Opinião

A MORTE DA CONFIANÇA

O governo decretou que a partir de 15 de Setembro voltaremos a ser alvo de medidas restritivas por imperativo de saúde pública. Findo o verão avolumam-se as preocupações sobre a segurança sanitária.

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A Maria, que é asmática, passou as curtas férias de Verão a fugir das hordas de turistas lusos e espanhóis que enxamearam as praias, estes últimos sem qualquer respeito pelas mais básicas regras de mitigação do vírus.

A Maria trabalha numa fábrica e ganha 950 euros brutos por mês. Depois da TSU e da retenção de IRS fica com pouco mais de 700 euros.

A Maria é divorciada e tem uma filha de 4 anos. Recebe do pai da menina uma pensão de 150 euros.

Com estes 850 euros a Maria tem de pagar renda de casa, água, luz, alimentação e transportes e ainda de prover as despesas escolares e de saúde da filha.

A Maria tem medo de ficar doente, mas tem ainda mais medo de perder o emprego ou ficar em layoff. Tem medo do futuro.

Por isso todos os dias se levanta cedo e vai trabalhar, arriscando a sua vida e a dos seus. Como não tem rede familiar a Maria não pode optar por deixar a filha num ambiente mais seguro e tem mesmo de a deixar no infantário.

Para a Maria não há escolha, para a filha da Maria também não.

A Maria está baralhada, porque passou o verão a ouvir dizer nas notícias que tudo estava melhor e que até os ingleses acabaram por vir ao algarve. Mas subitamente é “informada” de que afinal os casos estão a aumentar e vamos todos ter novas medidas restritivas.

A Maria está com medo e não sabe já no que acreditar. Teme o regresso às aulas mas sabe que não tem escolha.

Como ela muitos dos nossos concidadãos não têm escolha. Não podem ficar em casa. Não podem deixar os seus filhos num ambiente seguro.

Estes cidadãos, que não são filhos de um deus menor, precisam ainda mais de confiar nas instituições do seu país.

Precisam que lhes falem com verdade para tomarem decisões conscientes. Têm esse direito.

Mas não percebem porque é que nos aviões e os transportes não há distância social e nos restantes espaços fechados tem de haver. Não percebem porque é que lhes diziam que as praias eram seguras e agora lhes dizem que o aumento do número de casos de COVID se deve aos ajuntamentos nas praias. Não percebem porque é que o estado ainda não dotou cada lar de um computador e acesso à internet permitindo assim começar o ano lectivo em sistema misto (presencia e à distancia) e insiste num regresso às aulas que sabe será catastrófico, não apenas para as crianças, mas para as famílias.

A Maria, todas as Marias só sabem que não podem ficar em casa para não ficarem doentes, nem doentes por não ficarem em casa. Precisam de trabalhar.

Este é o verdadeiro drama de um modelo de sociedade falido, esgotado, podre, que trata as pessoas como objectos e os objectos como pessoas. Este sistema tem de ser mudado e esta é a derradeira oportunidade para o fazermos.

 Enquanto ainda somos cidadãos.

Precisamos de um modelo de sociedade que recoloque a pessoa humana no centro da actividade politica e económica, que promova a cooperação em lugar da competição.

A re(s)publica ´só existe com cidadãos e para os cidadãos!

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