«A marca está a afirmar-se pela sua qualidade»

Filipe Cardoso é o actual enólogo e gerente da Quinta do Piloto, um projecto vinícola que nasceu com Humberto Cardoso, quando este decidiu aplicar nesse negócio os lucros obtidos com a venda sua empresa rodoviária, a Auto-cars Palmelense

0
274
Diário Imagem
Tempo de Leitura: 5 minutos

Durante décadas, a produção obtida nas herdades da Fonte da Barreira, Lau e Alboal era vendida a outras marcas da região, o que viria a mudar quando Filipe Cardoso tomou a seu cargo a gestão desta adega em 2010.

Como correu o ano de 2018 para a Quinta do Piloto?  

Em termos vitícolas não foi um ano fácil, foi muito complicado. Todos os anos temos vindo a assistir a diferentes fenómenos climáticos cada vez mais extremos. Em Agosto tivemos uma vaga de calor anormal na nossa região, que deu um ‘escaldão’ na vinha e queimou muita uva.  

Esse ‘escaldão’ causou-nos prejuízo, porque esperávamos um ano de grande produção, mas mesmo assim obtivemos uma boa produção. Isto leva-nos a pensar se a Natureza não se encarrega de equilibrar as coisas, porque sem essa vaga de calor a produção até poderia ter sido demasiada.  

Na região a quebra de produção andou à volta de quinze por cento e na Quinta do Piloto foi de cerca de dez por cento em relação a 2017, mas o que produzimos foi de boa qualidade.  

Em termos dos nossos projectos como a venda de vinhos engarrafados, está a correr tudo bem, foi um ano de crescimento e de muita exportação, que actualmente já representa cinquenta e cinco por cento da nossa comercialização, o que é muito bom.  

Ao nível do enoturismo, a nossa loja aqui na Quinta representa mais de trinta por cento da comercialização dos nossos vinhos, também muito positivo. Do total da produção cabe depois cerca de vinte e tal por cento ao nosso distribuidor nacional de produtos engarrafados.  

A marca está a afirmar-se cada vez mais pela sua qualidade, o que a tem levado a ser facilmente identificada em todo o país.  

 No entanto a Quinta do Piloto já tem vários anos de história.  

A Quinta do Piloto pertence há vários anos à minha família e passou por diversas etapas, sendo que com as partilhas é que ela chegou ao que é agora. 

A primeira sociedade vitícola foi a ‘Humberto Silva Cardoso e Herdeiros’, do meu bisavó que a formou. Depois passou para Carpal e agora é Quinta do Piloto, mudanças que tiveram a ver com as partilhas, pessoas que vão saindo da sociedade, mas é uma empresa muito antiga que tem estado sempre entregue à mesma família desde o início do século passado.  

Em 2010 nasceu este projecto «Quinta do Piloto» com um projecto ligado ao enoturismo e aos vinhos engarrafados, que começámos em 2013. 

Actualmente a empresa é gerida por mim, pela minha irmã e pela minha prima, e durante o ano temos cerca de nove a doze pessoas a trabalhar nas quintas e nas adegas, número que aumenta na altura das vindimas.  

 Qual a área de vinha da Quinta do Piloto? 

Temos um total de duzentos hectares de vinhas, cerca de vinte hectares de vinhas velhas, com mais de 75 anos, situadas na zona do Poceirão, e estão divididas em duas casas agrícolas. Ainda é uma área considerável 

 Que influência têm os fenómenos naturais na qualidade da vinha? 

Acaba sempre por ter alguma influência sobre a vinha, por isso é que há anos piores e outros melhores. Todo o clima que se faz sentir em toda a época em que a uva está a amadurecer, irá reflectir-se no produto final. Se tivermos uma temperatura mais homogénea sem grandes oscilações, o resultado será um produto de muito melhor qualidade.  

Anos em que ocorram grandes oscilações térmicas, como o ano de 2018, irá sempre reflectir-se na produção desse ano.  

No entanto, como no caso da Quinta do Piloto produzimos uma grande quantidade de vinho, cerca de um milhão e meio de litros de vinho, e a nossa parte de engarrafados ainda só representa cerca de cinquenta mil garrafas, conseguimos sempre orientar a melhor parte da produção para as nossas garrafas, e não reflectimos no produto final os problemas que temos durante a campanha vitivinícola. 

No ano de 2018 verificámos que tivemos uma rebentação muito mais tardia, e com o ‘escaldão’ ocorreu uma paragem da maturação, o grau apareceu muito mais tarde. Como não choveu, não houve grandes problemas, porque se estas têm aparecido nos finais de Setembro ou princípios de Outubro, isso poderia vir a revelar-se um problema grave na nossa produção, o que nos permitiu esperar que o grau aparecesse.  

 Os produtores estão a preparar-se para estas situações? 

Cada vez temos de estar mais preparados. Actualmente existem diversos tipos de seguros que cobrem estes fenómenos extremos, o que não acontecia no passado. No nosso caso, não tínhamos, mas serviu-nos de lição e já estamos a tratar disso. Portanto, cada vez há mais meios e mecanismos para que se possa contornar os prejuízos que são causados. 

Todos os anos observamos diferentes fenómenos extremos, o ‘escaldão’ de 2018 pode não tornar a repetir-se tão cedo. Temos de estar preparados para tudo e ao clima que nos rodeia.  

