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Carlos Silva: “De uma vez por todas, tem de se parar de dizer mal do Vitória”

Carlos Silva explica a situação do Vitória FC e pede que todos se unam em volta do clube numa atura crítica.

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O Vitória Futebol Clube entrou em 2021 com uma nova direção, eleita a 29 de dezembro do ano passado. Em entrevista ao Diário do Distrito, o presidente dos sadinos, Carlos Silva, explica a situação atual do clube, passando pelos salários de atletas e funcionários, a relação com a Câmara Municipal de Setúbal e pede ainda a união de todos em volta do clube.

Chegou à presidência há duas semanas. Em que estado é que encontrou o clube?

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Num estado muito complexo, está sempre pior do que aquilo que se diz. A verdade é que ainda não conseguimos perceber contabilisticamente a real situação do Vitória, porque não temos dados concretos sobre o clube. É um ponto muito importante, porque sem ele não conseguimos transmitir a situação a possíveis interessados em ajudar o Vitória, para que eles também possam analisar e verificar até que ponto têm ou não interesse.

O que já conseguiram fazer?

Conseguimos, pelo menos, dar confiança às pessoas. Já regularizámos algumas situações, mas não gostamos de fazer muito eco. Estamos a trabalhar, porque aquilo que eu prometi foi trabalho. Não prometi milhões porque não os tenho. É importante que todos os vitorianos e que a cidade de Setúbal saiba que o Vitória precisa do apoio de toda a gente. Para sair deste caminho sem fim, precisamos de união.

“No dia que aparecer alguém que tenha a solução para o clube, o Carlos Silva sai do Vitória”

Eu e esta direção não seremos um problema para ao Vitória. Se houver alguém interessado, seja um investidor que queira vir para o vitoria, ou algum vitoriano que queira ajudar, esta direção e o Carlos Silva estão disponíveis para encontrar a solução. No dia que eventualmente aparecer aqui alguém que tenha a solução para o clube, o Carlos Silva sai do Vitória.

Já foi possível pagar salários de atletas e funcionários?

Foi pago uma parte. Estão aqui muitos atletas e funcionários com vários meses de salários em atraso. Para se conseguir liquidar tudo será preciso bastante dinheiro, e o que nós estamos a fazer é regularizar aos poucos, quando temos disponibilidade financeira.

“Jogadores de futebol e funcionários chegam a ter quatro ou cinco meses de salários em atraso”

Há jogadores de futebol e funcionários que chegam a ter quatro ou cinco meses de salários em atraso. No andebol, alguns chegam a ter três meses em atraso. Estamos perante um quadro de resolução muito complicado. Todos os dias há reuniões para tentar ajudar o Vitória, mas chegamos sempre à conclusão da necessidade do dinheiro, que é muito difícil de arranjar.

É uma luta que tem de ser conjunta para salvar o nosso clube. Se houver alguém que tenha o milagre dos milhões, estamos disponíveis. O que é certo é que nos candidatámos com uma lista de consenso após várias reuniões de diversas listas que concorreram aos últimos atos eleitorais do clube. Procurámos fazer esta lista para poder transmitir confiança às pessoas que queiram ajudar o Vitória.

Claro que não era impeditivo que aparecessem outras listas, mas não apareceu ninguém. Isto é um indicador claro que as soluções milagrosas não existem.

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Sabe os valores exatos da divida do clube e da SAD?

Temos indicadores que variam, mas enquanto não tivermos o conhecimento da situação do Vitória, não consigo dizer números exatos. O departamento jurídico está a trabalhar nisto e se não sabemos exatamente a situação financeira do clube, é difícil negociar com quem quer que seja.

“Quando percebermos como está o Vitória, iremos fazer um comunicado aos sócios”

São certamente milhões de divida, mas não gosto de dizer números enquanto não temos certezas. Quando percebermos como está o Vitória, iremos fazer um comunicado aos sócios. Mas está mal, toda a gente sabe. Temos dividas com entidades desportivas e com uma série de credores.

No programa eleitoral mostra a intenção de “aproximar a comunidade setubalense e os sócios ao clube”. Como vai fazer isso?

Sempre disse que falarei com a verdade. Enquanto andarmos com “meias verdades” não conseguiremos transmitir a informação aos sócios. Esta aproximação tem de ser feita e os sócios tem de estar com a direção, e vice-versa. A própria cidade também tem de estar ao lado do clube, porque está afastada. A cidade de Setúbal tem mais 100 mil habitantes e um número muito reduzido de associados.

