Bater num funcionário público é bater no Estado de Direito

Esta semana um artigo de Diogo Prates

0
139
Tempo de Leitura: 2 minutos

Recuemos no tempo.

Dia 15 de Maio de 2018, adeptos encapuzados invadem as instalações da academia do Sporting Clube de Portugal e agridem jogadores e funcionários do clube.

Durante semanas não se falou de outra coisa na comunicação social, a notícia foi capa de jornais e abertura de telejornais, os agressores estão a cumprir prisão preventiva enquanto decorre o julgamento sob a acusação de terrorismo.

Dia 2 de Novembro de 2018, um grupo de homens invade um quartel de bombeiros e agride os homens que lá estavam a trabalhar, segundo noticia do Observador “os bombeiros de piquete fecharam a porta de entrada do quartel, tendo os agressores partido o vidro e invadido as instalações, perseguindo os quatro bombeiros que estavam de piquete, que se refugiram em viaturas ou noutras dependências do quartel”  https://observador.pt/2019/11/02/bombeiros-de-borba-agredidos-dentro-do-quartel/.

A diferença de tratamento dado a cada caso é notória, tanto por parte da comunicação social, como da justiça e da sociedade civil.

Durante o debate sobre o Orçamento de Estado, o governo exaltou o excedente orçamental obtido, o primeiro em democracia dizem-nos, o que não dizem e que esse excedente foi obtido à custa de um investimento público medíocre, que põe em causa as funções básicas do Estado na educação, justiça ou saúde.

Enquanto médico a trabalhar num centro de saúde, aquilo que peço, não é que o governo me dê aulas de defesa pessoal, mas sim que me garanta segurança no meu local de trabalho.

As urgências de um hospital público funcionam hoje num caos que custa a admitir para quem não as conhece, como parece ser o caso da actual Ministra da Saúde, Marta Temido: “Não há caos em dia nenhum” https://www.tsf.pt/portugal/sociedade/nao-ha-caos-em-dia-nenhum-ministra-da-saude-diz-que-sns-esta-melhor-11054984.html.

A verdade é esta, quem espera 7 ou 8 horas para ser atendido quando está doente fica revoltado e com razão, não tendo obviamente o direito de agredir quem o está a tentar ajudar, tem o direito à indignação que deve dirigir não aos médicos e enfermeiros, mas a quem garante que o Serviço Nacional de Saúde está melhor que há 4 anos.

Não está e a prova é que, por exemplo, a urgência pediátrica do Hospital Garcia de Orta nunca fechou no período da troika e fecha agora todos os dias a partir as 20 horas e ao fim-de-semana, afinal o SNS está melhor para quem? Para doentes e para quem lá trabalha não estará com certeza.

Quando estamos doentes não são os jogadores de futebol que tratam de nós ou dos nossos filhos, mas sim médicos e enfermeiros, quando a nossa casa está a arder não é para um clube de futebol que ligamos mas para os bombeiros, quando queremos educar os nossos filhos não contamos com os jogadores de futebol mas com professores e auxiliares.

Uma sociedade civil forte e saudável não se pode virar contra quem presta serviços num ambiente e numa organização que não controla, uma sociedade civil consciente não se pode resignar a serviços públicos em ruptura, deve exigir do poder político respostas, as contas certas não devem ser um fim em si mesmo, mas uma forma de poder proporcionar aos cidadãos melhor saúde, melhor educação e melhor justiça, e não como é o caso, obtidas à custa do desinvestimento nestes sectores.

DEIXE UMA RESPOSTA

Insira o seu comentário
Nome