Opinião

Caminhos cruzados evitam oportunidades perdidas

Uma crónica de Vera Esperança.

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Adotei um cão. Um cão preto, gordinho, que viveu seis dos seus sete anos na box de um canil. Assim um cão daqueles que em princípio seria inadotável, para quem ninguém olhava. O seu destino era uma certeira condenação a envelhecer e morrer preso num canil sem que tivesse cometido qualquer crime.

Se não sabe, fica a saber que os animais de cor preta com idade igual ou superior a dois anos têm menos probabilidades de virem a ser adotados  – pelo menos, é o resultado estatístico que o demonstra. Mas adotei-o precisamente por causa disto. E sabe? Tem sido uma descoberta para ambos.

Desde o primeiro dia revelou ser curioso e sociável. Quando o passeio na rua, cumprimenta todas as pessoas, com o rabo sempre a dar, desafia os outros animais a brincarem com ele e não perde a oportunidade de enfiar o nariz em todas as lojas. Lojas bem iluminadas, com luzes e árvores de natal deixam-no absolutamente deslumbrado.

Na rua anda sem trela e apesar de adorar correr, nunca se afasta – opta pelas corridas em círculo como um cachorrinho. E como qualquer cachorrinho, pára fascinado no meio da corrida a investigar uma planta ou um pau que lhe captou a atenção.

Em casa não estraga nada. Nem sequer foi preciso ensinar-lhe que existem necessidades fisiológicas que apenas na rua devem ser feitas. Mas desde o primeiro dia que foi conquistando progressivamente o seu espaço, mostrando a sua forte personalidade. Descobriu, por exemplo, onde guardo os edredons. Sem pudor, aprendeu a abrir a porta do armário. Agora, na sua cama, dorme enrolado a um, que já desisti de invocar para mim.

Também aprecia olhar pela janela, mas nada o entretém e aprecia mais do que a companhia humana: recebe-nos com uma enorme festa e trepa para o nosso colo para pedir festas. Na verdade, parece que quer recuperar seis anos numa tarde só. Se for preciso, é até capaz de tirar-me o livro que tenho na mão, para que esta poise sobre o seu pêlo.

Nestes dias frios, procura o aquecedor e ressona enquanto dorme. Olho para ele com muita ternura e tento imaginar como estaria se continuasse no canil. Depois lembro-me de todos os outros que lá ficaram, que neste momento estão ao frio…

Adaptou-se aos meus horários e nunca me acorda, mas assim que dou sinal que já não durmo, começa a destapar-me e diz vamos passear? Já vamos, já vamos… calma. Deixa-me fazer chichi e vestir.

Este animal passou seis invernos sem aquecimento; só teve direito a passeios semanais em vez de diários; não tinha espaço para correr, brincar ou explorar, porque vivia confinado numa box com escassos metros quadrados. É isto que me deixa mais impressionada – como é que a sua inteligência, a sua vontade de explorar, a sua curiosidade não ficou afetada pela falta de estímulo? Como é que a sua capacidade relacionamento, a paz e o amor que demostra ter pelo ser humano não ficaram “estragadas” ou “avariadas”…?

A adoção de um animal de meia idade, um daqueles que seria, por princípio, inadotável, é um excelente investimento para o alargamento do seu núcleo familiar. Esqueça-se de todos os receios e pré-conceitos. Os cães que vivem num canil e que por si certamente esperam, não são sinónimo de problemas, não são cães que necessariamente não sabem comportar-se em casa ou que são incapazes de criarem uma ligação consigo. Bem antes pelo contrário – são animais que sabem reconhecer o seu ato, que sabem que lhes deu uma vida condigna, que sabem a quem ser fiéis.

Ah, e tal, vivo num apartamento, só se tivesse um quintal e blá, blá blá. Se acha que o seu apartamento é pequeno, lembre-se que será certamente maior que os dois ou três metros quadrados em que estes animais passam a maior parte do seu dia.

Ah, mas passo muito tempo fora de casa, saio de manhã e chego à noite, muito trabalho, férias e o diabo a quatro. Se passa doze horas fora de casa e acredita que não tem tempo para cuidar de um animal, pense na oportunidade de mudar os hábitos (ir almoçar a casa, por exemplo) ou contratar os serviços de petsitting– cada vez mais popular e acessível. Se não lhe for possível, lembre-se que em casa o animal está melhor do que no canil e que a sua chegada ao lar vai ser comemorada todos os dias como se de uma festa se tratasse.

Nestes estranhos tempos, em que nos distanciámos fisicamente de muitos dos que nos são queridos, poderá sempre contar com o afeto incondicional de um cão de canil. É uma mais-valia para a sua saúde mental e física.

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O meu cão, preto, gordinho e de meia-idade é agora um cão feliz e que espalha felicidade.

Estou grata por os nossos caminhos se terem cruzado. Cruze o seu também com que merece uma segunda oportunidade.

Voltarei, porque, afinal, “somos todos iguais”.

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