“Temos de ir junto das empresas para dar a entender que clube precisa da ajuda de todos. O Vitória faz falta a Setúbal”

Já estamos a preparar uma campanha para tentar dinamizar o associativismo, porque as próprias empresas de Setúbal estão afastadas do clube. Há uns anos, as empresas eram parceiros essenciais do Vitória, e neste momento não o são. Temos de ir junto dessas empresas para dar a entender que o clube precisa da ajuda de todos. O Vitória faz falta a Setúbal.

Sente que o clube ficou descredibilizado perante as empresas e clubes?

As pessoas têm de perceber que o Vitória, ao ser falado diariamente nos jornais pelas piores razões, apenas sai prejudicado. Todos os possíveis interessados em ajudar o Vitória encontram más informações, más notícias, do pior que se pode ler. Com essas notícias, o clube foi-se afundando cada vez mais.

“Não podemos andar a ser falados nos jornais todos os dias pelos piores motivos”

Quem quer ajudar e vai ler o jornal, encontra todos os dias o Vitória a ser denegrido e perde a vontade. Aquilo que tentámos estagnar, e penso que temos conseguido, é que se diga mal do clube. De uma vez por todas, tem de se parar de dizer mal do Vitória.

É um clube com história, tem 110 anos. Não podemos andar a ser falados nos jornais todos os dias pelos piores motivos. O clube precisa urgentemente de trabalho e de referências positivas. É isto que eu peço.

Quando vai proceder à reabilitação do campo da Várzea?

Na semana passada [de 3 a 9 de janeiro] éramos para começar a reabilitar o campo da Várzea, mas estavam lá a decorrer umas obras e não conseguimos. O campo irá começar a ser reabilitado de certeza, com o apoio da Câmara Municipal de Setúbal. Em breve vão começar a verificar-se algumas alterações.

Com ex-presidente, Paulo Rodrigues, o Vitória não tinha boas relações com a Câmara Municipal de Setúbal. Como está agora a situação?

Sempre se disse, já de há muitos anos, que o Vitória e a Câmara Municipal de Setúbal tinham de estar sempre lado a lado. É um parceiro importante e essa referência era sempre feita. Eu tenho uma boa relação com a Câmara por causa do andebol.

Embora seja sócio do Vitória há 53 anos e venha ver todos os jogos de futebol, a minha modalidade de eleição foi o andebol. Estive durante muitos anos no andebol e acabei a minha carreira no Vitória. É a partir daí que tenho uma boa relação com a Câmara, e mantém-se até hoje.

“Alguns diziam que eu era um “capanga” da Câmara, mas não sei onde foram buscar isso”

Alguns diziam que eu era um “capanga” da Câmara, mas não sei onde foram buscar isso. Aquilo que me caracteriza é ser uma pessoa correta. Por esta minha correção, tenho um bom relacionamento com toda a gente.

A relação cordial ainda hoje se mantém, mas houve outras direções que também se davam bem com a Câmara. Não quero fazer comentários à anterior direção porque o Vitória tem muito para fazer e todo o tempo é curto. Falar do passado não interessa, o que interessa é o presente e o futuro.

E como estão as relações com a SAD?

Neste momento estamos a preparar a nomeação da SAD. É uma situação complicada porque a SAD também tem um passivo enorme e temos necessidade de perceber a real situação. Não é que não tenhamos mais ou menos o conhecimento da situação, mas é importante saber a sua realidade.

O que planeia fazer com o Bingo e com a loja?

Desde que a Câmara Municipal de Setúbal tomou posse do direito de superfície do Estádio do Bonfim, também tem encetado obras de recuperação. A loja vai começar a ser intervencionada, tal como outros espaços, para começar a dar forma ao Estádio.

“O Bingo tem de começar a funcionar porque era sem dúvida uma receita considerável do Vitória”

O Bingo é uma situação que temos de ponderar e ver como o vamos colocar a funcionar. Com esta situação do Covid, temos de fazer uma análise correta e tentar perceber em que horários pode funcionar. Uma coisa é abrir o Bingo, outra é perceber se no seu horário de funcionamento vai gerar receita. O Bingo tem vários funcionários e temos de analisar entre a receita e a despesa para perceber se é rentável.

Aquele espaço tem de começar a funcionar, porque era sem dúvida uma receita considerável do Vitória. Mas agora com o novo confinamento é muito difícil porque as despesas existem e as receitas continuam a ser zero.

Como está a obra do novo centro de treinos em Palmela, depois da parceria entre o clube e o Kartódromo Internacional de Palmela (KIP)?

Está parada. Havia um acordo com a direção de Paulo Gomes e o Kartódromo de Palmela, mas penso que com a direção que chegou a seguir, não houve evolução.

