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Autarquia e munícipes unidos para controle de colónias de felinos na Moita

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Alda e Elisabete não se conheciam, mas as suas experiências no voluntariado animal levaram-nas a apresentar a mesma ideia ao ‘Orçamento Participativo’ no concelho da Moita, há cinco anos atrás: controlar e diminuir os nascimentos de gatos em colónias através do projecto CED – Capturar, Esterilizar e Devolver.

“Pelo facto de serem duas propostas no mesmo sentido a autarquia contactou-nos e propôs a criação de um projeto único”, explicou ao Diário do Distrito uma das mentoras desta iniciativa.

O projecto CED Moita está instalado num espaço cedido pela Câmara Municipal da Moita. “Não somos gatil, apenas recolhemos aqui os animais durante a recuperação e posterior devolução às colónias ou, nos casos em que detectamos que são animais dóceis, até serem adoptados.”

Este projecto conta com dez voluntárias a trabalharem “no campo, o que significa na recolha dos animais e no seu tratamento no abrigo, e outras tantas a trabalhar em backoffice, nas questões mais burocráticas dos processos de adopção e na gestão das redes sociais”.

Se gosta de animais e tem algum tempo livre, pode contactar o Projecto CED Moita e voluntariar-se. “Qualquer pessoa se pode oferecer como voluntária, basta vir conhecer como tudo funciona, já temos um método implementado, mas estamos sempre abertas a sugestões.”

O balanço deste projecto não podia ser mais positivo. “Ao fim de um ano, uma colónia de animais errantes, passa para metade, entre os que vão morrendo e os que não nascem. Até a nós ficámos surpreendidas com um resultado tão rápido. Pensávamos que seria notada uma diminuição ao longo do tempo, mas não de forma tão eficaz.”

A sala dos gatos que aguardam novas famílias

Adopções são um sucesso e até há gatos dadores de sangue

Na altura da visita do Diário do Distrito ao espaço, o abrigo tinha cerca de 40 gatos, 10 deles “prontinhos para uma nova família”.

Apesar da necessidade de novas casas para estes animais, os processos de adopção são rigorosos. “Adoptar um animal não é uma decisão ‘do momento’, e nem sempre as pessoas estão preparadas para alguns dos animais que nos chegam.”

Neste processo, os animais são divulgados nas redes sociais ou em anúncios, e os candidatos são avaliados “através de uma forma rígida de triagem para termos a certeza de que estamos a entregar a adoptantes responsáveis. Todos os animais são entregues esterilizados, com as vacinas em dia e, se der tempo, também chipados.

Temos ainda um termo de adopção que ‘só’ tem quatro páginas, onde perguntamos tudo e mais alguma coisa, e as adopções são depois seguidas junto dos adoptantes, que também têm da nossa parte a abertura para que possam até vir a devolver o animal se algo não tiver corrido bem, nem perguntamos motivos, para evitar abandonos.

Mas posso dizer que não tivemos ainda de enfrentar essa situação, o que também demonstra a importância de o processo de triagem ser tão ‘apertado’.”

Além da página do projecto e dos candidatos para adopção, há também uma outa página “onde estão as famílias de todos os adoptados, e que tem tido muito sucesso, porque todos gostam de mostrar como está o seu gato, partilhando as fotos e informação e acaba por ser uma família que vai crescendo”.

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No entanto, os gatos do projecto CED Moita não se limitam a aguardar por novas famílias, e ajudam também outros animais, através de uma parceria com o ‘Banco de Sangue Animal’.

“Alguns dos gatos que por aqui passam, por terem as características certas, são dadores de sangue, e o BSA oferece-nos a chipagem desses animais, quando lhes realizam os testes para as doações.

Os novos tutores podem depois optar por manter ou não o seu gato como dador, porque na documentação para adopção é entregue um impresso onde é referido que aquele animal é dador, sendo depois opção dos adoptantes manterem-no inscrito no BSA.”

XL, o gato viajante

O Viajante XL

Todos os animais que passam pela associação deixam a sua marca, exemplo disso são as fotos que enfeitam as paredes e das quais uma se destaca: o XL, um gatão ‘pardo’ com um olho verde e outro azul, que após uma vida na rua, acompanha agora o tutor em todas as suas viagens.

“Todos eles nos deixam saudades, mas as histórias das suas adopções enchem-nos o coração, e esta em especial. A Câmara Municipal solicitou a nossa ajuda para retirar o XL da rua porque ele literalmente atacava uma Unidade de Saúde Familiar. Trata-se de um gato com muita personalidade e um feitio nem sempre muito simpático, mas por ter os olhos com aquelas características, teve sempre muitos pedidos de adopção, só que cada pessoa que o vinha ver, saia daqui literalmente toda arranhada.”

