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Opinião

Cidades sem carros ou portugueses de 3ª

Uma crónica de Bruno Fialho

Há cerca de duas semanas, em Coimbra, na cerimónia de consignação da empreitada de construção da Linha do Hospital do Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM), o nosso primeiro-ministro, António Costa, afirmou que as cidades têm de se habituar num curto espaço de tempo a viver sem automóvel.

Ele não disse daqui a algumas décadas ou num futuro ainda distante, disse “num curto espaço de tempo”, por isso, vamos observar que complicações podem advir daí.


Penso que António Costa apenas proferiu essa frase porque, como qualquer socialista que se preze, nasceu no seio de uma família abastada e desde muito jovem que “trabalha” na política.

Ou seja, sem nunca ter tido um emprego a sério ou sem nunca ter enfrentado dificuldades, o primeiro-ministro, assim como a grande maioria dos nossos governantes ou políticos, desconhece como vive ou sobrevive o comum dos portugueses.

Espero que alguém esclareça António Costa que, devido à forma como governa o país, muitos portugueses já teriam morrido se não tivessem carro particular, principalmente aqueles que tentam chegar a hospitais que estão a mais de 100 km de distância do local de onde residem, porque o da sua cidade está com as urgências encerradas.

Mas, não podemos subestimar aquilo que o primeiro-ministro disse em Coimbra, porque o Socialismo sempre protegeu os militantes ou os amigos do partido, garantindo que eles podem usufruir de regalias, bens ou serviços que estão interditados à população em geral.

É provável que seja devido a essa garantia socialista que António Costa tem 11 motoristas à sua disposição.

Mas, para além do nepotismo socialista e da falta de conhecimento sobre como vive o cidadão comum, o que observámos em Coimbra foi um primeiro-ministro a ter tido a ousadia de afirmar que há portugueses de 1.ª, de 2.ª e até de 3.ª categoria, como adiante irei explicar.

Quando António Costa diz que vai condicionar a possibilidade de os cidadãos usarem o automóvel nas cidades, o que ele quis mesmo dizer é que vai condicionar ainda mais a vida de quem não tem hipóteses de utilizar os transportes públicos.

Mais uma vez, o primeiro-ministro quer contruir a casa pelo telhado, porque, primeiro, devia garantir cidades mais democráticas e em que a rede transportes públicos fosse mais abrangente, com um horário mais alargado e com zonas de estacionamento acessíveis, para que todos os cidadãos pudessem deixar os carros fora das cidades.

Afirmar que as pessoas têm de abdicar do automóvel, mas sem garantir que quem reside fora das grandes cidades possa continuar a deslocar-se para o trabalho ou mesmo para se ir divertir, para além de ser uma posição completamente absurda, também denota falta de conhecimento das necessidades dos portugueses e é a confirmação de que estamos perante um primeiro-ministro com demasiados tiques de ditador.

É que existem pessoas que sem o automóvel particular não conseguem chegar ao trabalho, mas para quem nunca trabalhou na vida, isso é algo que passa completamente ao lado.

Na minha opinião, António Costa defendeu que os portugueses de 1.ª, ou seja, aqueles que residem, por exemplo, em Lisboa, podem viver e trabalhar no maior “condomínio” do país sem usar o automóvel particular, porque sabe que esses não necessitam de usar o carro para se deslocarem diariamente dentro do “condomínio”.

Depois, o primeiro-ministro nem percebeu que estará a condicionar a vida dos muitos portugueses que ele considera de 2.ª, que são aqueles que residem fora do “condomínio”, mas porque têm um emprego das 9h/18h dentro desse “condomínio”, ainda conseguem utilizar os transportes públicos para as suas deslocações de casa/trabalho/casa, mesmo que isso os obrigue a ter de se levantarem às 06h00 para entrar ao serviço às 09h00, porque a rede de transportes públicos ainda deixa muito a desejar.

Para quem não faz a mínima ideia das gincanas que muita gente faz nas suas idas para o trabalho e no regresso a casa, normalmente passa por primeiro ir deixar e depois buscar os filhos à creche ou à escola que, normalmente, não fica ao lado do local de residência.

E mesmo com o valor do passe social a um preço bastante apelativo, mesmo assim, muita gente não prescinde, por necessidade, do carro particular, algo que devia chamar a atenção dos nossos governantes, se eles estivessem mesmo interessados em governar.

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Por último, António Costa mostrou que despreza os portugueses que ele considera de 3.ª, que são aqueles que, tal como os de 2.ª, residem fora do “condomínio”, mas têm um horário de trabalho nocturno ou ainda aqueles que moram longe, mas que pretendem divertir-se na noite da grande cidade.

Se a ideia peregrina de António Costa vingar, que é proibir a entrada ou o uso do carro particular nas cidades a não residentes e o seu uso controlado aos residentes, usando o exemplo de Lisboa, os portugueses de 2.ª ainda poderão ter a sorte de poder entrar e sair do “condomínio” para irem trabalhar, mas vão aumentar ainda mais o número de utilizadores de uns transportes públicos a rebentar pelas costuras nas horas de maior fluxo de passageiros e vão ter de reorganizar por completo o seu dia-a-dia para que os Mário Ferreira desta vida possam ir ao espaço, mas os pobres tenham de abdicar do carro.

Já os portugueses de 3.ª, esses vão ficar impossibilitados de sequer poderem ir trabalhar ou até de saírem à noite no “condomínio” lisboeta ou outro similar, porque, sem o carro particular não têm qualquer hipótese de se deslocar entre a casa/trabalho/casa ou casa/diversão/casa, sem gastar diariamente, em média, 30 euros em deslocações, pois, entre as 02h00 e as 05h30, não existem transportes públicos onde se possa usar o passe social poder entrar ou sair do “condomínio”.

Para quem tenha um salário na ordem dos 800 euros mensais, que nos dias que correm é considerado um salário normal, teria de gastar, pelo menos, 600 euros em deslocações.

Evidentemente que pode sempre partilhar um T1 em Lisboa com mais 10 conhecidos seus e viver como se estivesse no tempo da escravatura.

Ou seja, se já é difícil encontrar mão-de-obra que queira trabalhar em estabelecimentos que estão abertos até de madrugada, António Costa, depois de arruinar os pequenos e médios empresários de cafés, bares, restaurantes e discotecas com medidas irracionais durante os estados de emergência, quer dar a machadada final e colocar milhares de cidadãos no desemprego e centenas de empresários a decretar falência, para que os seus amigos bilionários possam viver nas grandes cidades sem terem de privar com os portugueses de 2.ª e de 3.ª.

Se é uma boa ideia diminuirmos drasticamente o uso do carro particular, evidentemente que sim, mas obrigar as pessoas a ficar sem um bem que pode ser essencial para a sua locomoção casa/trabalho/casa, sem lhes dar alternativas, é tirano e irracional.

Deixo uma pergunta aos leitores, qual é uma das principais fontes de receitas de Portugal e, principalmente, das grandes cidades, como Lisboa?

Se respondeu, o Turismo, acertou, mas parece que António Costa não sabe que sem trabalhadores, ou seja, sem os portugueses de 2.ª e de 3.ª, como se viu agora no Algarve, não há turismo sustentável, logo, deixa de existir tanta receita para poder distribuir entre os “boys”.

Pense nisso caro António Costa e demita-se, era um favor que faria a Portugal!


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