AtualidadeDesportoDestaqueEntrevistas

«A nível de gestão, duvido que tenha existido pior do que estes órgãos sociais» – Bruno Carvalho | Entrevista prt. II

- publicidade -

[Entrevista feita a 5 de fevereiro de 2021]

Em entrevista ao Diário do Distrito, Bruno de Carvalho falou das gestão feita pela direção de Frederico Varandas, duvidando que «tenha existido pior do que estes órgãos sociais».

Não consigo perceber como é que uma entidade que tinha 515 milhões para receber, e que, nestes últimos dois anos,  o Sporting tenha voltado àquilo que fazia antes de eu chegar… Em dois anos consome o que devia consumir em seis ou sete. Quando cheguei, o clube estava completamente endividado à SAD. Neste momento, está igual outra vez… O clube é que está a sofrer os desinvestimentos. A nível de gestão, eu duvido que tenha existido pior do que estes órgãos sociais. Quero relembrar as pessoas do projeto Roquette, que durante mais de 20 anos nos deu um acumulado de dívidas de cerca de 500 milhões de euros.

«Isto é o mesmo que um filho mandar num pai» 

Questionado sobre as críticas feitas em 2019 por Francisco Zenha, vice-presidente do Sporting, pelo “all-in” feito, respondeu que, havendo capacidade para fazer investimento sem prejudicar financeiramente o clube, que o mesmo pode ser feito, visto que, a seu ver, «o Sporting precisa de ser campeão»’.

Se houver capacidade no Sporting e na Sporting SAD, e sem nada prejudicar o clube, se eu não verificar que é sempre à custa de desinvestimento do clube, que os investimentos se fazem na SAD, se ambos crescerem como foram nos meus cinco anos e meio… O que está errado é comentário do Francisco Zenha, porque se houver capacidade financeira para fazer all-in para ser campeão, então faz-se. O Sporting precisa de ser campeão. Sem nada prejudicar o clube e os resultados financeiros, qual é o mal de se ter fazer um all-in? Não houve plantéis que as pessoas podiam olhar  e dizer que é um all-in? É feito com dinheiro que trabalhámos para que ele houvesse e em nada prejudicamos o clube ou o futuro da SAD. Portanto, a mim não me incomoda que as pessoas façam o all-in, incomoda-me que seja feito, outra vez, não assegurando aquilo que é a estabilidade financeira da SAD e em detrimento de projetos desportivos do clube e do projeto olímpico. Até porque, novamente, o Sporting está a ser gerido da SAD para o resto, quando é isto é o mesmo que um filho mandar num pai. A SAD mandar no clube para mim não funciona, não significa que eu não saiba que o futebol é o que mexe.

Sobre a atual gestão feita, Bruno de Carvalho demonstra-se preocupado com o futuro das modalidades no clube. 

O conceito de all-in não me assusta, a mim assusta-me duas coisas nesta gestão: Que este está a ser feito à custa de desinvestimento em modalidade do clube e desinvestimento no projeto olímpico, enquanto esse é o nosso ADN. Nós temos ADNs que nenhum presidente devia poder mexer, é o da formação, do ecletismo, da maior potência desportiva nacional e uma das maiores, se não a maior do mundo, a nível daquilo que são os seus multidesportos e o projeto olímpico. Isto é o ADN do Sporting.

«Gostava muito que (…), independentemente dos resultados desportivos, que as pessoas não se esquecessem daquilo que é a estabilidade»

O ex-presidente do Sporting irá festejar o título «como se tivesse seis anos de idade», mas confessa que a questão financeira será a principal preocupação no dia seguinte.

Quero relembrar que vivi euforicamente, e voltava a viver, mesmo que soubesse tudo o que sei hoje, os títulos de 1999/2000 e 2001/2002. Em três anos foi duas vezes campeão, e já passaram 19, que era o que tinha passado anteriormente. Quero com isto dizer que este pessoal é pródigo em ter uma gestão de resultado rápido e fácil, não quer dizer que tenha sido rápido, mas sinceramente, quando não vejo um projeto sustentado, estabilidade financeira e  gestão, tenho muitas duvidas, e tenho a certeza a absoluta que vamos ser campeões e que eu vou comemorar como se tivesse seis anos de idade, mas também tenho a certeza absoluta que vou estar com as mesmas preocupações que, como gestor, tenho tido com esta gestão financeira, não pelo all-in, mas porque este all-in está a ser feito com dinheiro que devia ser consumido durante alguns anos, e isso nós, Sportinguistas, tivemos a experiência durante 25 anos de quem fez isso e sabemos onde é que chegamos. Eu não estou a fazer campanha, não quero ir para o Sporting, mas gostava muito que sinceramente, independentemente dos resultados desportivos, que não se esquecessem daquilo que é a estabilidade que não embandeirem em arco com o título e hipotequem os próximos  anos, como aconteceu no passado.

«Legitimidade ele [Frederico Varandas] tem (…), eu espero é que (…) não volte a ganhar»

Questionado sobre a legitimidade da continuidade e futura candidatura de Frederico Varandas, ainda tem mais um ano de mandato, caso vença o campeonato, Bruno de Carvalho é claro,

- publicidade -

Eu dou muito valor à palavra legitimidade, porque legitimidade claro que tem, como gostava que toda a gente tivesse legitimidade para se poder candidatar ao Sporting Clube de Portugal. Eu espero é que, candidatando-se ao Sporting, não volte a ganhar, porque tenho a certeza absoluta, e não sou eu, que o Sporting tem no seu universo de associados pessoas que percebam de gestão e de desporto muito melhor do que o Frederico Varandas. Eu não acredito, não é por desrespeito, assim como eu não estou a ver que eu pudesse ser um bom médico nas clínicas do Dr. Varandas, também não percebo porque é que acham que pode ser um um bom gestor num mundo que precisa de gestores. Acho que cada macaco no seu galho. O Sporting necessita de quem o volte a colocar num sentido a nível desportivo e financeiro como esteve naqueles cinco anos e meio, mas, fazendo muito melhor do que eu, que é conseguir ser campeão. E de certeza que isso existe no universo do Sporting.

