Opinião

A Última Viagem a bordo do Titanic!

Uma crónica de Isabel de Almeida.

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Ainda nem meio mês decorreu sobre o início de um novo ano e já posso antecipar que este não será melhor do que 2020.

Assistir à primeira semana “útil” de 2021 foi a oportunidade para uma antevisão da tristeza  que nos espera. Será um novo ciclo muito difícil, quiçá ainda mais duro do que tudo o que já presenciámos até aqui. A pandemia está em escalada, creio que na terceira e mortífera vaga e assistimos a recordes que não desejaríamos ultrapassar.

Não pode deixar de ser frustrante, confuso e assustador um novo confinamento “geral” (entre aspas porque se manterão abertas escolas e, ao que se pressupõe, Tribunais) num momento em que quase perfaz um ano sobre o início deste pesadelo que, ingenuamente então muitos pensámos que seria controlado com o primeiro confinamento de apenas 15 dias.

E porque motivos tanto me incomoda este novo confinamento “geral”? Afinal, dirão muitos, é tão só e apenas mais um de tantos sacrifícios que alguns de nós (quero acreditar que sejamos muitos, mas até desta quantidade extensa tenho sérias dúvidas) têm sido incentivados a fazer em prol da saúde colectiva e do bem estar da comunidade para debelar esta praga.

Pois bem, exemplificando sob a forma de uma metáfora o modo como percepciono tudo isto, é o seguinte: estamos a bordo do Titanic, o icebergue já danificou e perfurou o casco do navio luxuoso (este luxo é também ele a metáfora da vida e do  mundo tal como os deixámos para trás há quase um ano, mas que parece pertencer a um passado muito distante), os compartimentos estanques começam a inundar-se, sendo inevitável o naufrágio e, claro, nesta tragédia muitos irão perecer e comparativamente serão menos os que se salvam, pois não existem salva-vidas suficientes para todos os passageiros e tripulantes, e cada um de nós vê-se forçado a colocar à prova toda a sua resiliência, saúde física e mental, capacidade financeira, meios logísticos e capacidade maior ou menos de adaptação a um dura e nova realidade que veio para ficar, e da sua aceitação.

Pessoalmente, não nego o desencanto, o cansaço, a falta de confiança e a insegurança que me causam viver neste país. Não deposito fé na classe política geralmente considerada, não enxergo substância nenhuma além da politiquice, politicazinha e intriga palaciana que camuflam a total falta de ideias e soluções possíveis, As instituições, sistemas públicos e publico-privados também não me transmitem mensagens mais animadoras neste Titanic à deriva e sem salva-vidas bastantes…

Não me sinto segura, nem protegida, nem apoiada neste pais onde me coube em sorte nascer. No ano passado fomos ingénuos ao ponto de acreditar que 15 dias de sacrifício geral seriam o bastante para dominar e controlar este problema universal do vírus, achávamos que a famosa curva seria achatada, hoje, quase um ano volvido, já estamos na terceira vaga, e temos como destino certo em toda esta incerteza que nos rodeia um confinamento que mais soa a cuidado paliativo com uns certos laivos de marketing político-sanitário, por ser tardio na perspectiva de muitos especialistas na área da saúde, e também por oscilar em função de interesses políticos e financeiros, naturalmente fica à  vista que as escolas não devem fechar porque suspeito seriamente que não existem fundos estatais que possam suportar o pagamento das devidas compensações aos muitos encarregados de educação que teriam de voltar a ser dispensados para ficar em casa a cuidar das crianças mais pequenas. Os Tribunais deverão também manter-se em pleno funcionamento, até porque a Ordem dos Advogados, na pessoa do seu máximo representante veio apelar às altas instâncias da nação que tudo decorra como até aqui na Justiça pois os Tribunais estão seguros…não é essa segurança que sinto, nem é um funcionamento dito normal ou justo que ali encontro, aliás, o que vejo é neste âmbito os Advogados totalmente desprotegidos seja qual for o caminho: se fechar tudo não temos meios de sustento, se se mantiver como até aqui estaremos entregues a um jogo de roleta russa, pois se formos infectados não contamos com apoios sociais nem sequer existe uniformidade decisória e garantia de adiamento de diligências em caso de necessidade do Mandatário, a situação não é pacífica. Muito estranho a resistência a uma solução de meio termo, que não sendo perfeita, permitiria funcionando sem paragem completa mas acautelando e minimizando os riscos de contágio – o recurso às tecnologias à distância para a realização de grande parte das diligências, em especial nos muitos Tribunais nesse pais onde não estão reunidas as condições mínimas de segurança até pela configuração do espaço onde funcionam.

Economicamente, será o fim de muitas pequenas e médias empresas, e muitos mais agregados familiares ficarão sem sustento garantido, tal já sucede e tende a piorar, temo até pensar em todas as possíveis consequências deste contexto catastrófico.

Por fim, as ajudas comunitárias bem podem estar comprometidas caso a União Europeia chame o Estado Português a prestar contas sobre a recente polémica da nomeação do Procurador João Guerra!

Resta-nos lançar um último S.O.S. Virá por ai D. Sebastião para nos resgatar?

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