Outra hipótese pode ser a mudança de castas, mas isso iria demorar muito tempo, porque temos um tipo de castas que estão muito adaptadas aos escaldões, excepto o moscatel de Setúbal, que é a que mais sofre com esses golpes de calor, mas a qual é impensável deixar de ter esta casta.  

 E como é ser empresário no concelho de Palmela? 

Não é fácil. O concelho de Palmela tem empresas muito grandes, e depois para empresas mais pequenas colocam-se alguns problemas.  

Sendo nós uma empresa vitivinícola, estamos numa região conhecida pelos seus bons vinhos, boas uvas e boas condições para a fabricação de vinhos, o que é muito positivo.  

Mas estamos tão perto de Lisboa, e vivendo também do turismo e do enoturismo, penso que ainda há muitos passos a dar. Palmela está ainda muito fechada a novos projectos 

Falta iniciativa empresarial maioritariamente privada, que abram novos espaços de comércio, novos restaurantes, ou outros estabelecimentos que pudessem dinamizar a parte antiga da vila. No caso dos restaurantes, que apostem nos produtos da região, do vinho aos queijos, porque as pessoas que nos visitam querem provar as coisas que são produzidas cá. Já vão existindo alguns locais com essa aposta, mas falta mais dinâmica.  

Por outro lado, devia ser feita maior reabilitação em casas antigas porque essa zona está degradada e envelhecida. Poderíamos ter uma dinâmica semelhante a Óbidos, mas para chegarmos aí ainda temos muitos passos a dar e não é fácil. 

Esse desenvolvimento iria auxiliar todas as outras empresas que se encontram na região, e também as de vitivinicultura. E neste caso há que ‘tirar o chapéu’ aos empresários do ramo porque quase todos apostaram no enoturismo, com a criação de lojas, visitas às adegas e espaços, mas falta a vila acompanhar esse investimento que foi feito.  

 Esse dinamismo é protagonizado também pela Quinta do Piloto nas apostas que tem feito, como o Bombom de Moscatel. Como tem sido a aceitação?  

Bastante bem. É um produto mais sazonal, que vai de Novembro à Páscoa, mas que tem o seu ponto máximo de vendas no Natal. É um produto que já entrou no imaginário das pessoas, que o procuram por curiosidade e depois porque gostaram do que provaram. Há quem venha de propósito à Quinta comprar, mas depois também o encontra noutros locais.  

Foi uma parceria de sucesso, porque o Nuno Gil é uma pessoa muito criativa e que muito tem feito pela nossa região. Juntaram-se duas empresas dinâmicas, que produzem qualidade e apostam na autenticidade, no uso de produtos locais e de coisas com valor acrescentado, porque a nossa região é conhecida pelos vinhos, mas depois falta a aposta em produtos de qualidade e diferenciadores. Penso que tanto a Confeitaria de São Julião como a Quinta do Piloto têm feito um pouco esse trabalho e já estão a ser reconhecidos por isso.  

 E projectos para o futuro? 

Este ano iremos lançar o ‘Vinha dos Pardais’ branco, que será um dos melhores vinhos brancos da nossa região, e vamos sair com os moscatéis velhos, de dez e vinte anos, produtos que vão alicerçar ainda mais a qualidade dos nossos vinhos.  

Estamos também a preparar mais duas adegas abertas para visitas, uma dedicada ao Moscatel, onde iremos fazer o envelhecimento destes, e com uma zona de garrafeira para os vinhos tintos; e uma nova adega para o fabrico de moscatel na parte superior da Quinta, nuns depósitos antigos que ali temos. O projecto vai iniciar-se em Fevereiro e queria ver se tinha a parte dos moscatéis a funcionar até ao final do ano, para quando houver o lançamento dos moscatéis de dez e vinte anos, coincidir também com a inauguração desse espaço.   

Esta é a nossa dinâmica, de ter constantemente algo novo para oferecer ao público, o que acho importante para dinamizar a nossa Quinta.  

 Mas a tradição também tem um papel importante na vida da Quinta do Piloto, como a ADIAFA e o piquenique S. António. Como nasceram essas ideias?  

São tradições que já estavam na família há muitos anos e que sempre foram muito respeitadas internamente, mas não estavam abertas ao público. A partir do momento que abrimos a nossa loja e tivemos os vinhos engarrafados, foi algo para que quisemos abrir à comunidade.  

Queremos partilhar as nossas tradições e isso é que preza a nossa riqueza, porque esta vive das tradições. Quanto mais antiga é uma casa, mais dessas tradições tem e essas devem ser transmitidas para quem nos vem visitar. Adegas há muitas, mas adegas com tradições centenárias não há assim tantas. Queremos que as pessoas que aqui vêm se sintam bem e vivam um bocadinho do que foi o nosso passado, e que também o consigamos recuperar um pouco. E vê-se que é isso que as pessoas querem porque a adesão a estas iniciativas tem sido muito boa.  

Para as ADIAFAS as reservas esgotam até ao final de Agosto e o piquenique de Santo António cada vez tem tido mais gente e todos os anos tem esgotado, e a Quinta proporciona esse convívio nos seus espaços externos e numa altura de bom tempo.  

 Pessoalmente, via-se a fazer algo diferente de ser enólogo? 

Não, não me via. (risos). Acho que estou na profissão certa para aquilo que gosto de fazer. Não me vejo a fazer outra coisa.  

DEIXE UMA RESPOSTA

Insira o seu comentário
Nome