Prestes a ser retirado da lista de adoptáveis, devido ao seu feitio ‘especial’, eis que surgiu um possível adoptante, “um senhor alemão que insistiu que o queria ver, apesar dos nossos avisos e receios. E no dia da visita, quando se encontraram, o XL abraçou-se a ele, num verdadeiro ‘amor à primeira vista’.”

Hoje o XL continua presente no abrigo “porque o tutor nos envia as fotos de ambos em vários países e aeroportos. Viaja imenso e leva-o consigo para todo o lado, até nas férias. Além de que é ultra simpático para com os restantes animais da família, quando no abrigo atacava os outros animais.”

No entanto, mesmo a sua nova casa, o XL ainda fez algumas tropelias, que o tutor transmitiu às voluntárias: “numa das casas onde viveu, aprendeu a esgueirar-se até à casa do vizinho e servia-se da comida do frigorifico deste, coisa que não fazia na sua casa, porque o tutor já tinha instalado um sistema de segurança para evitar os ‘furtos’ do XL”.

Outro caso mais recente que tocou os corações das voluntárias é do Pinguim, um gato com um carcinoma no nariz. “Foi retirado da rua num estado deplorável, e chegámos a equacionar a eutanásia. Mas no dia marcado, não houve coragem, porque ele é tão meigo e doce, que decidimos dar-lhe o maior conforto enquanto ele tiver qualidade de vida.”

A enfermaria com os casos ‘complicados’ como o Pinguim (ao alto, na gaiola)

Parceria com Câmara Municipal da Moita

A Câmara Municipal da Moita é a principal parceira, e é para a autarquia que são dirigidos os elogios das voluntárias. “Tem sido um executivo muito receptivo e participativo a este tipo de ideias, e também ao bem-estar animal. Trabalhamos directamente com o vereador Manuel Canudo e com a sua equipa, que estão sempre disponíveis e tentam responder o mais rápido possível aos nossos pedidos.”

O processo de recolha dos animais inicia-se com a autarquia, cujos serviços fazem a identificação dos animais a recolher e esterilizar.

“Antigamente essa informação chegava à Câmara através de queixas, relativas a maus tratos ou má alimentação das colónias, dos cios, dos passeios em cima dos carros, etc. Agora os pedidos já são mais no sentido de cuidadores que procuram ajuda para as esterilizações das suas colónias.

Os casos identificados são depois encaminhados para o CED Moita, e é feita a recolha dos animais, com a respectiva avaliação física, separando os que necessitam de tratamento e também consoante são mais ou menos assilvestrados ou animais domésticos abandonados.

São então esterilizados pelos veterinários que trabalham connosco em regime de voluntariado, e depois do recobro são devolvidos às suas colónias, porque são assilvestrados e deprimem se ficam fechados, uma vez que não perderam a noção da vida na rua, ou passam para o processo de adopção, porque muitos merecem voltar a ter uma família e um sofá.”

É também feito o tratamento e socialização de alguns gatos mais ariscos “que nos chegam muito doentes e apesar de serem assilvestrados, durante o período de tratamento revelam-se meigos e agradecidos, e por isso são preparados para ser adoptados.”

Em relação às colónias “é feita uma identificação das que existem, o que nem sempre é fácil, porque há muitas, e algumas são identificadas como X, Z, ou Y, mas depois verificamos que são visitadas pelos gatos de outras colónias, e já tem acontecido capturarmos gatos que já foram esterilizados.

Neste momento temos cerca de dezassete colónias identificadas onde interviemos, e mantemos o contacto permanente com os respectivos cuidadores, porque é a pessoa responsável pelo pedido que chega à autarquia, uma interação muito importante, também para percebermos se o/a cuidador é uma pessoa com capacidade para manter e orientar a colónia, e se tem condições físicas, financeiras e emocionais para esse trabalho, que não se limita ao alimentar de animais.”

«A autarquia acarinhou este projeto desde o seu início»

Ao Diário do Distrito o vereador Miguel Canudo explica que “o projeto CED Moita nasceu de uma proposta apresentada por voluntários em setembro de 2015, primeiramente para disponibilização de um espaço para realização do recobro dos gatos esterilizados, provenientes de colónias existentes na área do município da Moita, que estes voluntários estavam a acompanhar.”

Acerca do apoio da autarquia “o projecto foi acarinhado desde o seu início. O apoio que é prestado relaciona-se com a disponibilização de instalações para a realização do recobro e com a disponibilização, a título gracioso, de todos os medicamentos e materiais para a realização das esterilizações, além de um considerável contributo em alimentação e areia sanitária para estes animais alvo de esterilização.”