O sucesso desportivo no futebol não muda a opinião do ex-presidente do clube verde e branco, «se, devido ao que se está a passar no futebol, o passei a considerar um bom presidente ou se está rodeado de uma boa equipa diretiva? Não, acho que são exatamente a mesma coisa que eram desde o início».

«Então pode-se e é um erro gravíssimo estarem a enganar os sócios a dizerem que não têm»

Sobre o investimento feito, Bruno de Carvalho considera que, desportivamente, Rúben Amorim e Paulinho foram aquisições brilhantes, mas  que a nível de gestão, tendo em conta a situação financeira do clube, foram, nas suas palavras, péssimas.

Tendo ido sem dinheiro buscar um treinador, que é um deficiência de gestão, é buscar o que não temos dinheiro para ir buscar… Ou então pode-se e é um erro gravíssimo estarem a enganar os sócios a dizerem que não têm. Se têm, foi brilhante, se não têm, foi um mau ato de gestão, mas como está a dar bons resultados, a nível desportivo, consegue esconder tudo. O Paulinho até ao final da caminhada pelo título vai ser importantíssimo, encaixa que nem luva ao modelo tático do Rúben Amorim, o que não significa que não tenha sido um péssimo negócio de gestão. Desportivamente, vai ser fabuloso.

«Neste momento não tenho interesse absolutamente nenhum em assumir funções no Sporting»

Sobre o seu regresso ao Sporting, o ex-presidente só tem intenção de voltar a ser sócio, o que considera ser um direito enquanto cidadão.

Uma coisa foi há um ano, quando disse que gostaria de ser candidato à presidência. A vida avança… e quando eu digo que neste momento não tenho interesse absolutamente nenhum em assumir funções no Sporting, este conjunto de pessoas, os órgãos sociais, que criou a tal narrativa, acredita piamente nela… Então, é mentira, dizem que digo isto para voltar a ser sócio do Sporting para me candidatar outra vez. A minha reintegração é vista como um perigo. Não significa que, um dia mais tarde, não possa ter a vontade, como cidadão livre, de voltar a candidatar-me. Neste momento, não é o enquadramento que vejo para a minha vida. Se eu não fiz nada daquilo que fui acusado, se quando tive no Sporting, em termos de gestão, se traduziu em valores positivos, o que nunca tinha acontecido no passado, quer no clube, quer na SAD. Tivemos desportivamente os melhores anos a nível de resultados, acumulando com aos resultados financeiros, não percebo qual seria o medo de eu um dia me poder voltar a candidatar e os sócios decidirem. 

Tenho muito a dizer sobre a destituição, mas não tem interesse. A destituição foi expulsar uma pessoa de sócio, seja do que for, é cortar uma parte da nossa liberdade enquanto cidadãos. Enquanto cidadão, deixei de ter a possibilidade de ser sócio, e isto é inconcebível. Já não tem a ver com questões profissionais, mas com tirar uma liberdade e, ao perceber que se agiu mal, não se devolver essa liberdade, de eu e os meus três colegas sermos novamente sócios do Sporting. 

É uma questão de justiça. Se um dia alguém achar que se deve fazer essa justiça perante a grande injustiça que foi, e continuo a dizer que não me referi publicamente, e não o vou fazer aqui, especificamente sobre a destituição, porque considero que sendo um instrumento que está ao alcance das pessoas, e podendo as pessoas utilizar, utilizaram e está utilizado. É a minha opinião.

Para Bruno de Carvalho, o não regresso a sócio parte da falta de interesse dos atuais órgãos sociais do clube.

Infelizmente já se verificou para este órgão sociais que justo é permanecermos expulsos, vermos a nossa liberdade a ser restringida por vontade dos membros da Mesa de Assembleia Geral do Sporting. Parece-me limitador daquilo que é um estado direito e de democracia que estejamos expulsos e a sofrer as consequências pela vontade dessas pessoas. Se um requerimento com 5 mil assinaturas (entregue no ano passado e rejeitado) não é de respeitar, não sei… Estamos a fazer de pessoas voltarem a ser sócios de um clube como se fosse algo associado às alterações climatéricas ou sobre a sobrevivência da espécie humana no planeta terra. Parece que ser sócio é muito mais profundo do que amar o clube, ter vontade e pagar as cotas… Espero que exista alguém um dia no Sporting que, das primeiras coisas que faça, até para bem do clube, que nem peça assembleia, faça uma reunião de direção e dos restantes órgãos sociais e que nos coloquem como sócios por uma questão de, como já disse, de justiça e do bom nome do Sporting. 

1ª parte da entrevista – «Não tenho dúvida nenhuma que o Sporting vai ser campeão» – Bruno Carvalho | Entrevista prt. I
3ª parte da entrevista – «Para mim, enquanto cidadão, Alcochete não está resolvido» – Bruno de Carvalho | Entrevista prt. III
4ª parte da entrevista – «A seguir a Pinto da Costa, António Salvador é o melhor presidente em Portugal» – Bruno de Carvalho | Entrevista prt. IV
5ª parte da entrevista – «Tive um órgão de comunicação social que não descansou enquanto não pôs Portugal a considerar-me culpado» – Bruno de Carvalho | Entrevista prt. V

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Permita anúncios

Detetámos que utiliza um bloqueador de anúncios.
Apoie o jornalismo sério e considere desativá-lo para o nosso site.
Saiba como desactivar: carregue aqui