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Carta ao homem que quase me matou

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Aqueles que seguem com alguma atenção, quer as nossas redes quer o Diário do Distrito, este ultimo que noticiou quer o meu acidente quer posteriormente esteve à conversa comigo numa entrevista mais intimista, onde claramente nada ficou por dizer, desde os factos à minha dor (física e emocional) até às lesões que me acompanharão para a vida, sabe que tudo aquilo sucedeu devido a um condutor que desrespeitou um sinal de STOP.

Claramente mais grave do que isso, um condutor que, independentemente do sinal de STOP existir ou não, refere a todo o momento que viu a minha mota. Facto que, para mim, seria bastante para não avançar. Mas, ele avançou! Avançou e deixou-me numa luta pela sobrevivência. Numa luta que passados quase cinco meses continuo a travar para que, a normalidade possa, um dia, regressar à minha vida. Ainda que, e bem sabemos que o será, uma normalidade um pouco diferente.

Passados cinco meses, já chamaria de normalidade dormir uma noite sem pesadelos com o acidente, não ter dores fortes, conseguir locomover-me e viver o meu dia-a-dia de forma autónoma. Bastava-me isso! E é isso que peço para 2022. Não peço, como nos anos anteriores, as “coisas normais” de alguém a iniciar os seus trinta anos.

Em tempos, quando estava ainda na luta de reaprender a andar, achei que escrever uma carta, ainda que nunca fosse enviada, ao homem que me deixou assim, seria uma forma de libertar parte da minha dor e da minha angústia. Uma carta que intitulei de “Carta para Homem que quase me matou”.

Hoje, e aproveitando este nosso espaço, resolvi partilhá-la com todos. E, até quem sabe, com o próprio Sr. Ernesto. Se chegar a este, espero que possa reflectir sobre tudo aquilo que causou, e, que continua a causar com o seu desprezo pela vida humano.

CARTA PARA O HOMEM QUE QUASE ME MATOU

Senhor Ernesto, passam mais de três meses desde o dia em que o Senhor quase me matou. Quanto mais o tempo passa mais tenho a certeza de como somos pessoas muito diferentes. Eu sou a pessoa que pára na estrada para saber se está tudo bem quando vê um motociclista ou um ciclista parado numa berma. O senhor é a pessoa que vê o motociclista (é o próprio a dizer que me viu) e acelera sem pensar, entrando na estrada e quase me matando.

O Senhor Ernesto tem 87 anos, eu apenas 29. Já pensou que podia ser sua neta? Podia ser um dos seus netos a ficar ali estendido naquele chão porque o Senhor o viu mas resolveu não parar como o sinal de STOP o obrigava. E, ainda que nada o obrigasse a parar, não se avança para cima de um motociclista, um ser vulnerável com o seu corpo totalmente exposto ao impacto de um acidente.

Já pensou nisso algum momento? Já pensou que podia ser um neto ou neta seu? É que eu, sempre que vejo alguém da sua idade, penso no meu querido avô. Penso e isso faz-me sorrir para a pessoa e procurar ajudá-la se for o caso, porque no fundo vejo o meu avô. O Senhor Ernesto, em mais de três meses nunca pensou que podia ser um neto seu a ficar estendido naquele chão, a ficar semanas na cama imobilizado e a precisar de reaprender algo tão simples como andar.

Já pensou no sofrimento que causou ao meu namorado que viu tudo aquilo acontecer? Aos meus país, ao meu avô que estavam a mais de 200 quilómetros de distância e a achar que eu ia morrer ou ficar numa cadeira para sempre?

Imagina o que é ouvir o pranto da minha querida mãe ao telefone e eu a querer dizer-lhe que estava bem para a tranquilizar mas ter a sensação que ia morrer a qualquer momento?

Imagina o que é sentir-se a apagar? A deixar-se morrer? Já parou para pensar nas dores horríveis que tive e no medo de nunca mais sair daquela cama?

Eu respondo por si: não pensou! Nunca pensou!

A sua preocupação foi mentir sobre o meu comportamento na estrada, desresponsabilizando-se, e ignorando que tinha um sinal de STOP que não respeitou.

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Naquele dia, fiquei estendida no chão, imóvel, a esvair-me em sangue e com dores que nem sabia que era capaz de sentir. E o Senhor? Nem se abeirou de mim.

Até hoje, mais de três meses depois nunca teve a coragem de me dirigir uma chamada telefónica. Já nem digo um pedido de desculpas, porque quem abalroa alguém daquela forma e ignora um corpo estendido no chão, causado pelas suas mãos, sinceramente não pode ter coração, mas ao menos procurar saber como eu fiquei, como eu estou.

Sabe, enquanto o Senhor faz a sua vida normal, eu recordo aquele acidente de cada vez que me vejo ao espelho e há ossos nos sítios errados, de cada vez que tento apertar os atacadores e não consigo, de cada vez que faço um movimento um pouco mais acelerado e sinto dor. Recordo ainda quase todas as noites quando os pesadelos me assolam.

E o Senhor? Faz a sua vida normal!

Sou sincera, já o odiei muito, muito mesmo. Enquanto estive presa naquela cama, primeiro no hospital e depois em casa, tudo o que eu conseguia sentir era ódio por Si. Ódio por saber que me deixou ali, sem saber como seria o meu futuro, e seguiu a sua vida como se nada fosse e ainda fez de tudo para me culpar. Afinal sou motociclista “feia, porca e má”. Porque sim, claramente o senhor é daqueles que pensa assim.

Hoje, não sinto mais ódio. Percebi com o passar do tempo que um ser que me atira para esta situação, de forma voluntária porque o Senhor disse sempre que me viu, nem o meu ódio merece.

No meu interior já o perdoei. E, sinceramente nem sei como. Há coisas que não têm perdão. Mas sentir odio ou raiva matava-me mais a mim do que a Si.

Espero que depois deste episódio, que lá no fundo acredito que também não tenha esquecido, aliás não creio que seja possível quase matar alguém e passar ao lado disso, repense se ainda possui condições para andar na estrada. Não quero nem sequer imaginar que às suas mãos mais alguém possa passar pelo mesmo que eu.

E, espero muito mas muito sinceramente que nunca veja provocarem nos seus netos aquilo que o senhor me provocou a mim.

Não posso terminar sem desejar a todos um excelente 2022. Que o novo ano seja recheado de tudo quanto desejam. Para aqueles que tal como eu, serão motards a vida inteira (ainda que sem mota, no meu caso) desejo que 2022 vos traga curvas muito felizes, junto dos que mais amam, e em segurança para poderem regressar para junto dos que vos esperam em casa.

Àqueles que todos os dias andam na estrada, independentemente do número de rodas, peço ainda que, conduzam com segurança e, sobretudo, se mantenham atentos aos outros. Pois, o comportamento desse nós não podemos controlar.


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