Miguel Canudo refere ainda que “em 2018, nas instalações do médico veterinário municipal, que, à data, apenas eram utilizadas para a campanha de vacinação antirrábica, foi criada uma sala específica para a realização de esterilizações, dotada com todos os requisitos e equipamentos necessários para estas intervenções, dando assim melhores condições aos voluntários para a sua realização e também aos animais que delas são alvo.”

Os dados da autarquia referem que “desde o início do projeto foram esterilizados cerca de 800 gatos, e existem, no momento, cerca de 30 colónias”.

Sobre o futuro do CED Moita, o vereador frisa que “este projecto está muito dependente do trabalho de voluntários e, também, em grande medida, da colaboração de médicos veterinários em regime de pro bono, sendo fundamental para o êxito deste projeto a continuidade do seu apoio.

No imediato, o objetivo primordial é continuar a intervenção regular nas capturas e esterilizações para procurar ter o maior número possível de animais esterilizados, e por outro lado, há um grande enfoque na tentativa da adoção destes animais, o que nem sempre é possível, pois a maior parte não são domesticados e nunca conviveram muito de perto com pessoas. Não obstante, é uma linha de intervenção que se procura desenvolver e intensificar.”

A sala de ‘convívio’ enquanto aguardam adopção

«Tomara que todas as Câmaras tivessem o mesmo cuidado»

Isabel Fernandes é uma das cuidadoras de três colónias na Moita que tiveram intervenção do projecto na esterilização dos animais.

“Conheci as voluntárias do Projecto CED Moita numa das ‘Feiras das Tralhas’ onde eu estava a angariar verba para as minhas colónias. Soube que faziam esterilizações e fui pedir à Alda se podiam intervir na colónia que fica nos «Amigos do Mar». Foram lá, com armadilhas, e conseguiram capturar todos os gatos menos três, que não apareceram. Estiveram cerca de duas semanas em recobro e regressaram à colónia, porque víamos que a gatinha «Amiga» e a «Benedita» estavam já a entrar em depressão por estarem fechadas.

Quanto aos outros ‘malandros’ já voltaram a aparecer e agora vamos ver se são capturados, assim como os gatos da colónia que falta, o que será feito para o final deste ano ou princípio de 2021.”

Ser cuidadora de colónias é um trabalho difícil “porque não é só alimentar; é preciso manter o espaço limpo, e garantir cuidados de saúde. Tenho tido ajuda de algumas pessoas, em especial do Marco André na manutenção das colónias, mas é uma despesa muito grande, que vou colmatando com a venda de doces e salgados, e em feiras da tralha.”

Um dos abrigos intervencionados e da responsabilidade de Isabel Fernandes

Como cuidadora há vários anos, Isabel elogia o trabalho das voluntárias e da autarquia. “Podemos ter uma Câmara Municipal que não resolve todos os problemas, mas o vereador Miguel Canudo agarrou este projecto ‘com unhas e dentes’, e o resultado está à vista, com menos animais a nascerem nas ruas e os esterilizados a terem melhor qualidade de vida, com menos cios e menos lutas. Não se conseguem arranjar tutores para todos os gatos que são capturados, e outros são mais felizes em liberdade, desde que estejam em segurança.

Isabel Fernandes espelha bem o desejo de todos os cuidadores: “tomara que todas as autarquias tomassem esta atitude, porque sabemos que há algumas aqui perto que não ligam nenhuma às dificuldades das cuidadoras, como no concelho do Montijo, sem qualquer ajuda da Câmara Municipal, que nem sequer concorreu ao programa do Governo que apoia os projectos CED, e isso é lamentável.”

Lamenta que os abandonos continuem “e agora abandonam até gatos de raça, como aconteceu recentemente numa das minhas colónias, onde deixaram uma gata bosques da Noruega prenha, que já foi recolhida e logo esterilizada, mas é muito difícil conseguir adopções para animais adultos.

Grande parte das colónias é constituída por animais que abandonam, e que depois se vão reproduzindo. Há ainda quem abandone animais doentes ou grávidas e quando vêm nos apelos que estes foram tratados, voltam a exigir que lhos entreguem.”

E se as cuidadoras por vezes têm histórias com finais felizes “como a da «Ritinha» que nasceu na colónia e foi adoptada”, outras são horripilantes, como é o caso do «Tobias», que passou pela ‘enfermaria’ da Isabel, com outros dois gatos com graves problemas de saúde, “todos devidamente seguidos pelo veterinário”.

O «Tobias» ficou em FAT “mas tinha um problema de saúde, e o individuo em vez de o tratar, optou por o meter dentro de uma transportadora, até ao ponto de quase morrer de inação. Resgatei-o, mas por muitos cuidados que tivéssemos, eu e a veterinária, acabou por não resistir e desistiu de viver.”

Tobias, poucos dias antes de morrer, e após meses enclausurado numa transportadora

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