“Não sabemos se o centro de treinos em Palmela será benéfico para o Vitória”

Com esta direção, não sabemos se eventualmente será benéfico para o Vitória. O centro de treinos foi negociado numa situação completamente diferente desta, porque quando as obras começaram, o Vitória ainda estava na primeira divisão.

Quem não tem receita e continua com custos, precisa de evitar outros custos que possam aparecer e que venham a criar mais dificuldades.

A eventual subida de divisão no futebol poderia ser uma “lufada de ar fresco”. Concorda?

O lugar do Vitória não é no Campeonato de Portugal, mas sim na primeira divisão. Estamos a lutar para que o clube possa voltar o mais rapidamente possível ao lugar que é seu por direito. Se a caminhada tiver de ser: subir à segunda liga e depois à primeira, vamos lutar para isso.

Continuamos à espera de uma decisão administrativa. Não estamos a trabalhar a pensar nessa decisão, mas se vier, que venha a favor do Vitória, porque achamos que é toda merecedora. O nosso entendimento é que o Vitória vai ganhar administrativamente o processo.

“Podem existir fatores adversos que façam com que o clube deixe de respirar”

Quando nos apresentámos às eleições, uma das coisas que dissemos é que enquanto o Vitória respirasse, nós iriamos ajudar a respirar. Podem existir fatores adversos que façam com que o clube deixe de respirar, mas enquanto nós percebermos que o clube ainda tem um pouco de oxigénio, vamos tentar ajudar.

Esse pouco oxigénio é tentar que a equipa de futebol continue a sobreviver, apesar de ser um orçamento difícil em termos do seu valor. O Vitória tem muita despesa fixa e muitos credores para satisfazer.

Existe confiança dos jogadores nesta direção?

Já conversámos com os jogadores e temos estado a acompanhar a equipa. Achamos que as pessoas, pelo menos, demonstraram confiança. O ser humano precisa de apoio e de perceber que tem alguém do seu lado. Foi isso que tentámos transmitir, que estaremos sempre ao lado dos atletas, mas sabemos que esta disponibilidade não é o suficiente.

“As pessoas transmitiram-nos a necessidade de terem alguém do seu lado, porque estavam completamente desamparadas”

Há pessoas que têm salários em atraso de muitos meses e precisavam deste sinal de confiança. Transmitiram-nos a necessidade de terem alguém do seu lado, porque estavam completamente desamparadas.

Não tinham ninguém com quem conversar, mas agora têm alguém que está aqui todos os dias. Se quiserem conversar, estamos disponíveis, mas mais uma vez, esta disponibilidade de estar ao lado não é o suficiente. Chegamos sempre à conclusão que isto é tudo muito bonito, mas se não houver dinheiro, não funciona. É sempre à volta disto que andamos.

Não há forma de fugir a isto. Têm as suas despesas fixas: Casa, água, luz, gás e filhos. Se não houver dinheiro, por mais vontade que nós tenhamos, não vai resultar. Como eu já disse, não prometi milhões nem dinheiro. Sei que tenho de o tentar arranjar e estamos a trabalhar para isso.

As relações entre as claques e a direção também estavam complicadas. E agora?

As claques e o grupo de voluntários têm sido extraordinários no apoio que tem dado. Criam uma serie de ações para ajudar e estão sempre disponíveis. Neste momento há uma relação extraordinária entre as claques, o grupo de voluntários e a direção. Isto é que é importante transmitir: a colaboração de todos. Só com esta colaboração é que podemos chegar a bom porto.

Que mensagem quer deixar aos sócios e adeptos?

Primeiro, quero que todos os sócios percebam que o clube está numa situação muito difícil. Eu não sou nenhum salvador. A única coisa que me trouxe para o Vitória foi para tentar ajudar a arranjar uma solução, e estou empenhado nela. Pedimos o apoio de todos. Não vale a pena irmos para as redes sociais falar mal só por falar. É importante ajudar.

“Não vale a pena irmos para as redes sociais falar mal só por falar. É importante ajudar”

Segundo, volto a dizer que se houver um investidor ou algum sócio que tenha possibilidades ou que possa eventualmente ter algum interessado em ajudar o Vitória, esta direção não é um impedimento, mas sim uma solução. Apareça que tiver possibilidades de ajudar o Vitória, quer seja com esta direção ou com outra qualquer, mas apareçam.

Gostaria que o clube, pela sua história, pudesse acalmar e voltar ao lugar que é seu por direito. O meu pensamento e aquilo que me move é ver o Vitória na primeira divisão o mais rapidamente possível.

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