e alguns discos. E nesses discos vem o primeiro disco do Marco Paulo, o Não Sei. O Marco Paulo chega-me em casa em formato de disco, depois vejo-o a cantar aqui em Setúbal e só mais tarde, por volta dos 15 anos vou fazer uma recita com o grupo de teatro da escola e encontro o Marco Paulo em Sesimbra. Como era muito destemido, fui falar com ele, que achou muita piada eu ter aquele atrevimento, não era muito usual e perguntou se eu cantava. Curiosamente, quando começo com o conjunto, no ano a seguir, fomos convidados para ir atuar numa festa no Algarve e o artista convidado era o Marco Paulo. Quando ele me viu em cima do palco, perguntou “Tu também já estás aqui a cantar?!”. A partir daí ficámos amigos. Trocámos números de telefone e ele tem sido uma inspiração porque é realmente o rei dentro deste segmento musical, pelo que passou e pela sabedoria que ganhou. É uma pessoa que prezo e estimo bastante.

“Com a pandemia, não sei quando volto a trabalhar.”

Ao longo da sua carreira tem recebido vários prémios. Como é receber esses prémios, normalmente são um reconhecimento do seu trabalho e dos fãs que tem. Como tem sido receber estas distinções?

Sou muito grato pelas condecorações das Casas Reais que tenho recebido, pelo trabalho social que tenho feito por cantar em espetáculos de angariação de fundos que estão ligados às casas sociais, da Geórgia, Portugal, Espanha, entre outros. Os prémios de interpretação das entidades musicais são pelo estatuto de cantor e isso deixa-me muito agradado porque já é um reconhecimento da minha carreira. O resto, a medalha de honra da cidade e tudo mais deixam-me muito feliz por essas gentilezas.

“Eu sou um embaixador, por assim dizer, da minha cidade. Aconselho sempre a virem passear aqui.”

O mundo está a enfrentar uma pandemia. Como é que tem estado a ser para si, enquanto artista? Mantém uma agenda cheia?

Curiosamente só tenho o espetáculo dia 25 de outubro, em Setúbal. Tudo o resto está em standby. Com a pandemia, não sei quando volto a trabalhar. O último espetáculo que fiz foi em Janeiro, tenho estado em casa como todos os meus colegas, faço o espetáculo dia 25 que é uma homenagem da Câmara Municipal de Setúbal, para celebrar os 50 anos. A partir daqui não sei como vai ser.

Sendo artista setubalense, do que mais gosta da sua cidade?

Eu sou um embaixador, por assim dizer, da minha cidade. Aconselho sempre a virem passear aqui. A qualquer lugar que vá, vou sempre falando da minha cidade. Fiz imensos programas de televisão gravados em Setúbal, para Portugal e para o mundo. Gosto muito desta zona, tive a ocasião de viver em Toronto e Nova Iorque, por exemplo, mas a minha verdadeira casa foi sempre Setúbal, eu adoro esta cidade, a envolvência paisagística e social, portanto sou muito feliz aqui.

“A que mais gostei foi o primeiro sucesso “Vais Partir”, nunca pensei que num país pequeno vendesse cerca de dois milhões de cópias.”

O que guarda dos 50 anos de carreira? Quais as melhores e piores recordações?

As melhores recordações são os espetáculos que fui fazendo, estar junto do público, viajar e o crescimento da minha carreira. Eu jamais pensei que fosse fazer 50 anos de carreira.

As piores recordações talvez seja a solidão das viagens. Os momentos de solidão desta carreira, que tem muitos, quando nos encontramos connosco próprios são talvez os mais difíceis, mas todas as moedas têm duas faces.

Sente que existe algum tipo de preconceito para com a música ligeira?

Sim, existe preconceito de quem acha que os cantores de música ligeira são uns coitados, que é uma gente que mora longe e estão lá muito bem. Fiz música ligeira toda a vida e tive a oportunidade de conviver com grandes nomes. Tenho muitas saudades do Carlos Paião que era formado em Medicina, no entanto cantava música ligeira. Portanto quando se pensa que os cantores de música ligeira são um bando de tontos… quero dizer, há tontos e há os outros. Há de tudo como na sociedade. Esta música não é para se olhar de lado porque é transversal ao mundo inteiro.

Qual foi a música que mais gostou de gravar e porquê?

A que mais gostei foi o primeiro sucesso “Vais Partir”, nunca pensei que num país pequeno vendesse cerca de dois milhões de cópias, se pensarmos que somos 10 milhões, vender 2 milhões de cópias é transversal à sociedade inteira e jamais pensei que acontecesse. Quando gravámos pela segunda vez o Vais Partir com a Orquestra Sinfónica de Madrid, foi um momento muito emotivo para mim, por ter aqueles talentosos músicos a tocar numa coisa na qual iria pôr a minha voz, é arrepiante. Foi muito bom.

Nos espetáculos pedem sempre o êxito “Vais Partir”?

É obrigatório. Depende das zonas do mundo. Quando faço Estados Unidos da América, Canadá e Brasil é fundamental, mas há mais duas canções, que são o Amore Mio e a Canção dos Teus Cabelos. Quando me contratam dizem que estas três canções têm que vir, são obrigatórias.

O Clemente tem vários êxitos gravados. Considera que tem o reconhecimento dos portugueses?

Sem sombra de dúvida. Ainda ontem estava no Porto a almoçar num restaurante e apareceu uma senhora ao pé de mim e disse “O senhor não sabe a companhia que me tem feito ao longo da vida. As suas canções novas são muito bonitas também”. É muito bom ter o reconhecimento e o carinho do público.

Aceitaria cantar no Festival da Canção?

Não, nesta altura não. Houve um ano que tive uma canção para o Festival da Canção, escrita pelo Tozé Brito e pelo António Salma, juntei os dois monstros da musica portuguesa para ganharmos o festival, foi no ano que a Dulce ganhou com a Lusitânia Paixão. No entanto, a canção foi retirada.

O que podemos esperar do novo disco?

Eu fiz um disco de 50 anos, Promessas de Amor. Tenho dois projetos em estúdio, um na Alemanha e outro aqui. O disco foi o último que fiz porque agora é tudo digital, não adianta porque já ninguém compra CD’s, o que é mau para nós. A Universal enviou-me um relatório das interações nas redes sociais, sendo que tive 600 000 e tal interações, das quais ganho 32€ e ainda tenho que descontar. Portanto, ganhar dinheiro da musica que se edita acabou. Já lá vai o tempo em que fazia um disco de ouro e comprava um carro com esse dinheiro. Tenho uma carreira na qual já gravei centenas de músicas, não tenho a necessidade de fazer música nova. Atualmente estamos a promover o projeto digital se o amor fosses tu que vem na sequência do Disco dos 50 anos.

“Quando disseram que tinha cancro de pele e que iria viver entre 3 meses a 5 anos. Isso foi realmente o momento mais duro da minha vida.”

Sente-se acarinhado junto das comunidades portuguesas no estrangeiro?

Sem dúvida, foram muito importantes na minha vida. Fiz 9 tournés em Austrália. Se não fosse a pandemia estava a fazer a 10ª tourné na Austrália, estamos a falar do outro lado do mundo, com um apoio total, salas sempre cheias e esgotadas e, portanto, foram muito importantes para mim, aliás, 60% do meu sucesso vem das comunidades portuguesas.

O que mais gosta da sua profissão?

Viajar! Sou um viajante nato. Já não tenho muita paciência para fazer malas, mas houve uma altura que era quase diário, gosto de conhecer novos lugares e cidades. Quando estava no estrangeiro tirava sempre umas horas para conhecer a cidade.

Se o amor fosses tu “Ainda que conte uma história sofrida, é a minha verdade e o que se passou na minha vida.”

O que mais marcou o Clemente? O que lhe tirou o tapete de baixo dos pés?

Quando disseram que tinha cancro de pele e que iria viver entre 3 meses a 5 anos. Isso foi realmente o momento mais duro da minha vida. Porque, embora eu, desde muito cedo tivesse a perceção da morte e da perda, estou preparado para a minha morte. Sei que não sou eterno e quando lá em cima acharem que é o meu momento vou com a maior das tranquilidades sem qualquer problema. Agora, ouvir aos 45 anos, quando ainda tinha tanto por fazer e viver, o médico dizer isto é difícil. Ainda por cima nessa altura a minha vida era um mar revolto. A minha mãe tinha cancro, não sabia quanto tempo ia durar, e não podia saber que eu tinha cancro, o doutor disse logo para esconder, porque ela podia ir-se abaixo. Foi realmente o momento mais complicado. Tudo o resto passa. Fiz consulta aqui em Nova Iorque e decidi ser operado aqui e realmente passou.

Disse que é um homem de fé. Quando chegar o seu momento espera encontrar as pessoas mais queridas?

Essa é a minha filosofia. Espero realmente encontrar. Gostava de encontrar os meus pais, a minha família. Sinto saudades da mãe, teve que fazer muitas vezes de mãe e pai porque o pai andava no mar a ganhar a vida. Sinto que de certa forma os desfraldei porque eles investiram muito para que chegasse à faculdade.

Qual é a sua musica favorita?

Se o Amor Fosse Tu. Foi uma situação real que vivi. Ainda que conte uma história sofrida, é a minha verdade e o que se passou na minha vida.

Se pudesse, o que é que o Clemente de hoje diria ao Clemente que iniciou uma carreira na música há 50 anos atrás?

Olha Clemente, poupa-te, toma muitas vitaminas porque é um caminho muito complicado, muito difícil e, tem cuidado porque 50 anos é muito tempo e tens que te poupar.

“Eu fiquei viciado em viagens e em trabalho, especialmente nas viagens. Viajar impõe que não tenhamos laços.”

Quais são os planos para o futuro?

Os planos são continuar a cantar, enquanto sentir que a minha voz é digna para a música ligeira. Quando eu sentir que isso já não acontece, quero ficar em casa e passar os meus momentos a ler e a viajar, sou um eterno apaixonado por viajar.

“Isso é felicidade. Saber eu olho nos olhos das pessoas, que não procedi mal pelas pessoas.”

O Clemente nunca construiu uma família. É algo que se fosse hoje teria abrandado o trabalho para a ter?

Não sei, eu fui tão envolvido pela carreira. O que se passa comigo é um fenómeno muito interessante. Eu fiquei viciado em viagens e em trabalho, especialmente nas viagens. Viajar impõe que não tenhamos laços. Quando não nos casamos até aos 30 anos, depois é muito difícil ter alguém na nossa vida porque já nos tornámos egoístas. Eu ainda fiz uma tentativa que resultou muito mal porque sou dono do meu espaço, não tenho que dar justificações a ninguém, por isso não quero. Tive uma vida cheia, uns pais fantásticos, uma mãe que me apoiou em tudo.

Considera-se feliz?

Sim. Tenho uma casa, um teto para me abrigar, tenho comida na dispensa e no frigorífico, muita gente pelo mundo não sabe o que isso é. Tenho as coisas básicas que qualquer ser humano necessita. Isso é felicidade.

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